Síntese biográfica do meu percurso em África durante a Guerra Colonial o0o Mobilizado como Furriel do QP, de 1965 a 1967 integrado na CArt 785/BArt786 formado no RAP-2, para prestar serviço na RMA – Angola, no Sub-Sector do Quitexe , Sector de Carmona, destacado na Fazenda Liberato, Fazenda S. Isabel e novamente Fazenda Liberato de onde regressei á Metrópole o0o Mobilizado como 2º Sarg. de 1968 a 1970, em rendição individual para RMA- Angola e colocado no GAC/NL em Nova Lisboa , Huambo, mais tarde transferido por troca, para Dinge em Cabinda integrado na CArt 2396/BArt 2849, formado no RAL.5, regressei no final da comissão a Nova Lisboa de onde parti para Lisboa, a bordo do paquete Vera Cruz onde viajei também na primeira comissão o0o Mobilizado como 1º Sarg. de 1972 a 1974 integrado na Cart3514, formada no RAL.3, para prestar serviço na RMA- Angola , no Sub-Sector de Gago Coutinho (Lumbala Nguimbo) província do Moxico, onde cumprimos 28 meses, em missão de protecção aos trabalhos de construção da “Grande Via do Leste” num troço da estrada Luso – Gago Coutinho – Neriquinha – Luiana. Regressei em 1974, alguns meses depois de Abril 1974, tal como na viagem de ida, a bordo dum Boeing 707 dos TAM,.

sexta-feira, 4 de maio de 2012

Capº.II -Preparativos para a guerra

Desembarcados que fomos em Luanda, partimos para o Grafanil, desta vez,  não de comboio como da primeira vez, mas em viaturas militares.  Procedeu-se à  instalação do pessoal nos alojamentos disponíveis para as praças que eram praticamente os   mesmos que já utilizáramos. Para as praças um longo pavilhão coberto, construído em betão e com uns tabuleiros do mesmo material, com cerca de meio metro de altura em que se colocavam colchões de espuma de borracha e se encontravam ao longo de todo o comprimento. As paredes laterais, não encostavam ao tecto da construção, deixando um espaço aberto , ao longo de todo o edifício e a toda a volta,  uma altura de cerca de um metro e  meio, uma abertura para circulação de ar, sem janelas de qualquer espécie . Os oficiais e os sargentos iam para Luanda para hotéis e pensões. Havia, no entanto, para o lº.Sargento, uma caserna tipo JC, assente numa base de cimento, construída com módulos pré-fabricados, que servia de Secretaria e alojamento. Poucos dias lá estivemos, mas o tempo era muito bem aproveitado, pois tínhamos que deixar na Repartição de Vencimentos do QG/RMA, as listagens de todo o efectivo da Companhia para a introdução do mesmo no sistema mecanográfico de vencimentos, assim como do levantamento do Fundo de Maneio da mesma, que era importância bastante avultada e que deveria ser devolvida à Repartição de Contas da RMA, no final da Comissão. Também tinha que se tratar da recepção de material individual do pessoal, de munições e rações de combate para toda a gente e que seriam usadas a partir de determinada altura da deslocação para o local de destino da CArt.  Eram uns dias de trabalho ,bastante aborrecido, que requeria muita calma e atenção!...Mas ao fim do dia, tínhamos a certeza de que teríamos uma tarde bem passada,com um giro pelas esplanadas do “Pólo Norte” e do “Amazonas”, com uns “canhangulos”(*) e uns mariscos e desfrutar de panoramas como o que a foto anexa apresenta, num passeio pela marginal, à hora do por do sol e depois, ir a uma sessão de cinema à esplanada do Cine Miramar, que tinha uma deslumbrante vista sobre Luanda.
Marginal de Luanda, ao por do sol
Era o meu cinema preferido, embora também frequentasse o antigo Restauração (Hoje, a Assembleia Nacional de Angola) e o Tropical, para os lados da Av.Brito Godins. Também fui algumas vezes ao Cine Império, que ficava próximo da Av.dos Combatentes, pois a verdade era que Luanda tinha muitas e óptimas casas de Cinema. Mas voltando à guerra, estivemos no Grafanil poucos dias,  findos os quais nos meteram em autocarros da EVA, com destino a Nova Lisboa, uma viagem que demorava umas boas sete a oito horas e, quando ali chegámos foi-nos distribuído o armamento, ração de combate e equipamento individual para seguirmos dali para o Luso(actual Luena), utilizando como transporte um comboio dos CFB. Podia dizer-se que, a partir de Nova Lisboa, por via férrea, a caminho do Leste, estávamos já a entrar em “zona de guerra” . Chegados ao Luso,  meteram-nos num MVL composto por camiões civis, com uns taipais na caixa de carga semelhantes aos utilizados no transporte de gado, como se pode ver na foto que anexo.  
Na foto, apenas reconheço o Fur.Monteiro
A coluna desloca-se de norte para sul, passa pelo Lucusse, em seguida passa pelo Lungué-Bungo, aquartelamento dum destacamento de Fuzileiros  e depois pelo Lutembo, parando finalmente na margem esquerda do Luanguinga, onde estava também um estaleiro da empresa construtora da estrada. Umas acomodações que constavam de um quarto para o 1º.Sargento e para mim, onde ficámos os dois instalados. Uma secretaria bastante espaçosa. Pela minha parte, estávamos bem, pois já tinha estado em condições bem piores noutros locais. Estávamos muito perto da margem do rio, que era muito plano e com uma corrente não muito forte, mas por não saber nadar, nunca utilizei a praia fluvial para esse fim. Era bastante concorrida, como se pode ver pela foto que anexo a seguir, mas como disse, a mim nunca me atraiu. 
Na imagem: Carmo, Diogo, eu e Parreira
Este “post” está a atingir o limite que me impus e, por isso, vou encerrá-lo enviando cordiais saudações a todos os elementos da CArt 3514 e seus familiares, da CArt 785 e da CArt 2396, assim como para todos os eventuais visitantes deste Blogue, onde quer que se encontrem e se  derem ao trabalho de o ler. Para todos vai um abraço do Camarada e Amigo,

