Síntese biográfica do meu percurso em África durante a Guerra Colonial o0o Mobilizado como Furriel do QP, de 1965 a 1967 integrado na CArt 785/BArt786 formado no RAP-2, para prestar serviço na RMA – Angola, no Sub-Sector do Quitexe , Sector de Carmona, destacado na Fazenda Liberato, Fazenda S. Isabel e novamente Fazenda Liberato de onde regressei á Metrópole o0o Mobilizado como 2º Sarg. de 1968 a 1970, em rendição individual para RMA- Angola e colocado no GAC/NL em Nova Lisboa , Huambo, mais tarde transferido por troca, para Dinge em Cabinda integrado na CArt 2396/BArt 2849, formado no RAL.5, regressei no final da comissão a Nova Lisboa de onde parti para Lisboa, a bordo do paquete Vera Cruz onde viajei também na primeira comissão o0o Mobilizado como 1º Sarg. de 1972 a 1974 integrado na Cart3514, formada no RAL.3, para prestar serviço na RMA- Angola , no Sub-Sector de Gago Coutinho (Lumbala Nguimbo) província do Moxico, onde cumprimos 28 meses, em missão de protecção aos trabalhos de construção da “Grande Via do Leste” num troço da estrada Luso – Gago Coutinho – Neriquinha – Luiana. Regressei em 1974, alguns meses depois de Abril 1974, tal como na viagem de ida, a bordo dum Boeing 707 dos TAM,.

sexta-feira, 8 de junho de 2012

Capº.VII - A vida em Gago Coutinho

Viver, como vivi em Gago Coutinho, durante uns meses, enquanto se construía o Acampamento da Colina do Nengo, era uma autêntica pasmaceira. Tinha uma vida de  rotina, comparada quase à de um funcionário civil no seu emprego, constando quase exclusivamente das tarefas burocrático – administrativas e pouco mais. Tinha muito tempo livre à minha disposição que era, muitas vezes, ocupado em dar passeios nos arredores da vila, acompanhado do meu Escriturário, António Carrusca, dos Cabos Socorristas Elísio Soares e  do saudoso Abreu, do Cabo Pimenta, do Condutor Júlio Norte e por vezes do falecido Vicêncio Carreira. Este era o núcleo fixo que muito poucas vezes foi desfeito e permaneceu junto durante a maior parte do tempo de comissão no Leste de Angola. Tínhamos muito tempo em que pelo menos eu e alguns deles ficávamos em frente às instalações que nos serviam de Secretaria, em silêncio e a apreciar os cenários incendiados do por-do-sol, de que anexo aqui uma elucidativa imagem de um desses deslumbrantes espectáculos,  que suponho, não existirem iguais noutras partes do globo.     
Por-do.sol em Angola
Para os passeios, limitavamo-nos a uma área muito próxima da vila e que não ultrapassavam a margem esquerda do primeiro rio que se encontrava na estrada que seguia para os lados do Nengo e Ninda e que era uma área de planície suavemente ondulada , cujo limite eram as margens desse rio que corria para sueste, em direcção à Zâmbia e que eram bastante baixas, dando a percepção de que, no tempo das chuvas, com a subida de nível das águas do rio, deviam ficar submersas, por largo tempo, e que conservavam vestígios de que eram utilizadas pelos autóctones como terrenos agrícolas, com características muito semelhantes às da lezíria dos rios do continente português, situadas nos vales do Tejo, Sado e Mondego. Como já disse algures, estes passeios eram arriscados e apesar de levarmos connosco armas para a defesa individual eram,  na verdade um desafio que resultava de uma descontracção irresponsável de que, felizmente, não resultaram quaisquer consequências, ,mas que não tinham quaisquer garantias de que não viessem a suceder. Enfim, inconsciências da juventude, de que poderiam ter saído acontecimentos indesejáveis. Até parece que estas aventuras e o nada de grave ter acontecido, confirmavam um lema da antiguidade  que dizia: “A sorte  protege os audazes”  e que era e é, o lema de uma elite do Exército Português, os célebres “Comandos”, que o têm, mas na língua latina : "Audaces fortuna juvat” e  um ou outro, querem dizer as mesmas palavras e têm a mesma conotação.  
Passeio nos arredores de Gago Coutinho
 A seguir anexo uma imagem de um desses passeios em que apareço eu, realizados na periferia da Vila de Gago Coutinho. Quanto aos trabalhos de secretariado, era assistido pelo meu Escriturário que, quando o trabalho apertava, eu próprio o ajudava, assim como o Socorrista Soares e o já falecido Cabo CAR Arlindo Pais, que Deus tenha!... Tinha uma dependência em que estava situado um gabinete para o Comandante e outro ao lado para o 1º.Sagento, onde estava a secretária, os arquivos e os cofres fortes da CArt, onde eram guardados os valores próprios da mesma, como por exemplo, o “Fundo de Maneio”, valor que, no fim da comissão, seria devolvido à Rep. de Administração e Orçamento do QG/RMA, em numerário e em contas de Despesas da CArt, assim como o “Fundo Privativo”, de receitas próprias da Companhia, constituído pelas receitas de vendas de Cantina e de vendas de sobras de géneros e despesas com material de consumo corrente.  No fim da Comissão se entregavam contas que eram suportadas por este fundo, sendo o numerário remanescente entregue à RAO/QG/RMA.  
Secretaria da CArt3514 em Gago Coutinho
 Nesta altura junto uma terceira imagem do meu local de trabalho enquanto estive em Gago Coutinho, vendo-se por trás de mim, os dois cofres fortes e um cofre de campanha, tipo arca, fechado a cadeado. A minha área de trabalho está muito arrumada, o que significava uma acalmia na afluência de expediente que, frequentemente, era bastante . Havia luz eléctrica, pois é patente a presença de um candeeiro de secretária, mas se repararem bem vê-se também um outro meio de iluminação mais arcaico, representado por uma vela colada a uma tampa plástica, para as emergências. Este “post” já tem uma extensão bastante razoável e, por isso, vou ter que encerrá-lo, enviando cordiais saudações a todos os elementos da CArt 3514 e seus familiares, para todos os elementos da CArt 785/BArt 786 e da CArt 2396/BArt 2849 e ainda para todos os eventuais visitantes deste Blogue que se derem à paciência de me ler, estejam onde quer que seja. Para todos um até breve com um abraço de amizade do Camarada e Amigo,
Octávio Botelho