Octávio Botelho
Nota do Autor:(*)"Canhangulos" -Copos altos de cerveja, de barril, com a capacidade de 0,5 litro , também chamados "girafas". 

sábado, 28 de abril de 2012

3ª.PARTE - Cap.I - A minha terceira Comissão em Angola

Estava eu na minha Unidade nos Açores há pouco mais de um ano quando chegou à Secretaria a fatal nota do Estado-Maior do Exército, a nomear-me para mais uma Comissão. Uma péssima novidade para mim e para os meus familiares e com apenas uma coisa boa. A comissão para que estava nomeado era novamente para Angola, uma terra que já não era totalmente desconhecida. Tinha também a particularidade de estar nomeado para integrar os efectivos de uma Companhia Independente, a CArt 3514, também conhecida pelos “Panteras Negras”, cuja Unidade Mobilizadora era o RAL-3, sedeado em Évora.
Crachá da CArt 3514"Panteras Negras" 
Anexo aqui uma imagem do Crachá dessa minha Compamhia.   Por volta dos fins de Outubro chegou o dia da minha partida para a Metrópole e lá fui com a minha parca bagagem, que eram duas simples malas de camarote e um pequeno saco, acompanhado dos meus familiares até ao porto de Ponta Delgada, tendo embarcado no navio “Angra do Heroísmo” , com destino a Lisboa, onde tinha que me apresentar no DGA, na Calçada d’Ajuda, para me ser conferida requisição de transporte de comboio, da Estação Fluvial do Terreiro do Paço para o Barreiro e depois para Évora. Cheguei lá, e da minha futura Companhia ainda pouca gente existia: Não havia praças, nem sargentos e de oficiais apenas lá se encontravam o Comandante , os Aspirantes, futuros alferes Cmdts de GC, o1º.Sargento e mais  ninguém. Depois, foram chegando os  Cabos Milicianos, futuros Furrs. Cmdts. de Secção, os atiradores e, por fim,  os especialistas: condutores, mecânicos auto e de Armas Pesadas, socorristas, cozinheiros, Transmissões de Infª., Radiotelegrafistas, Escriturário, etc., etc..  Soube que houve uma tentativa de me desviar para uma outra Companhia, fazendo uma troca com um outro sargento das outras duas CArts, sob o pretexto de que os açorianos eram “mulas manhosas” e que eu estaria melhor noutra Companhia, que não a CArt 3514. Mas parece que a proposta não foi aceite pelo Comando , que teve o bom senso de não aceitá-la, tendo como que uma previsão do que viria a suceder mais tarde em que se viria a verificar que “ a pedra que os construtores rejeitaram,  se tornou a pedra angular”. Enfim, coisas passadas que, assim como as águas passadas, não fazem mover as azenhas. Depois de estar reunido no RAL-3 todo o pessoal dos efectivos da CArt 3514, iniciou-se a IE e por fim a IAO, numa zona dos arredores de Évora, chamada Valverde, nas proximidades de uma Herdade que lá havia. Nunca fui integrado no meu GC nesses exercícios, pois desde a minha chegada,  fui ligado às funções de auxiliar do 1º.Sargento e apenas me desloquei ao Acampamento uma ou duas vezes em missões de logística, acompanhando o Sargento de Alimentação.  
IAO-Valverde-Évora. Na foto,em cima:Arlindo Sousa, Barros,Monteiro,Marques,Raul Sousa e Ramalhosa;Em baixo.Carvalho,Duarte,Pereira, Soares e Medeiros
Aqui, anexo uma foto tirada durante a IAO em que estão representados alguns dos futuros fur.milºs. Em cima, Arlindo Sousa, Barros, Monteiro, Marques, Raul Sousa e Ramalhosa; em baixo: Carvalho, Duarte, Pereira, Soares e Medeiros. (Esta foto já é de todos conhecida, pois fui sacá-la ao Blogue da CArt 3514”Panteras Negras”e, se tiver de pagar “Copyright” por isso  não se acanhem !...) ;)  Em Dezembro de 71, fui eu  até aos Açores, passar o Natal, com a licença das Normas(licença de Mobilização), finda a qual regressei a Évora. Decorreu entre esta época e a Páscoa de 72 a instrução de Especialidades e IAO, com exercícios Finais e no Domingo de Páscoa tivemos a Parada para a entrega do Galhardete e Desfile de despedida e de seguida partimos de Évora para o Aeroporto Militar de Figo Maduro tendo , cerca da meia-noite, embarcando a bordo de um avião Boeing 707 dos TAM, com destino a Luanda, aonde chegámos após 9 horas de voo e que foi assim tão prolongado porque os países africanos que ficavam debaixo da rota directa e mais curta, não autorizavam a passagem de aeronaves portuguesas transportando militares para a guerra Colonial, o que obrigava a que a rota sobrevoasse  ao largo de África sobre águas internacionais, aumentando assim a extensão do percurso entre Lisboa e Luanda. Desembarcámos em Luanda, cerca das 09H00, com uma temperatura ambiente muito razoável, seguindo de imediato para o Grafanil, como era de necessária e indispensável tradição, para mim já repetida, mas inédita para o restante pessoal da Companhia.  
Capela do Embondeiro, no CM do Grafanil, dedicada a Nª.Srª.de Fátima
Introduzo aqui uma imagem do Campo Militar do Grafanil, que é considerada como um “ex-libris” daquela área. Por agora vou encerrar este “post” enviando cordiais saudações para todos os elementos da CArt 3514 e seus familiares, da CArt 785 e da CArt 2396, assim como para todos os eventuais visitantes deste Blogue, onde quer que se encontrem e se derem à paciência de o ler. Para todos, um até breve e um abraço do Camarada e Amigo,
Octávio Botelho