sexta-feira, 1 de junho de 2012

Capº. VI - Desfile de Recordações

Permaneceu o Comando da CArt 3514 no Quartel de Gago Coutinho, naquela altura ocupado pelo Batalhão de Cavalaria Nº.3862 “Cavalo Branco”, até depois do Natal do  ano de  1972, mudando para o Acampamento do Nengo, que se encontrava ainda em fase de acabamentos da sua construção, por uma equipa de militares da Companhia, chefiada pelo nosso Camarada, Furriel Milº.António Manuel Melo Soares, que dirigiu magistralmente, essa equipa de construção expedita, em que foram utilizados materiais fornecidos pela natureza ambiente, em madeiras para as estruturas básicas. Foi conseguido pelo Comando o necessário cimento para a base e as chapas de zinco onduladas para os telhados. Quanto às paredes  laterais foram construída de chapas de bidões de alcatrão, depois de devidamente cortadas, alisadas e endireitadas sob os cilindros.
Equipa de Construção do Nengo
Insiro a seguir uma foto de alguns elementos dessa equipa, imagem que documenta o duro trabalho a que foi submetida para realizar a pesada missão que lhe foi atribuída e que muito contribuiu para que o Comando e as suas dependências, assim como os Oficiais e Sargentos e algumas Praças tivessem, dentro do possível, ao seu dispor as razoáveis instalações que usufruíram durante toda a sua restante Comissão. Foi um trabalho de bastante mérito, que muito contribuiu para as boas condições de vida para todos os elementos da CArt 3514, em especial para a parte Logística. Só foi pena que tal se não pudesse estender a todo o pessoal que teve de viver nas tendas de lona cónicas.  Mas a verdade é que tal seria impossível de concretizar.  As  armações e estruturas básicas foram construídas com madeiras abundantes na natureza ambiente, com excepção para as bases que seriam em cimento e os telhados que seriam em chapa de zinco ondulada. Quanto às paredes laterais, foram construídas com chapas de bidões de alcatrão, cortadas à talhadeira e à marreta, sendo depois “passadas a ferro” pelos cilindros  e depois aplicadas e pregadas às estruturas de madeira, até ao nível do telhado. E, como o local, na época quente ou do cacimbo, era batido impiedosamente pelos raios solares, foi colocada sobre os telhados, uma grossa camada de capim, assim como pelas partes laterais do tecto ao chão foi colocada uma antepara de madeira coberta com capim, para que os alojamentos se não transformassem em fornos e ficássemos assados lá dentro. Assim as instalações eram frescas mesmo com o sol mais forte e também mais quentes e confortáveis no tempo mais frio. Também o isolamento dos telhados com o colmo, silenciava o tamborilar da chuva quando esta caía a potes durante a sua época própria.  Eram também instalações seguras quanto a queda de raios durante as trovoadas, funcionando como autênticas “gaiolas de Faraday”pois os seus componentes metálicos conduziam para a “terra” toda  a carga electrica que as percorresse, não atingindo assim o que quer que estivesse no seu interior. E, a propósito de trovoadas,  cheguei a assistir a algumas em que se queimaram uma quantidade enorme de rádios transístores com que mantínhamos ligação como mundo exterior, assim como os rádios das transmissões que ficaram inoperacionais por alguns dias. Estávamos muitas vezes no meio duma imensidão de paisagem , com trovoadas em nossa volta  numa amplitude de 360º, acompanhadas de chuvas  diluvianas que, por uma vez, afogaram um morteiro de 81mm que estava instalado do seu espaldão, tendo sido socorrido, não só pelo pessoal especializado em Armas Pesadas, mas também pelo responsável das Trms, com algum pessoal a assistir em volta com muita curiosidade.
Na imagem: Cmdt.,eu, atrás dele,Sold.Trms.Monteiro, Fur.Parreira, Ribeiro(Cripto), Cabo Pimenta e Fur.Diogo.
No lº.plano, Fur.Silva e atrás deste, o Fur.Medeiros
Anexo aqui uma imagem dessa ocorrência para memória futura. Nela figuram, da esquerda para a direita, o Comandante da CArt 3514, Cap.Milº.Crisóstomo dos Santos, por trás dele, meio escondido, estou eu; segurando o morteiro 81, está o Sold.Trms., Monteiro ; a seguir, o Fur.Milº.Parreira, o Ribeiro “Cripto” e a seguir o Fur.Milº.Diogo, o Vagomestre. O que está curvado, à frente do Ribeiro é o 1º.Cabo Pimenta. No primeiro plano, está o Fur.Milº.”Armas Pesadas” Cardoso da Silva e por detrás deste está, meio escondido, o Fur. Milº.Trms, Medeiros, a prestar uma ajuda na recuperação do morteiro que ficou “afogado” no seu espaldão. Acho que este “post”já atingiu a extensão ideal, pelo que vou encerrá-lo, enviando cordiais saudações a todos os elementos da CArt 3514 e seus familiares, aos da CArt 785/BArt786 e CArt 2396/BArt 2849, e bem assim para todos os eventuais visitantes deste Blogue que se derem ao trabalho de me ler. Para todos um até breve com um abraço do Camarada e Amigo,
Octávio Botelho

sexta-feira, 25 de maio de 2012

Capº. V - Comando e Estado-Maior da CArt 3514

Este era um tema que deveria ter sido apresentado no início da III Parte destas“Crónicas de Angola” mas que, por um lamentável lapso da minha, parte não foi, como deveria ser, atempadamente publicado. Isto foi originado por eu, um tanto ou quanto apressadamente e sem o devido planeamento, ter dado início à resolução de passar a letra de forma a história da minha trajectória pelas terras de Angola, durante a guerra .
Estacionamento do Nengo, da CArt 3514
.Mas, como lá diz o velho ditado: “mais vale tarde do que nunca”, e assim resolvi dar corpo a um trabalho que deveria ter sido feito no início da minha tarefa e aproveito a oportunidade para, aqui e agora, pedir escusas a todos vós por essa minha falha. Assim, vou apresentar a seguir, a relação do pessoal que compunha o Comando e Estado-Maior da ex-CArt 3514 “Panteras Negras”:
Oficiais
Comandante:Cap.Milº.   -  Rui Afonso de A. Crisóstomo dos Santos
Subalternos  :Alf. Milº.   -  Manuel de Araújo Rodrigues
                                      - João Brás
                                      -  António Manuel da Costa e Silva
                                      -  António Maurício Moreira Ribeiro
Sargentos
1º. Sargento  : 1º.Sarg.Artª- Augusto V. M. Torres(a)
                             “          - Octávio B. Botelho(b)  
Sarg.Alim.       Fur,Milº.   -  Alberto M. Diogo
    “   SSaúde                    -  José Manuel Fonseca Marques
    “   Trms                        -  João Osvaldo M. Medeiros
    “    SMat                       -  António de Jesus Duarte
    “     At                           -  Arlindo Sousa
    “                                  -  António José Rosado Carvalho
    “                                  -  António Manuel Melo Soares
    “                                  -  António J. Carrilho
    “                                  -  José da Cunha Ramalhosa
    “                                  -  Manuel António B. Parreira
    “    Mec.AP                   -  Manuel da Rocha C. da Silva
    “     At.                          -  José Manuel C. Pereira
    “                                  -  Raul Lopes Pereira de Sousa
    “                                  -  Manuel Dias Monteiro
    “                                  -  Eduardo Lima Monteiro Barros
Neste “post” , por agora, nada mais há a dizer, excepto que, de um modo geral, todo o pessoal que compunha este Comando e Estado-Maior era um quadro bastante competente e preocupado com o pessoal menor sob o seu Comando e era estimado e respeitado por todo esse pessoal, o que demonstrava um reconhecimento das suas óptimas qualidades de comando, e do apoio, humanidade e cuidados que lhes dispensavam, levando-o, até hoje, a manifestar por tudo, um sentimento de gratidão e agradecimento. Vou encerrar este “post”,  por nada mais ter a dizer sobre esta matéria e não querer alongar-me muito sobre ela. Envio cordiais saudações a todos os elementos da CArt 3514 e familiares, da CArt 785/BArt 786 e da CArt 2396/BArt 2849 e bem assim para todos os eventuais visitantes deste Blogue, onde quer que se encontrem. Para todos vai um abraço de amizade do camarada e Amigo,
Octávio Botelho
Nota do Autor: (a) Exerceu as funções de 1º.Sarg. durante poucos meses, por motivos de saúde. (b) Substituiu, interinamente, durante a maior parte da Comissão, o 1º.Sarg.Titular, na falta deste. Organicamente, pertencia ao 1º.GC, aonde nunca prestou serviço efectivo.
Botelho.      