sexta-feira, 20 de abril de 2012

Adenda

Adenda - 2
Comando e Estado-Maior da CArt 2396/BArt 2849
Este “post” deveria ter sido publicado no início da II Parte destas “Crónicas de Angola”, mas por um lapso da minha parte, originado por não as ter planeado convenientemente, só pude fazê-lo agora. E, como lá diz o velho ditado e com muita verdade,”mais vale tarde do que nunca”, estou aqui e agora a corrigir essa falha, que espero me perdoem os elementos nele nomeados. Assim, a composição do Comando e Estado-Maior da Companhia em questão, era o seguinte:
Comandante:  Cap.Milº. -  António José Gonçalves Novais
Subalternos:    Alf. Milº. -  Marcial R.Portugal
                                       -  Álvaro António A.Frade
                               “        -  Manuel Henrique C.Almeida
                               “        -  Américo Manuel S.Santos
                               “        -  Dr. Jorge Sá Furtado(Médico)
Sargentos   :  2º.Sarg.Artª- Eduardo Augusto C.Costa(a)
                             “        - Octávio Barbosa Botelho(b)
                             “        - Jaime F. da Silva
                       Fur.Milº.   - Gilberto Fernandes(Vagomestre)
                             "      "  - Francisco M. de Matos(Trms)
                             "      "  - Fernando Pais da Costa(S.Saúde)
                             "      "  -  António M.Runa(S.Mat-Mec.Auto)
                             "      "  -  José Wilson M.Neto(At)
                             "      "  -  Luís Gonçalves(At)
                             "      "  -  Luís S.Antunes(At)
                             "      "  -  Hermínio Neves(At)
                             "       " -  Luís Pereira(At)
                             "       " -  Luís Murta(At)
                             “       “ -  José Figueiredo(At)
                             “         - Luís Engenheiro Santos(At)
                             “         - Fernando Afonso Abrantes(At)
                                      - Agostinho Silva(At)
                             “         - Licínio P.Bogalho(At)
Todos os elementos deste Comando e Estado-Maior constituíam, dum modo geral, uma equipa coesa e interessada no conforto e moral dos seus subordinados, destacando-se de entre todos o seu Comandante e o Oficial Médico. Relativamente ao pessoal comandado, este era também de um modo geral, disciplinado e possuidor do  espírito de corpo que se conseguia pela camaradagem que entre ele existia. Termino este “post”enviando cordiais saudações  a todos os elementos da CArt 2396 , da CArt 785 e CArt 3514, assim como para os eventuais visitantes deste Blogue, que se derem ao trabalho de me ler. Para todos um até breve, com um abraço do camarada e amigo,
Octávio Botelho
(a) - Era o 1º.Sarg. Titular da CArt 2396, onde serviu cerca de quatro meses, vindo do RAL-5, sua Unidade mobilizadora.
(b) - Vindo do GAC/NL,  substituiu o 1º.Sarg.Titular, por troca com este, até ao fim da Comissão da CArt 2396/BArt 2849-RAL-5.
Botelho
Adenda - 1
Foi bastante violenta e activa a actividade operacional durante o decurso da minha primeira ida a Angola nos anos de 1965-1967 e posso falar dessa actividade com pleno conhecimento de causa. Longas operações de 6 dias, sem quaisquer condições de higiene, passando a ração de combate, apanhando chuvadas diluvianas, acompanhadas de retumbantes trovoadas, no meio de florestas, cujas árvores caíam atingidas pelos raios, a escassos dez a vinte metros dos locais onde nos encontrávamos e, muitas vezes, secando no corpo as roupas encharcadas e isto, meus camaradas, não era o pior panorama que, se acompanhado pela orquestra das canhanguladas e outras armas do tipo pistola-metralhadora PPSH , FBP e algumas Mausers. O que valia era que nestas ocasiões, bastava gritar: “Venha a Bazooka!...” e mandarmos apenas uma granada para a direcção de onde nos atacavam, para eles se porem, como se diz , “a milhas” e ficávamos tranquilos, pois aqueles já não nos atacariam mais, o que não queria dizer que outros grupos o não fizessem. Em segundo lugar, risco de guerra correm todos os militares, sejam ou não operacionais. Bastava por-se o pé em terra angolana para se estar sujeito a esse risco, ao qual um militar, desde o mais graduado até ao simples soldado estava inexoravelmente ligado. Mas nesta altura, isto é passado e, posso dizer que em mais nenhuma das minhas mais duas Comissões, ocorreram comigo, pela graça de Deus, episódios semelhantes, embora o risco estivesse sempre presente, pairando sobre todos. Voltemos ao fim da minha 2ª.Comissão. Chega o dia de mais um regresso, este ainda a bordo do paquete “Vera Cruz”.
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Botelho e um camarada açoriano,a bordo do "Vera Cruz"
Anexo aqui uma imagem captada no dia da partida para Lisboa. Estou eu e um colega, também açoriano, de regresso a casa. Nesta comissão, felizmente, na Companhia em que prestei serviço em Cabinda, não houveram mortos em combate nem em acidentes de viação, tendo havido apenas uns dois ou três feridos ligeiros num recontro ou emboscada ocorridos no Sangamongo, algures na fronteira norte de Cabinda. Também não tenho conhecimento de nenhum elemento da mesma que tenha sido condecorado pela sua prestação de serviço naquelas paragens.  
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Eu, um primo e meus tios, num piquenique, no Huambo/1970
Em seguida, vou anexar uma imagem de um piquenique, com familiares meus, residentes em Nova Lisboa. Foi realizado nos últimos meses da parte final da minha permanência no Huambo. Nela estou eu, os meus tios e um dos meus primos que eram dois, sendo que um estava a fazer de fotógrafo. Como vêem, é uma cena vulgar, tal qual as que vemos de iguais ocasiões, nas nossas terras, com umas sombras de frondosas árvores, ouvindo-se os sons tranquilos da natureza, uns bons petiscos e umas cervejas fresquinhas, transportadas em caixas isotérmicas e, quem a vê, não faz ideia de que a cena decorra num clima tropical e nas vizinhanças de uma guerra. Mas o local era garantido por ser seguro e podermos estar descontraídos, tal como se pode constatar olhando para a foto.
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Eu, num jardim público do Huambo
Só mais uma última imagem e esta captada num dos jardins públicos do Huambo, que também em nada, nos faz evocar os ambientes tropicais, assemelhando-se muito a um vulgar jardim , numa vulgar cidade europeia. Agora, vou ter que encerrar este “post”,  para, na próxima semana, começar com a minha história da minha última Comissão em Angola, com a CArt 3514 "Panteras Negras". Assim, vou terminar enviando cordiais saudações a todos os elementos da CArt 2396, da CArt 785 e da CArt 3514 e respectivos familiares, assim como para todos os visitantes deste Blogue, onde quer que se encontrem. Para todos um abraço de  amizade do Camarada e Amigo,
Octávio Botelho

sexta-feira, 13 de abril de 2012

Cap.XVIII - Últimos meses no Huambo-Fim da 2ª.Comissão

Como é de todos sabido, o Huambo (ex-Nova Lisboa), fica situado no planalto do maciço central – oeste de Angola e possui um clima que nos faz esquecer que estamos em África, clima esse chamado tropical de altitude, mas que, mesmo assim nos propinava, de vez em quando,  umas  valentes trovoadas, mas não tão espectaculares como as que assistimos  noutros locais  de Angola, como em Cabinda, Luanda ou até na Colina do Nengo, tendo sido neste último local as derradeiras a que assisti e que bastante impressionaram, não só a mim, mas também a todos vós os que a elas assistiram. Eu, ainda hoje, sinto arrepios só de evocar tais ocorrências. Mas, já passou tudo e já há bastantes anos. Entramos agora num outro tipo de evocação e que é, como já disse antes, que a vivência militar numa cidade como Nova Lisboa, se aproximava bastante da que tínhamos nos Açores ou Metrópole, com apenas um inconveniente: A ausência da Família!...Aqui e agora, para confirmar o que digo, vou apor uma imagem que em nada nos faz evocar a África, com as suas típicas palmeiras, cubatas de adobe e tectos de colmo(capim) e uma capela de construção idêntica à das palhotas.
Capela do Bairro de Stº.António-Nova Lisboa
Nesta imagem, vê-se a capela do bairro periférico da cidade, chamado  Bairro de Santo António, uma construção de estilo moderno e casas também de traça actual, mas do tipo colonial. Até nas árvores, se nota a presença de coníferas, que não são típicas de climas tropicais e são, de certo, introduzidas e, portanto, exóticas para os trópicos. Poderá dizer-se que para recordar as espécies arbóreas europeias aos residentes do Bairro. 