sexta-feira, 18 de maio de 2012

Capº.IV - A mudança de acampamento

Como referi no Capítulo anterior, ficou a CArt 3514 estacionada na margem esquerda do rio Luanguinga, permanecendo ali, durante uns meses desde Abril do ano de 1972, até cerca do último quadrimestre daquele ano. Por essa altura, foi o Comando da CArt transferido para umas instalações do BCAv 3862(Cavalo Branco) , em Gago Coutinho, tendo ali permanecido uns poucos meses. A nossa passagem deveu-se a que estávamos destinados a ir para um acampamento que estava em construção na margem esquerda do rio Mussuma, mas estudados os prós e os contras da proximidade entre Gago Coutinho e aquele rio, que ficava a uns escassos dez quilómetros, que facilitariam em muito os desenfianços do pessoal para a Vila, foi resolvido situar  noutro local mais afastado o nosso estacionamento. Até já tinha sido começada a terraplanagem e a construção das barreiras de protecção do Acampamento, mas esses trabalhos foram suspensos e iniciados noutro local mais afastado de Gago Coutinho e cuja localização foi desviada para a Colina do Nengo, próxima do rio do mesmo nome e que ficava distante da sede do BCav, cerca de trinta quilómetros. Enquanto se procedia à terraplanagem, levantamento de barreiras e construção de instalações essenciais para a vida da Companhia, permanecemos em Gago Coutinho uns meses, findo os quais fomos instalar-nos no novo aquartelamento, situado na já citada Colina do Nengo, onde permanecemos até ao final da sua missão de serviço em Angola.
Vista aérea do Quartel de Gago Coutinho
Para que façam  uma ideia do que eram as instalações que usámos neste tempo, anexo  uma imagem de vista aérea do  aquartelamento que nos deu guarida durante a construção das nossas instalações definitivas. Estivemos lá instalados desde o fim do ano de 1972, até ao primeiro quadrimestre de 1973. Ainda no ano de 1972 e sensivelmente dois meses depois da morte do 1ºCabo Ernesto Gomes  por acidente em Maio daquele ano, voltámos a ter a visita do azar em 23AGO72 com outro morto por acidente, desta vez o 1º.Cabo Joaquim Ricardo, de quem tive a notícia do acidente que sofrera e tive que comunicar para o QG/RMA o falecimento, que teria de ser confirmado uma hora depois. Foi mais uma bocado de trabalho extra, pois tinha que preparar cópias de certos documentos pessoais do falecido, que eram metidos dentro de uma garrafa lacrada, que seria colocada no esquife, junto do morto, para uma futura confirmação de identidade, fazer um arrolamento dos bens pessoais do falecido, com diversas cópias e  proceder à embalagem selada e lacrada e despacho de tudo isso para a Repartição de Transportes do QG, que se encarregaria de enviá-los ao seu destino.  
Elísio Soares, "barista" da FAP e Botelho
Aqui anexo uma imagem que foi captada no Bar do Destacamento da FAP, em Gago Coutinho, depois de ter sido feita a autópsia , vestido o cadáver e colocados na urna os respectivos documentos de identificação. Nela estão presentes eu e o 1º.Cabo Socorrista Elísio Soares  e estamos a     beber uma cerveja depois de feito o trabalho funerário. O do meio é o “barista” da FAP, de quem não recordo o nome.  Isto foi em 24 de Agosto 72. Permanecemos em Gago Coutinho, até pouco depois do Natal de 1972 e nos princípios de 1973, estávamos a caminho da Colina do Nengo, cujos trabalhos de construção estavam   prestes a terminar e já tinha as necessárias instalações para a Secretaria, quartos para os Oficiais, para os  1ºs.Sargentos e camaratas para os Furriéis Milicianos. Igualmente, foram construídos uma padaria com o seu forno, Cozinha para o Rancho Geral, Refeitório, Cantina, Depósito de Géneros, Quartos para os Criptos e para as TRMs, Messe para Oficiais e Sargentos, Depósitos de Material, Oficinas Auto e Quartos para os CAR, tudo feito em construção expedita, pavimento de cimento, prumos verticais e travejamento de madeira do mata, descascada, paredes laterais de chapas de bidões de asfalto, abertos a talhadeira e “passados a ferro” pelos cilindros de calcar a estrada. O tecto era de chapa de zinco ondulada. Tudo era isolado com camadas de capim para isolamento do calor do sol e evitar que ficássemos assados dentro de casas feitas de metal. Eram frescas durante o dia e quentes durante  as noites típicas de um ambiente semi-desértico em que vivíamos.
O autor, na Sala do Bar da FAP
Finalmente anexo aqui outra imagem, tirada na sala do Bar do Destacamento da FAP, com a típica decoração mural de todos os lugares similares em que sejam,  na sua maior parte, rapazes novos e solteiros. Este “post” já está dentro dos limites habituais e, por isso, vou encerrá-lo, enviando cordiais saudações a todos os elementos da CArt 3514 e familiares, da CArt 2396 e CArt 785, assim como para todos os eventuais visitantes deste Blogue, que se derem ao trabalho de me ler. Para todos, um até breve, com um abraço do camarada e Amigo,
Octávio Botelho

sexta-feira, 11 de maio de 2012

Capº.III - Começo da guerra e...do azar!...

Com a chegada ao nosso destino, na margem esquerda do Rio Luanguinga, iniciou-se a guerra que nos foi imposta a vós, elementos da CArt 3514, pela primeira vez, com uma excepção: para mim, era pela terceira vez. Era um ambiente diferente daquele a que estava habituado nas anteriores comissões, mas como é habitual nos seres humanos, adaptamo-nos muito facilmente a novos ambientes. A primeira característica que estranhei, logo de início, foi as da vegetação, muito diferente da de Cabinda, em que predominavam árvores seculares e de tal altura, tão compactas que em pleno meio-dia, no solo que as suportava, mal entravam os raios do sol. A vegetação do norte de Angola, não era tão alta, mas era também bastante espessa e a iluminação, rente ao solo era também algo deficiente. Na vegetação do leste de Angola muito raramente se viam arvores muito altas e a predominância era a da vegetação arbustiva de espinhosas, típica das zonas semi-desérticas, de solo arenoso, como era o daquela área.  Anexo aqui uma imagem elucidativa de tais características.
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Chana no Leste de Angola, com solo arenoso e vegetação típica.
Ao fundo,  um destacamento, c/barracas cónicas de lona.

Mas, voltando ao rumo da minha história, ficámos alojados em instalações que deixou a CCaç 3370, que fôramos render. Os próprios fizeram correr umas histórias que confirmaram a que nos agoiravam os militares com que nos cruzáramos no caminho para ali. Diziam eles, quando lhes respondíamos que íamos para o Luanguinga: “Cuidado!...A companhia que lá está tem tido bastantes azares com emboscadas e com as  minas  A/C e A/P ” . Estivemos em sobreposição uns poucos dias. A missão  da CArt 3514, era dar protecção aos trabalhos de construção da estrada Luso-Luiana e assim ficamos distribuídos por três locais diferentes:  Luanguinga, um outro, num rio perto de Lutembo, de que não recordo o nome e o outro no Lutembo. No Luanguinga ficaram o comando e dois GC. O tempo decorria lento, mas calmamente, sem nenhuma ocorrência hostil por parte do IN. Mas o azar, que sempre nos espreitara à espera de oportunidade, surgiu inesperadamente.  Decorria o dia 7 de Maio 72, num  domingo, em que os rapazes do GC que estava no Lutembo, tinham realizado um jogo de futebol e findo o mesmo resolveram ir refrescar-se com um banho para as margens do rio próximo. Um deles, de nome Ernesto Gomes, durante o banho foi acometido por um qualquer acidente que originou que o mesmo, repentinamente, se submergisse nas águas que eram profundas, tendo desaparecido nas mesmas. Fizeram-se buscas exaustivas, mas só foi encontrado o cadáver dois dias depois. Era o dia 26º. de comissão no mato e já tínhamos um morto em acidente. Passaram três dias da data em que deveria ter sido relembrado o nosso camarada Ernesto Gomes. Mas como lá diz o ditado: “Mais vale tarde do que nunca”, aqui vai a evocação daquele nosso camarada que, tão cedo se despediu de nós, até  hoje.
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O saudoso Ernesto Gomes, falecido em 07MAI72, ao 26º. dia  de comissão 
no Leste de Angola
Anexo aqui uma imagem representando aquele nosso camarada, de quem me despeço com um “até um destes dias, camarada Gomes!”  Um mês ou dois depois desta ocorrência, o Comando da CArt é transferido para o Quartel de Gago Coutinho, onde o pessoal já tinha umas instalações mais confortáveis e melhores condições de vida, isto para o pessoal do Comando, pois que o que estava em destacamentos tipo nómada, uma vez que tinham de deslocar-se continuamente acompanhando a evolução e avanço dos trabalhos de estrada, evidentemente, estavam em piores condições, vivendo em barracas cónicas de lona. Por isso os destacamentos eram de curta duração, procedendo-se à substituição com outro GC  que saía do Comando para os destacamentos para que pudessem mudar de ambiente e descansarem um pouco mais, pois que o serviço num destacamento era excessivamente pesado e com muitas limitações em todos os aspectos. Poder-se-ia dizer que levavam uma vida de “cão”. 
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Um destacamento da CArt 3514, no Leste de Angola(1972-1974)
Aqui vai uma imagem que mostra um destacamento e o seu ambiente. Este “post”está a atingir os limites a que me propus e, por isso, vou encerrá-lo, enviando cordiais saudações para todos os elementos da CArt  3514 e seus familiares,  para  os ex-combatentes da CArt 785 e elementos da CArt 2396, assim como para todos os  visitantes deste Blogue, estejam onde estiverem, se derem ao trabalho de o ler. Para todos, um até breve com um abraço do Camarada e Amigo,
Octávio Botelho

sexta-feira, 4 de maio de 2012

Capº.II -Preparativos para a guerra

Desembarcados que fomos em Luanda, partimos para o Grafanil, desta vez,  não de comboio como da primeira vez, mas em viaturas militares.  Procedeu-se à  instalação do pessoal nos alojamentos disponíveis para as praças que eram praticamente os   mesmos que já utilizáramos. Para as praças um longo pavilhão coberto, construído em betão e com uns tabuleiros do mesmo material, com cerca de meio metro de altura em que se colocavam colchões de espuma de borracha e se encontravam ao longo de todo o comprimento. As paredes laterais, não encostavam ao tecto da construção, deixando um espaço aberto , ao longo de todo o edifício e a toda a volta,  uma altura de cerca de um metro e  meio, uma abertura para circulação de ar, sem janelas de qualquer espécie . Os oficiais e os sargentos iam para Luanda para hotéis e pensões. Havia, no entanto, para o lº.Sargento, uma caserna tipo JC, assente numa base de cimento, construída com módulos pré-fabricados, que servia de Secretaria e alojamento. Poucos dias lá estivemos, mas o tempo era muito bem aproveitado, pois tínhamos que deixar na Repartição de Vencimentos do QG/RMA, as listagens de todo o efectivo da Companhia para a introdução do mesmo no sistema mecanográfico de vencimentos, assim como do levantamento do Fundo de Maneio da mesma, que era importância bastante avultada e que deveria ser devolvida à Repartição de Contas da RMA, no final da Comissão. Também tinha que se tratar da recepção de material individual do pessoal, de munições e rações de combate para toda a gente e que seriam usadas a partir de determinada altura da deslocação para o local de destino da CArt.  Eram uns dias de trabalho ,bastante aborrecido, que requeria muita calma e atenção!...Mas ao fim do dia, tínhamos a certeza de que teríamos uma tarde bem passada,com um giro pelas esplanadas do “Pólo Norte” e do “Amazonas”, com uns “canhangulos”(*) e uns mariscos e desfrutar de panoramas como o que a foto anexa apresenta, num passeio pela marginal, à hora do por do sol e depois, ir a uma sessão de cinema à esplanada do Cine Miramar, que tinha uma deslumbrante vista sobre Luanda.
Marginal de Luanda, ao por do sol
Era o meu cinema preferido, embora também frequentasse o antigo Restauração (Hoje, a Assembleia Nacional de Angola) e o Tropical, para os lados da Av.Brito Godins. Também fui algumas vezes ao Cine Império, que ficava próximo da Av.dos Combatentes, pois a verdade era que Luanda tinha muitas e óptimas casas de Cinema. Mas voltando à guerra, estivemos no Grafanil poucos dias,  findos os quais nos meteram em autocarros da EVA, com destino a Nova Lisboa, uma viagem que demorava umas boas sete a oito horas e, quando ali chegámos foi-nos distribuído o armamento, ração de combate e equipamento individual para seguirmos dali para o Luso(actual Luena), utilizando como transporte um comboio dos CFB. Podia dizer-se que, a partir de Nova Lisboa, por via férrea, a caminho do Leste, estávamos já a entrar em “zona de guerra” . Chegados ao Luso,  meteram-nos num MVL composto por camiões civis, com uns taipais na caixa de carga semelhantes aos utilizados no transporte de gado, como se pode ver na foto que anexo.  
Na foto, apenas reconheço o Fur.Monteiro
A coluna desloca-se de norte para sul, passa pelo Lucusse, em seguida passa pelo Lungué-Bungo, aquartelamento dum destacamento de Fuzileiros  e depois pelo Lutembo, parando finalmente na margem esquerda do Luanguinga, onde estava também um estaleiro da empresa construtora da estrada. Umas acomodações que constavam de um quarto para o 1º.Sargento e para mim, onde ficámos os dois instalados. Uma secretaria bastante espaçosa. Pela minha parte, estávamos bem, pois já tinha estado em condições bem piores noutros locais. Estávamos muito perto da margem do rio, que era muito plano e com uma corrente não muito forte, mas por não saber nadar, nunca utilizei a praia fluvial para esse fim. Era bastante concorrida, como se pode ver pela foto que anexo a seguir, mas como disse, a mim nunca me atraiu. 
Na imagem: Carmo, Diogo, eu e Parreira
Este “post” está a atingir o limite que me impus e, por isso, vou encerrá-lo enviando cordiais saudações a todos os elementos da CArt 3514 e seus familiares, da CArt 785 e da CArt 2396, assim como para todos os eventuais visitantes deste Blogue, onde quer que se encontrem e se  derem ao trabalho de o ler. Para todos vai um abraço do Camarada e Amigo,

Octávio Botelho
Nota do Autor:(*)"Canhangulos" -Copos altos de cerveja, de barril, com a capacidade de 0,5 litro , também chamados "girafas". 