Avenida 5 de Outubro-Nova Lisboa
.Em seguida vou colocar a seguir uma outra imagem da cidade. Relativa aos anos setenta. Trata-se da Avenida 5 de Outubro , a principal artéria da Capital. Hoje é provável de esteja muito diferente, pois a guerra que se desencadeou em Angola, depois de sairmos de lá, arrasou a cidade que ficou tal qual um cenário da 2ª.Guerra Mundial: ruínas e só ruínas e que hoje estão, felizmente, bastante recuperadas, pois parece que os ML angolanos já estão mais calmos, pelo menos, aparentemente. 
Cine Ruacaná, Nova Lisboa
Depois desta imagem, vou colocar outra, também dos anos 70, pois as fotos que existem actuais mostram que esta casa de espectáculos,  o Cine “Ruacaná”, a melhor casa do género que havia em Nova Lisboa, se encontra ainda bastante degradada e, certamente, fora de serviço, o que é lamentável. Mas esperamos que os angolanos continuem em paz, esqueçam a guerra, se dêem as mãos e reconstruam as suas cidades, vilas e aldeias, pois que só assim terão progresso e melhores condições de vida.  


Santuário de Nª.Srª.de Fátima- Nova Lisboa
Quase no fim, mas não menos importante, junto uma imagem do Santuário de Nossa Senhora de Fátima que passou incólume e ileso, durante a guerra civil de Angola, pois não se nota nele qualquer sinal de degradação, antes pelo contrário, tem toda a aparência de ter sido tratado com o respeito que merece, como símbolo da Fé de uma grande parte do povo do Huambo e de toda a Angola e que é, também de certeza, o símbolo da Paz que deve haver entre todos os angolanos de todos os povos e tribos, reunindo-os a  todos para o desenvolvimento e progresso da sua Nação. Depois de tudo o que ficou dito, só falta dizer que, uns dois ou três meses, depois de sair de Cabinda e de ter desmobilizado a CArt 2396, embarquei no paquete “Vera Cruz”, de regresso a Lisboa , ao RAL-3 3, por fim aos Açores. 
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Eu e o meu irmão Antonio, despedindo-me, no meu embarque

Coloco aqui mais uma imagem, referente à minha viagem no “Vera Cruz”, acompanhado do meu irmão, que era 1º.Cabo, mas que ainda ficou em Angola mais uns meses a completar a sua  Comissão.   Este “post” já está a ficar um tanto longo e vou terminá-lo, enviando cordiais saudações a todos os elementos da CArt 2396, da CArt 785 e CArt 3514 e aos seus familiares, assim como a todos aqueles que se derem à paciência de me ler, estejam onde estiverem. Para todos vai um abraço de amizade do Camarada e Amigo,
Octávio Botelho 