sábado, 28 de abril de 2012

3ª.PARTE - Cap.I - A minha terceira Comissão em Angola

Estava eu na minha Unidade nos Açores há pouco mais de um ano quando chegou à Secretaria a fatal nota do Estado-Maior do Exército, a nomear-me para mais uma Comissão. Uma péssima novidade para mim e para os meus familiares e com apenas uma coisa boa. A comissão para que estava nomeado era novamente para Angola, uma terra que já não era totalmente desconhecida. Tinha também a particularidade de estar nomeado para integrar os efectivos de uma Companhia Independente, a CArt 3514, também conhecida pelos “Panteras Negras”, cuja Unidade Mobilizadora era o RAL-3, sedeado em Évora.
Crachá da CArt 3514"Panteras Negras" 
Anexo aqui uma imagem do Crachá dessa minha Compamhia.   Por volta dos fins de Outubro chegou o dia da minha partida para a Metrópole e lá fui com a minha parca bagagem, que eram duas simples malas de camarote e um pequeno saco, acompanhado dos meus familiares até ao porto de Ponta Delgada, tendo embarcado no navio “Angra do Heroísmo” , com destino a Lisboa, onde tinha que me apresentar no DGA, na Calçada d’Ajuda, para me ser conferida requisição de transporte de comboio, da Estação Fluvial do Terreiro do Paço para o Barreiro e depois para Évora. Cheguei lá, e da minha futura Companhia ainda pouca gente existia: Não havia praças, nem sargentos e de oficiais apenas lá se encontravam o Comandante , os Aspirantes, futuros alferes Cmdts de GC, o1º.Sargento e mais  ninguém. Depois, foram chegando os  Cabos Milicianos, futuros Furrs. Cmdts. de Secção, os atiradores e, por fim,  os especialistas: condutores, mecânicos auto e de Armas Pesadas, socorristas, cozinheiros, Transmissões de Infª., Radiotelegrafistas, Escriturário, etc., etc..  Soube que houve uma tentativa de me desviar para uma outra Companhia, fazendo uma troca com um outro sargento das outras duas CArts, sob o pretexto de que os açorianos eram “mulas manhosas” e que eu estaria melhor noutra Companhia, que não a CArt 3514. Mas parece que a proposta não foi aceite pelo Comando , que teve o bom senso de não aceitá-la, tendo como que uma previsão do que viria a suceder mais tarde em que se viria a verificar que “ a pedra que os construtores rejeitaram,  se tornou a pedra angular”. Enfim, coisas passadas que, assim como as águas passadas, não fazem mover as azenhas. Depois de estar reunido no RAL-3 todo o pessoal dos efectivos da CArt 3514, iniciou-se a IE e por fim a IAO, numa zona dos arredores de Évora, chamada Valverde, nas proximidades de uma Herdade que lá havia. Nunca fui integrado no meu GC nesses exercícios, pois desde a minha chegada,  fui ligado às funções de auxiliar do 1º.Sargento e apenas me desloquei ao Acampamento uma ou duas vezes em missões de logística, acompanhando o Sargento de Alimentação.  
IAO-Valverde-Évora. Na foto,em cima:Arlindo Sousa, Barros,Monteiro,Marques,Raul Sousa e Ramalhosa;Em baixo.Carvalho,Duarte,Pereira, Soares e Medeiros
Aqui, anexo uma foto tirada durante a IAO em que estão representados alguns dos futuros fur.milºs. Em cima, Arlindo Sousa, Barros, Monteiro, Marques, Raul Sousa e Ramalhosa; em baixo: Carvalho, Duarte, Pereira, Soares e Medeiros. (Esta foto já é de todos conhecida, pois fui sacá-la ao Blogue da CArt 3514”Panteras Negras”e, se tiver de pagar “Copyright” por isso  não se acanhem !...) ;)  Em Dezembro de 71, fui eu  até aos Açores, passar o Natal, com a licença das Normas(licença de Mobilização), finda a qual regressei a Évora. Decorreu entre esta época e a Páscoa de 72 a instrução de Especialidades e IAO, com exercícios Finais e no Domingo de Páscoa tivemos a Parada para a entrega do Galhardete e Desfile de despedida e de seguida partimos de Évora para o Aeroporto Militar de Figo Maduro tendo , cerca da meia-noite, embarcando a bordo de um avião Boeing 707 dos TAM, com destino a Luanda, aonde chegámos após 9 horas de voo e que foi assim tão prolongado porque os países africanos que ficavam debaixo da rota directa e mais curta, não autorizavam a passagem de aeronaves portuguesas transportando militares para a guerra Colonial, o que obrigava a que a rota sobrevoasse  ao largo de África sobre águas internacionais, aumentando assim a extensão do percurso entre Lisboa e Luanda. Desembarcámos em Luanda, cerca das 09H00, com uma temperatura ambiente muito razoável, seguindo de imediato para o Grafanil, como era de necessária e indispensável tradição, para mim já repetida, mas inédita para o restante pessoal da Companhia.  
Capela do Embondeiro, no CM do Grafanil, dedicada a Nª.Srª.de Fátima
Introduzo aqui uma imagem do Campo Militar do Grafanil, que é considerada como um “ex-libris” daquela área. Por agora vou encerrar este “post” enviando cordiais saudações para todos os elementos da CArt 3514 e seus familiares, da CArt 785 e da CArt 2396, assim como para todos os eventuais visitantes deste Blogue, onde quer que se encontrem e se derem à paciência de o ler. Para todos, um até breve e um abraço do Camarada e Amigo,
Octávio Botelho

sexta-feira, 20 de abril de 2012

Adenda

Adenda - 2
Comando e Estado-Maior da CArt 2396/BArt 2849
Este “post” deveria ter sido publicado no início da II Parte destas “Crónicas de Angola”, mas por um lapso da minha parte, originado por não as ter planeado convenientemente, só pude fazê-lo agora. E, como lá diz o velho ditado e com muita verdade,”mais vale tarde do que nunca”, estou aqui e agora a corrigir essa falha, que espero me perdoem os elementos nele nomeados. Assim, a composição do Comando e Estado-Maior da Companhia em questão, era o seguinte:
Comandante:  Cap.Milº. -  António José Gonçalves Novais
Subalternos:    Alf. Milº. -  Marcial R.Portugal
                                       -  Álvaro António A.Frade
                               “        -  Manuel Henrique C.Almeida
                               “        -  Américo Manuel S.Santos
                               “        -  Dr. Jorge Sá Furtado(Médico)
Sargentos   :  2º.Sarg.Artª- Eduardo Augusto C.Costa(a)
                             “        - Octávio Barbosa Botelho(b)
                             “        - Jaime F. da Silva
                       Fur.Milº.   - Gilberto Fernandes(Vagomestre)
                             "      "  - Francisco M. de Matos(Trms)
                             "      "  - Fernando Pais da Costa(S.Saúde)
                             "      "  -  António M.Runa(S.Mat-Mec.Auto)
                             "      "  -  José Wilson M.Neto(At)
                             "      "  -  Luís Gonçalves(At)
                             "      "  -  Luís S.Antunes(At)
                             "      "  -  Hermínio Neves(At)
                             "       " -  Luís Pereira(At)
                             "       " -  Luís Murta(At)
                             “       “ -  José Figueiredo(At)
                             “         - Luís Engenheiro Santos(At)
                             “         - Fernando Afonso Abrantes(At)
                                      - Agostinho Silva(At)
                             “         - Licínio P.Bogalho(At)
Todos os elementos deste Comando e Estado-Maior constituíam, dum modo geral, uma equipa coesa e interessada no conforto e moral dos seus subordinados, destacando-se de entre todos o seu Comandante e o Oficial Médico. Relativamente ao pessoal comandado, este era também de um modo geral, disciplinado e possuidor do  espírito de corpo que se conseguia pela camaradagem que entre ele existia. Termino este “post”enviando cordiais saudações  a todos os elementos da CArt 2396 , da CArt 785 e CArt 3514, assim como para os eventuais visitantes deste Blogue, que se derem ao trabalho de me ler. Para todos um até breve, com um abraço do camarada e amigo,
Octávio Botelho
(a) - Era o 1º.Sarg. Titular da CArt 2396, onde serviu cerca de quatro meses, vindo do RAL-5, sua Unidade mobilizadora.
(b) - Vindo do GAC/NL,  substituiu o 1º.Sarg.Titular, por troca com este, até ao fim da Comissão da CArt 2396/BArt 2849-RAL-5.
Botelho
Adenda - 1
Foi bastante violenta e activa a actividade operacional durante o decurso da minha primeira ida a Angola nos anos de 1965-1967 e posso falar dessa actividade com pleno conhecimento de causa. Longas operações de 6 dias, sem quaisquer condições de higiene, passando a ração de combate, apanhando chuvadas diluvianas, acompanhadas de retumbantes trovoadas, no meio de florestas, cujas árvores caíam atingidas pelos raios, a escassos dez a vinte metros dos locais onde nos encontrávamos e, muitas vezes, secando no corpo as roupas encharcadas e isto, meus camaradas, não era o pior panorama que, se acompanhado pela orquestra das canhanguladas e outras armas do tipo pistola-metralhadora PPSH , FBP e algumas Mausers. O que valia era que nestas ocasiões, bastava gritar: “Venha a Bazooka!...” e mandarmos apenas uma granada para a direcção de onde nos atacavam, para eles se porem, como se diz , “a milhas” e ficávamos tranquilos, pois aqueles já não nos atacariam mais, o que não queria dizer que outros grupos o não fizessem. Em segundo lugar, risco de guerra correm todos os militares, sejam ou não operacionais. Bastava por-se o pé em terra angolana para se estar sujeito a esse risco, ao qual um militar, desde o mais graduado até ao simples soldado estava inexoravelmente ligado. Mas nesta altura, isto é passado e, posso dizer que em mais nenhuma das minhas mais duas Comissões, ocorreram comigo, pela graça de Deus, episódios semelhantes, embora o risco estivesse sempre presente, pairando sobre todos. Voltemos ao fim da minha 2ª.Comissão. Chega o dia de mais um regresso, este ainda a bordo do paquete “Vera Cruz”.
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Botelho e um camarada açoriano,a bordo do "Vera Cruz"
Anexo aqui uma imagem captada no dia da partida para Lisboa. Estou eu e um colega, também açoriano, de regresso a casa. Nesta comissão, felizmente, na Companhia em que prestei serviço em Cabinda, não houveram mortos em combate nem em acidentes de viação, tendo havido apenas uns dois ou três feridos ligeiros num recontro ou emboscada ocorridos no Sangamongo, algures na fronteira norte de Cabinda. Também não tenho conhecimento de nenhum elemento da mesma que tenha sido condecorado pela sua prestação de serviço naquelas paragens.  
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Eu, um primo e meus tios, num piquenique, no Huambo/1970
Em seguida, vou anexar uma imagem de um piquenique, com familiares meus, residentes em Nova Lisboa. Foi realizado nos últimos meses da parte final da minha permanência no Huambo. Nela estou eu, os meus tios e um dos meus primos que eram dois, sendo que um estava a fazer de fotógrafo. Como vêem, é uma cena vulgar, tal qual as que vemos de iguais ocasiões, nas nossas terras, com umas sombras de frondosas árvores, ouvindo-se os sons tranquilos da natureza, uns bons petiscos e umas cervejas fresquinhas, transportadas em caixas isotérmicas e, quem a vê, não faz ideia de que a cena decorra num clima tropical e nas vizinhanças de uma guerra. Mas o local era garantido por ser seguro e podermos estar descontraídos, tal como se pode constatar olhando para a foto.
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Eu, num jardim público do Huambo
Só mais uma última imagem e esta captada num dos jardins públicos do Huambo, que também em nada, nos faz evocar os ambientes tropicais, assemelhando-se muito a um vulgar jardim , numa vulgar cidade europeia. Agora, vou ter que encerrar este “post”,  para, na próxima semana, começar com a minha história da minha última Comissão em Angola, com a CArt 3514 "Panteras Negras". Assim, vou terminar enviando cordiais saudações a todos os elementos da CArt 2396, da CArt 785 e da CArt 3514 e respectivos familiares, assim como para todos os visitantes deste Blogue, onde quer que se encontrem. Para todos um abraço de  amizade do Camarada e Amigo,
Octávio Botelho

sexta-feira, 13 de abril de 2012

Cap.XVIII - Últimos meses no Huambo-Fim da 2ª.Comissão

Como é de todos sabido, o Huambo (ex-Nova Lisboa), fica situado no planalto do maciço central – oeste de Angola e possui um clima que nos faz esquecer que estamos em África, clima esse chamado tropical de altitude, mas que, mesmo assim nos propinava, de vez em quando,  umas  valentes trovoadas, mas não tão espectaculares como as que assistimos  noutros locais  de Angola, como em Cabinda, Luanda ou até na Colina do Nengo, tendo sido neste último local as derradeiras a que assisti e que bastante impressionaram, não só a mim, mas também a todos vós os que a elas assistiram. Eu, ainda hoje, sinto arrepios só de evocar tais ocorrências. Mas, já passou tudo e já há bastantes anos. Entramos agora num outro tipo de evocação e que é, como já disse antes, que a vivência militar numa cidade como Nova Lisboa, se aproximava bastante da que tínhamos nos Açores ou Metrópole, com apenas um inconveniente: A ausência da Família!...Aqui e agora, para confirmar o que digo, vou apor uma imagem que em nada nos faz evocar a África, com as suas típicas palmeiras, cubatas de adobe e tectos de colmo(capim) e uma capela de construção idêntica à das palhotas.
Capela do Bairro de Stº.António-Nova Lisboa
Nesta imagem, vê-se a capela do bairro periférico da cidade, chamado  Bairro de Santo António, uma construção de estilo moderno e casas também de traça actual, mas do tipo colonial. Até nas árvores, se nota a presença de coníferas, que não são típicas de climas tropicais e são, de certo, introduzidas e, portanto, exóticas para os trópicos. Poderá dizer-se que para recordar as espécies arbóreas europeias aos residentes do Bairro. 

Avenida 5 de Outubro-Nova Lisboa
.Em seguida vou colocar a seguir uma outra imagem da cidade. Relativa aos anos setenta. Trata-se da Avenida 5 de Outubro , a principal artéria da Capital. Hoje é provável de esteja muito diferente, pois a guerra que se desencadeou em Angola, depois de sairmos de lá, arrasou a cidade que ficou tal qual um cenário da 2ª.Guerra Mundial: ruínas e só ruínas e que hoje estão, felizmente, bastante recuperadas, pois parece que os ML angolanos já estão mais calmos, pelo menos, aparentemente. 
Cine Ruacaná, Nova Lisboa
Depois desta imagem, vou colocar outra, também dos anos 70, pois as fotos que existem actuais mostram que esta casa de espectáculos,  o Cine “Ruacaná”, a melhor casa do género que havia em Nova Lisboa, se encontra ainda bastante degradada e, certamente, fora de serviço, o que é lamentável. Mas esperamos que os angolanos continuem em paz, esqueçam a guerra, se dêem as mãos e reconstruam as suas cidades, vilas e aldeias, pois que só assim terão progresso e melhores condições de vida.  