sexta-feira, 6 de abril de 2012

Capº.XVII - Saída de Cabinda - Regresso a Nova Lisboa

Estávamos na primeira metade dos anos 70, quando a CArt 2396 terminou a sua Comissão de serviço em Cabinda. Não me recordo da data precisa da ocorrência . Só me lembro de que, em certo dia do ano de 70, chegou ao Pangamongo a Companhia que ia render a CArt 2396 que, após a entrega das instalações e materiais à nova Companhia, esteve com esta num curto período de sobreposição, de cerca de uma semana, finda qual a CArt rendida foi, num certo dia, logo após o pequeno  almoço, levada para Cabinda em coluna MVL,  tendo sido mandada apear no porto, sendo em seguida embarcada em duas ou três LDG’s da Armada, com destino a Luanda
Baleia cinzenta
A viagem foi efectuada durante o dia e o estado do mar era de tal ordem, que mais parecia um sereno lago do que o mal afamado Oceano Atlântico. A meio de percurso, uma baleia cinzenta, começou a acompanhar por bombordo a uma distância de cerca de vinte a vinte e cinco metros, numa rota  paralela à da  LDG,  porporcionando-nos, durante uma boa meia hora, um fabuloso espectáculo de saltos. Junto aqui uma imagem que poderá dar uma ideia de um animal, medindo uns quinze a dezoito metros de comprimento e pesando umas boas oitenta toneladas. A verdade é que foi a minha primeira oportunidade que tive de tomar parte numa actividade chamada “whale-watching” hoje muito vulgar na minha terra e de que, naquela altura, ainda se não pensava. Findo o percurso, na ilha de Luanda, onde estava o porto da Armada, tínhamos à nossa espera as viaturas Berliet do Campo Militar do Grafanil que, para lá nos transportaram. Seguiu-se a instalação do pessoal e no dia seguinte, iniciaram-se os trabalhos de liquidação da Companhia, tendo que se colocar nos jornais diários avisos de que a CArt 2396 estava em Liquidatária. Nesse mesmo dia, chegou de Nova Lisboa o 2º.Sarg.Costa, que eu estivera a substituir nas funções de 1º.Sargento que, conforme prometera , veio ajudar-nos na liquidação da Companhia, que  era bastante trabalhosa. Com nós os dois a fazermos os trabalhos a coisa andou bastante bem e depressa, até que chegou o dia em pagámos os  últimos vencimentos e pré aos Oficiais, Sargentos e Praças, até à data do embarque.
Desfile no Juramento de Bandeira 2º.Turno/70
.No entanto, não regressei à minha Unidade em Nova Lisboa, onde iria terminar a.minha Comissão, que só terminaria depois dos meados de 70, pois não me deram  a quitação final, sem que a CArt 2396 estivesse em voo no avião “Boeing 707, dos TAM, a caminho de Lisboa. Nesta ocasião, incluo uma imagem da vida da Unidade em que passei a prestar serviço. Chamava-se GAC/Nova Lisboa e como é visível na imagem, poder-se-ia pensar que se estava numa Unidade metropolitana, pois tinha exactamente o mesmo tipo de actividades de uma Unidade habitual, com as suas Incorporações, ER, Juramentos de Bandeira e Escola de Cabos. Até o meu serviço ali era idêntico e na mesma Secção em que trabalhava na minha Unidade nos Açores: A Secretaria de Mobilização . Aqui, coloco a imagem de um desfile de tropas num Juramento de Bandeira, de um dos turnos de incorporação de 1970. E repare-se no anacronismo verificado no armamento individual dos militares, pois as armas que levam ao ombro são Espingardas Mauser 7,9 mm m/37-A, que como se sabe são armas de repetição. Para eles, a G-3, era uma arma que só lhes servia para estudo e nada mais . As G-3 eram para a guerra a sério e não para paradas e desfiles. E isto era assim, não só em Nova Lisboa, mas em todas as Unidades da Guarnição Normal de Angola, que não eram poucas.
O meu quarto na pensão
Para mim, passei de novo a ter quarto alugado em pensão, pois em Nova Lisboa as Unidades não davam alojamento aos oficiais e Sargentos. Aqui coloco uma outra imagem documentando o que afirmo. Nova Lisboa era  uma cidade rica em monumentos e aqui anexo uma outra imagem da praça Norton de Matos, com uma estátua do mesmo, cercado por quatro figuras alegóricas, representando as quatro virtudes cardiais: A Prudência, a Justiça, a Fortaleza e a Temperança. Hoje neste mesmo local está colocada uma estátua a Agostinho Neto e a estátua de Norton de Matos está actualmente encostada a um muro, ladeado da suas quatro companheiras, quase parecendo que irá ser fuzilado, juntamente com as parceiras.
Monumento a Norton de Matos em Nova Lisboa
No entanto, sabe-se que o homenageado era idolatrado pela população de Nova Lisboa, quer fossem europeus ou autóctones. Bem, apesar de tudo, mantém-se em exposição pública e não armazenado como estão muitas figuras da estatuária deixada pelos portugueses em Luanda. Este já está a ficar um pouco extenso e vou, por isso, terminá-lo, enviando cordiais saudações e votos de Páscoa Feliz, a todos os elementos das CArt 2396, CArt 785 e CArt 3514, assim como para os seus familiares e para  os eventuais visitantes que se derem à paciência de me ler, estejam onde estiverem. Para todos vai um abraço de amizade, com um até breve, do camarada e Amigo,
Octávio Botelho

sexta-feira, 30 de março de 2012

Capº. XVI - Continuando a desfiar...recordações!...

As funções por mim desempenhadas na CArt 2396/BArt 2849/RAL-5, não me permitem entrar em descrições de episódios de combate, de vivência em condições precárias de diversa ordem, que sei que existiram, ainda com agravante de ocorrência de ataques por parte dos Movimentos de Libertação,(neste caso a FLEC(*), em que alguns elementos da NT foram atingidos e feridos, alguns, com certa gravidade, estando a recordar-me de um ataque a um destacamento da minha CArt, situado em Sangamongo em que sucedeu terem  havido feridos que citei acima. Soube dessa ocorrência por informações recebidas via rádio, nas comunicações que existiam entre esse Destacamento e a sede. Assim, para mostrar algumas imagens evocativas da minha permanência em Pagamongo, tenho que recorrer às que posso utilizar e que se reduzem  a fotos de eventos comemorativos de alguns aniversários de que na sede se festejavam. 
2º.Sarg.Botelho, Furs.Vagomestre, Mec.Auto, Neto e Engenheiro. Ao fundo
duas Praças de Trms.

Em consequência disso, aqui coloco uma imagem de um dessas ocorrências,  realizada na Messe de Of. e Sargentos. Deve ser o aniversário do Fur.deTrms., uma vez que se encontram presentes na imagem, duas Praças que são daquela especialidade.Passo a descrever os nomes dos figurantes na foto: Em primeiro lugar estou eu, seguindo-se o Furriel Vagomestre, Fernandes. Em seguida, figura o Fur.Mec.Auto,Runa e imediatamente ao lado, está o Fur.At. Neto, seguindo-se o Fur.At.Engenheiro. Os seguintes são um 1º.Cabo Radiotelegrafista e um Sold.Trms. Deve ter sido captada a imagem antes do início da refeição, uma vez que há poucas Nocal abertas e estarem ainda os pratos virados de borco em cima da mesa. 
Fur.Trms., esposa de um camarada, Botelho, Furs.Vagomestre e Neto
 A imagem que anexo a seguir é de um evento ligado ao Natal ou Ano Novo, uma vez    que está presente uma convidada civil, que era a esposa de um 2º.Sargento do QP , de nome Jaime Silva, que sei que é já falecido. Mas, vou nomear os figurantes que lá estão retratados: O primeiro era o Fur. de Trms, a senhora que está a seguir era, como disse, a esposa de um camarada do QP. E seguir estou eu com um ar muito bem disposto. Depois, estão os Furs.Vagomestre Fernandes e Neto. Ao fundo está uma outra pessoa que não é possível reconhecer. A foto deve ter sido captada no fim da refeição, uma vez que são visíveis as chávenas de café em frente dos figurantes. 
Meio escondido: Fur.Vagomestre, Fur.Enfº., 2º.Sarg.Botelho, Fur.Engenheiro;à dtª.,Fur.Bogalho e
ao fundo, o Comandante de uma das CArts.
Mais uma foto, desta vez num fim-de-Ano, pois há espumante à vista, sendo os seus figurantes, o Fur. Vagomestre Fernandes, só com meio rosto visível, seguindo-se o Fur. Enfº. Pais da Costa. Imediatamente a seguir, eu  próprio, com o meu cigarro na mão e depois o Fur,At.Engenheiro. Na lado direito, em primeiro plano, o Fur.At.Bogalho. Ao fundo e a fumar cachimbo, está um capitão, comandante de uma das CArt do Bart 2849, convidado para o evento. Para encerrar este “post” incluo uma última imagem, mas desta vez, de um animal da fauna de Cabinda, ou melhor, de  toda a África Equatorial. 
Chimpanzés(Mãe e filho)
Trata-se, nada mais nada menos que do chamado chimpanzé que era , juntamente com o seu primo gorila, um visitante nocturno habitual, a pesquisar restos de comida na cozinha do Rancho Geral, fazendo uma enorme barulheira com as tampas dos caldeiros, que se ouviam longe, no silêncio da noite. Este já está a atingir os limite e vou ter que encerrá-lo, enviando cordiais saudações para todos os elementos da CArt 2396, da CArt 785 e da CArt 3514 e familiares e igualmente para todos os eventuais visitantes, onde quer que se encontrem. Para todos em geral, um abraço de amizade do Camarada e Amigo,

Octávio Botelho
Nota do Autor(*) FLEC(Frente de Libertação do Enclave de Cabinda) 

sexta-feira, 23 de março de 2012

Capº. XV - Relembrando fauna e locais de Cabinda

Todas as pessoas que calcorrearam as terras tropicais sabem que é verdade o que vou afirmar: Estas terras são um manancial inesgotável de seres completamente estranhos e exóticos que, na verdade nos espantam pelas suas peculiaridades e que, muitas vezes, nem  sonhávamos que existissem. E tanto assim é que sou levado a relatar um facto bastante estranho, ocorrido comigo, durante a minha permanência em Cabinda. Como é de todos sabido, andar calçado naquelas terras é uma precaução bastante segura para se evitarem surpresas desagradáveis, mas, na verdade, o clima desses lugares não nos obriga a ter aqueles cuidados e somos levados, naturalmente, a andar com os pés à fresca, calçados com “sabrinas”, sujeitando-nos,  assim a muitos contratempos e surpresas desagradáveis. Assim sucedeu que, numa noite em que me encontrava a trabalhar na Secretaria da Companhia, calçado com “sabrinas”(trabalhar de dia era insuportável devido ao calor), senti uma súbita e forte comichão no meu pé direito e comecei a coçar-me  e, quanto mais me coçava, mais comichão sentia, chegando a tal ponto que, com curiosidade, fui ver o que estava a acontecer, tirei os pés de sob a secretária e olhei para eles. Fiquei espantado, pois o local em que sentia incómodo tinha uma enorme bolha de água como se fosse de uma escaldadela com água a ferver. 
Lagarta peluda urticante
 Fui ao Posto de Socorros e  lá me puseram uma pomada qualquer que me acalmou o incómodo que sentia e disseram-me que voltasse lá pela manhã, para verem o resultado. Mal lá entrei, estava lá um nativo que era estagiário em socorrismo e perguntou-me o que se passara. Contei-lhe e responde-me ele: " Isso foi feito por uma lagarta peluda!... Vai fazer tratamento, mas vai demorar muito tempo a cicatrizar, se a pele cair". A pele caiu, pois as roupas da cama arrancaram o penso e a pele. A ferida, apesar de tratada diariamente, levou uns quatro meses a sarar!... O animalejo responsável não foi o que a imagem representa, mas um semelhante e da mesma família, talvez um primo, quem sabe?!... 
Hiena
Um outro estranho animal, que embora pareça um canídeo, não é tal, pois é uma mistura de felídeo e viverrídeo. É essencialmente necrófago e só ataca animais fracos e em vias de morrer. Ainda assim é muito prudente, pois costuma pôr-se em posição erecta antes do ataque e, se a vítima for mais alta do que ela, desiste do seu intento e põe-se “a milhas”. Tem um aspecto antipático,  mas é como Deus o criou e é muito útil a sua função na Natureza e merece ser protegido para se evitar a sua extinção.  
Quartel do BCaç.11"Gorilas do Maiombe", Cabinda - 1969(a)
Em seguida vou colocar uma imagem que evoca um Quartel da Guarnição de Cabinda, que era considerado um modelo em tal tipo de Estabelecimentos e, apenas pelo seu exterior poderá fazer-se uma ideia do que seria interiormente: Instalações impecáveis em Cozinhas, Refeitórios, Messes, Cantinas, camaratas, etc., etc. Outro tanto em Secretarias, arrecadações e outros Anexos próprios destas casas. A sua medida em profundidade era superior à medida frontal e as dependências eram iluminadas por amplas janelas rasgadas e a sua planta era perfeitamente rectangular e com torres de vigilância nos seus quatro cantos. Era designado pelo nome de BCaç. Nº. 13"Gorilas do Maiombe" e, como disse acima, justamente considerado como uma instalação militar modelo. 
Vista parcial das instalações da CC de Cabinda
Para concluir, vou anexar uma última imagem parcial das instalações da CC de Cabinda, onde se procedia ao desbaste, serração e secagem em estufas de madeiras extraídas da floresta do Maiombe. Nesta foto distingue-se, na parte central, o rio Chiloango, com uns vinte a vinte e cinco metros de largura, fronteira natural entre o território de Cabinda e a RD do Congo. A floresta em último plano é terra congolesa limtada pelo rio acima citado. Termino este "post" enviando cordiais saudações aos elementos da CArt2396, CArt785 e CArt3514 e seus familiares e bem assim a todos os eventuais visitantes deste Blogue, onde quer que se encontrem. Um até breve para todos com um abraço do Camarada e Amigo,
Botelho
(a) Nota do Autor: Esta legenda é que  está correcta.