Santuário de Nª.Srª.de Fátima- Nova Lisboa
Quase no fim, mas não menos importante, junto uma imagem do Santuário de Nossa Senhora de Fátima que passou incólume e ileso, durante a guerra civil de Angola, pois não se nota nele qualquer sinal de degradação, antes pelo contrário, tem toda a aparência de ter sido tratado com o respeito que merece, como símbolo da Fé de uma grande parte do povo do Huambo e de toda a Angola e que é, também de certeza, o símbolo da Paz que deve haver entre todos os angolanos de todos os povos e tribos, reunindo-os a  todos para o desenvolvimento e progresso da sua Nação. Depois de tudo o que ficou dito, só falta dizer que, uns dois ou três meses, depois de sair de Cabinda e de ter desmobilizado a CArt 2396, embarquei no paquete “Vera Cruz”, de regresso a Lisboa , ao RAL-3 3, por fim aos Açores. 
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Eu e o meu irmão Antonio, despedindo-me, no meu embarque

Coloco aqui mais uma imagem, referente à minha viagem no “Vera Cruz”, acompanhado do meu irmão, que era 1º.Cabo, mas que ainda ficou em Angola mais uns meses a completar a sua  Comissão.   Este “post” já está a ficar um tanto longo e vou terminá-lo, enviando cordiais saudações a todos os elementos da CArt 2396, da CArt 785 e CArt 3514 e aos seus familiares, assim como a todos aqueles que se derem à paciência de me ler, estejam onde estiverem. Para todos vai um abraço de amizade do Camarada e Amigo,
Octávio Botelho 

sexta-feira, 6 de abril de 2012

Capº.XVII - Saída de Cabinda - Regresso a Nova Lisboa

Estávamos na primeira metade dos anos 70, quando a CArt 2396 terminou a sua Comissão de serviço em Cabinda. Não me recordo da data precisa da ocorrência . Só me lembro de que, em certo dia do ano de 70, chegou ao Pangamongo a Companhia que ia render a CArt 2396 que, após a entrega das instalações e materiais à nova Companhia, esteve com esta num curto período de sobreposição, de cerca de uma semana, finda qual a CArt rendida foi, num certo dia, logo após o pequeno  almoço, levada para Cabinda em coluna MVL,  tendo sido mandada apear no porto, sendo em seguida embarcada em duas ou três LDG’s da Armada, com destino a Luanda
Baleia cinzenta
A viagem foi efectuada durante o dia e o estado do mar era de tal ordem, que mais parecia um sereno lago do que o mal afamado Oceano Atlântico. A meio de percurso, uma baleia cinzenta, começou a acompanhar por bombordo a uma distância de cerca de vinte a vinte e cinco metros, numa rota  paralela à da  LDG,  porporcionando-nos, durante uma boa meia hora, um fabuloso espectáculo de saltos. Junto aqui uma imagem que poderá dar uma ideia de um animal, medindo uns quinze a dezoito metros de comprimento e pesando umas boas oitenta toneladas. A verdade é que foi a minha primeira oportunidade que tive de tomar parte numa actividade chamada “whale-watching” hoje muito vulgar na minha terra e de que, naquela altura, ainda se não pensava. Findo o percurso, na ilha de Luanda, onde estava o porto da Armada, tínhamos à nossa espera as viaturas Berliet do Campo Militar do Grafanil que, para lá nos transportaram. Seguiu-se a instalação do pessoal e no dia seguinte, iniciaram-se os trabalhos de liquidação da Companhia, tendo que se colocar nos jornais diários avisos de que a CArt 2396 estava em Liquidatária. Nesse mesmo dia, chegou de Nova Lisboa o 2º.Sarg.Costa, que eu estivera a substituir nas funções de 1º.Sargento que, conforme prometera , veio ajudar-nos na liquidação da Companhia, que  era bastante trabalhosa. Com nós os dois a fazermos os trabalhos a coisa andou bastante bem e depressa, até que chegou o dia em pagámos os  últimos vencimentos e pré aos Oficiais, Sargentos e Praças, até à data do embarque.
Desfile no Juramento de Bandeira 2º.Turno/70
.No entanto, não regressei à minha Unidade em Nova Lisboa, onde iria terminar a.minha Comissão, que só terminaria depois dos meados de 70, pois não me deram  a quitação final, sem que a CArt 2396 estivesse em voo no avião “Boeing 707, dos TAM, a caminho de Lisboa. Nesta ocasião, incluo uma imagem da vida da Unidade em que passei a prestar serviço. Chamava-se GAC/Nova Lisboa e como é visível na imagem, poder-se-ia pensar que se estava numa Unidade metropolitana, pois tinha exactamente o mesmo tipo de actividades de uma Unidade habitual, com as suas Incorporações, ER, Juramentos de Bandeira e Escola de Cabos. Até o meu serviço ali era idêntico e na mesma Secção em que trabalhava na minha Unidade nos Açores: A Secretaria de Mobilização . Aqui, coloco a imagem de um desfile de tropas num Juramento de Bandeira, de um dos turnos de incorporação de 1970. E repare-se no anacronismo verificado no armamento individual dos militares, pois as armas que levam ao ombro são Espingardas Mauser 7,9 mm m/37-A, que como se sabe são armas de repetição. Para eles, a G-3, era uma arma que só lhes servia para estudo e nada mais . As G-3 eram para a guerra a sério e não para paradas e desfiles. E isto era assim, não só em Nova Lisboa, mas em todas as Unidades da Guarnição Normal de Angola, que não eram poucas.
O meu quarto na pensão
Para mim, passei de novo a ter quarto alugado em pensão, pois em Nova Lisboa as Unidades não davam alojamento aos oficiais e Sargentos. Aqui coloco uma outra imagem documentando o que afirmo. Nova Lisboa era  uma cidade rica em monumentos e aqui anexo uma outra imagem da praça Norton de Matos, com uma estátua do mesmo, cercado por quatro figuras alegóricas, representando as quatro virtudes cardiais: A Prudência, a Justiça, a Fortaleza e a Temperança. Hoje neste mesmo local está colocada uma estátua a Agostinho Neto e a estátua de Norton de Matos está actualmente encostada a um muro, ladeado da suas quatro companheiras, quase parecendo que irá ser fuzilado, juntamente com as parceiras.
Monumento a Norton de Matos em Nova Lisboa
No entanto, sabe-se que o homenageado era idolatrado pela população de Nova Lisboa, quer fossem europeus ou autóctones. Bem, apesar de tudo, mantém-se em exposição pública e não armazenado como estão muitas figuras da estatuária deixada pelos portugueses em Luanda. Este já está a ficar um pouco extenso e vou, por isso, terminá-lo, enviando cordiais saudações e votos de Páscoa Feliz, a todos os elementos das CArt 2396, CArt 785 e CArt 3514, assim como para os seus familiares e para  os eventuais visitantes que se derem à paciência de me ler, estejam onde estiverem. Para todos vai um abraço de amizade, com um até breve, do camarada e Amigo,
Octávio Botelho

sexta-feira, 30 de março de 2012

Capº. XVI - Continuando a desfiar...recordações!...

As funções por mim desempenhadas na CArt 2396/BArt 2849/RAL-5, não me permitem entrar em descrições de episódios de combate, de vivência em condições precárias de diversa ordem, que sei que existiram, ainda com agravante de ocorrência de ataques por parte dos Movimentos de Libertação,(neste caso a FLEC(*), em que alguns elementos da NT foram atingidos e feridos, alguns, com certa gravidade, estando a recordar-me de um ataque a um destacamento da minha CArt, situado em Sangamongo em que sucedeu terem  havido feridos que citei acima. Soube dessa ocorrência por informações recebidas via rádio, nas comunicações que existiam entre esse Destacamento e a sede. Assim, para mostrar algumas imagens evocativas da minha permanência em Pagamongo, tenho que recorrer às que posso utilizar e que se reduzem  a fotos de eventos comemorativos de alguns aniversários de que na sede se festejavam. 
2º.Sarg.Botelho, Furs.Vagomestre, Mec.Auto, Neto e Engenheiro. Ao fundo
duas Praças de Trms.

Em consequência disso, aqui coloco uma imagem de um dessas ocorrências,  realizada na Messe de Of. e Sargentos. Deve ser o aniversário do Fur.deTrms., uma vez que se encontram presentes na imagem, duas Praças que são daquela especialidade.Passo a descrever os nomes dos figurantes na foto: Em primeiro lugar estou eu, seguindo-se o Furriel Vagomestre, Fernandes. Em seguida, figura o Fur.Mec.Auto,Runa e imediatamente ao lado, está o Fur.At. Neto, seguindo-se o Fur.At.Engenheiro. Os seguintes são um 1º.Cabo Radiotelegrafista e um Sold.Trms. Deve ter sido captada a imagem antes do início da refeição, uma vez que há poucas Nocal abertas e estarem ainda os pratos virados de borco em cima da mesa. 
Fur.Trms., esposa de um camarada, Botelho, Furs.Vagomestre e Neto
 A imagem que anexo a seguir é de um evento ligado ao Natal ou Ano Novo, uma vez    que está presente uma convidada civil, que era a esposa de um 2º.Sargento do QP , de nome Jaime Silva, que sei que é já falecido. Mas, vou nomear os figurantes que lá estão retratados: O primeiro era o Fur. de Trms, a senhora que está a seguir era, como disse, a esposa de um camarada do QP. E seguir estou eu com um ar muito bem disposto. Depois, estão os Furs.Vagomestre Fernandes e Neto. Ao fundo está uma outra pessoa que não é possível reconhecer. A foto deve ter sido captada no fim da refeição, uma vez que são visíveis as chávenas de café em frente dos figurantes. 
Meio escondido: Fur.Vagomestre, Fur.Enfº., 2º.Sarg.Botelho, Fur.Engenheiro;à dtª.,Fur.Bogalho e
ao fundo, o Comandante de uma das CArts.
Mais uma foto, desta vez num fim-de-Ano, pois há espumante à vista, sendo os seus figurantes, o Fur. Vagomestre Fernandes, só com meio rosto visível, seguindo-se o Fur. Enfº. Pais da Costa. Imediatamente a seguir, eu  próprio, com o meu cigarro na mão e depois o Fur,At.Engenheiro. Na lado direito, em primeiro plano, o Fur.At.Bogalho. Ao fundo e a fumar cachimbo, está um capitão, comandante de uma das CArt do Bart 2849, convidado para o evento. Para encerrar este “post” incluo uma última imagem, mas desta vez, de um animal da fauna de Cabinda, ou melhor, de  toda a África Equatorial. 
Chimpanzés(Mãe e filho)
Trata-se, nada mais nada menos que do chamado chimpanzé que era , juntamente com o seu primo gorila, um visitante nocturno habitual, a pesquisar restos de comida na cozinha do Rancho Geral, fazendo uma enorme barulheira com as tampas dos caldeiros, que se ouviam longe, no silêncio da noite. Este já está a atingir os limite e vou ter que encerrá-lo, enviando cordiais saudações para todos os elementos da CArt 2396, da CArt 785 e da CArt 3514 e familiares e igualmente para todos os eventuais visitantes, onde quer que se encontrem. Para todos em geral, um abraço de amizade do Camarada e Amigo,

Octávio Botelho
Nota do Autor(*) FLEC(Frente de Libertação do Enclave de Cabinda) 

sexta-feira, 23 de março de 2012

Capº. XV - Relembrando fauna e locais de Cabinda

Todas as pessoas que calcorrearam as terras tropicais sabem que é verdade o que vou afirmar: Estas terras são um manancial inesgotável de seres completamente estranhos e exóticos que, na verdade nos espantam pelas suas peculiaridades e que, muitas vezes, nem  sonhávamos que existissem. E tanto assim é que sou levado a relatar um facto bastante estranho, ocorrido comigo, durante a minha permanência em Cabinda. Como é de todos sabido, andar calçado naquelas terras é uma precaução bastante segura para se evitarem surpresas desagradáveis, mas, na verdade, o clima desses lugares não nos obriga a ter aqueles cuidados e somos levados, naturalmente, a andar com os pés à fresca, calçados com “sabrinas”, sujeitando-nos,  assim a muitos contratempos e surpresas desagradáveis. Assim sucedeu que, numa noite em que me encontrava a trabalhar na Secretaria da Companhia, calçado com “sabrinas”(trabalhar de dia era insuportável devido ao calor), senti uma súbita e forte comichão no meu pé direito e comecei a coçar-me  e, quanto mais me coçava, mais comichão sentia, chegando a tal ponto que, com curiosidade, fui ver o que estava a acontecer, tirei os pés de sob a secretária e olhei para eles. Fiquei espantado, pois o local em que sentia incómodo tinha uma enorme bolha de água como se fosse de uma escaldadela com água a ferver. 
Lagarta peluda urticante
 Fui ao Posto de Socorros e  lá me puseram uma pomada qualquer que me acalmou o incómodo que sentia e disseram-me que voltasse lá pela manhã, para verem o resultado. Mal lá entrei, estava lá um nativo que era estagiário em socorrismo e perguntou-me o que se passara. Contei-lhe e responde-me ele: " Isso foi feito por uma lagarta peluda!... Vai fazer tratamento, mas vai demorar muito tempo a cicatrizar, se a pele cair". A pele caiu, pois as roupas da cama arrancaram o penso e a pele. A ferida, apesar de tratada diariamente, levou uns quatro meses a sarar!... O animalejo responsável não foi o que a imagem representa, mas um semelhante e da mesma família, talvez um primo, quem sabe?!... 
Hiena
Um outro estranho animal, que embora pareça um canídeo, não é tal, pois é uma mistura de felídeo e viverrídeo. É essencialmente necrófago e só ataca animais fracos e em vias de morrer. Ainda assim é muito prudente, pois costuma pôr-se em posição erecta antes do ataque e, se a vítima for mais alta do que ela, desiste do seu intento e põe-se “a milhas”. Tem um aspecto antipático,  mas é como Deus o criou e é muito útil a sua função na Natureza e merece ser protegido para se evitar a sua extinção.  
Quartel do BCaç.11"Gorilas do Maiombe", Cabinda - 1969(a)
Em seguida vou colocar uma imagem que evoca um Quartel da Guarnição de Cabinda, que era considerado um modelo em tal tipo de Estabelecimentos e, apenas pelo seu exterior poderá fazer-se uma ideia do que seria interiormente: Instalações impecáveis em Cozinhas, Refeitórios, Messes, Cantinas, camaratas, etc., etc. Outro tanto em Secretarias, arrecadações e outros Anexos próprios destas casas. A sua medida em profundidade era superior à medida frontal e as dependências eram iluminadas por amplas janelas rasgadas e a sua planta era perfeitamente rectangular e com torres de vigilância nos seus quatro cantos. Era designado pelo nome de BCaç. Nº. 13"Gorilas do Maiombe" e, como disse acima, justamente considerado como uma instalação militar modelo. 
Vista parcial das instalações da CC de Cabinda
Para concluir, vou anexar uma última imagem parcial das instalações da CC de Cabinda, onde se procedia ao desbaste, serração e secagem em estufas de madeiras extraídas da floresta do Maiombe. Nesta foto distingue-se, na parte central, o rio Chiloango, com uns vinte a vinte e cinco metros de largura, fronteira natural entre o território de Cabinda e a RD do Congo. A floresta em último plano é terra congolesa limtada pelo rio acima citado. Termino este "post" enviando cordiais saudações aos elementos da CArt2396, CArt785 e CArt3514 e seus familiares e bem assim a todos os eventuais visitantes deste Blogue, onde quer que se encontrem. Um até breve para todos com um abraço do Camarada e Amigo,
Botelho
(a) Nota do Autor: Esta legenda é que  está correcta.