sexta-feira, 16 de março de 2012

Capº.XIV - Recordando eventos

Vou prosseguir com a recordação de alguns eventos ocorridos durante a minha permanência na CArt 2396, que se encontrava, como já disse em anteriores”posts”, aquartelada no Acampamento da Companhia de Celulose de Cabinda, situado na localidade chamada Pangamongo, junto à República Democrática do Congo, separada desta por uns modestos vinte a vinte e cinco metros, largura do rio Chiloango, que servia de fronteira natural entre os dois territórios. E, para iniciar este “post”, cá estou de novo a recorrer à indispensável “muleta” das imagens para conseguir compor o texto que quero apresentar. Desta vez, a imagem a que recorri, foi captada numa comemoração de um aniversário, mas não me recordo de quem. 
Da esqª.para a direita:Furs.Neto e Runa,1º.Cabo Rodrigues e 2º.Sarg.Botelho
  Deve ter sido talvez do Comandante da Companhia ou de um qualquer seu familiar, uma vez que foi servida a refeição no Refeitório das Praças  e foi, de facto uma comemoração em grande, pois estiveram na mesma todos os elementos presentes na ocasião que devia ser pouco mais de um GC. Na foto em questão, estão presentes eu, a seguir o Fur.Mec. Auto Runa e o Fur. At. Neto. O militar que está a servir à mesa é o 1º.Cabo Rodrigues que era um dos moços que serviam às mesas da Messe de Of. e Sarg..  Há um quinto elemento que está escondido no primeiro plano da foto e que não é possível reconhecer.
Espectáculo de ilusionismo
Seguidamente, vou  anexar outra foto, que representa um espectáculo de variedades que foi apresentado aos militares  da Companhia, e que era protagonizado pelos artistas em palco e que eram um ilusionista, cuja assistente está a seu lado e que era ao mesmo tempo cancionista no espectáculo. Destes dois artistas um era português e a “partenaire” era espanhola. Do elenco, fazia ainda parte o cançonetista português Luís Piçarra que, na altura, já estava a ficar um tanto ou quanto velhote, mas ainda tinha o seu conhecido timbre de voz bem afinado. Era feito um preço bastante acessível para toda a gente poder assistir aos espectáculos.

Um cacaueiro
 Para variar o tema, vou apresentar uma imagem que representa uma das plantas que, embora não fosse das mais importantes na agricultura  de Cabinda, pois estas eram os cafeeiros, tinham mesmo assim grande utilidade na torrefacção local do café, a cujos grãos se misturavam alguns grãos de cacau que eram torrados em simultâneo com o café e depois moídos, o que  dava ao produto final um típico sabor que só nos Cafés de Cabinda se encontrava. E na verdade era um dos orgulhos de Cabinda o uso do seu lote especial de café, torrado localmente. 

Vista parcial de Cabinda

Por fim e para terminar, apresento uma ultima imagem de uma vista parcial de Cabinda, vendo-se no extremo direito parte do edifício do Rádio Clube de Cabinda, seguindo-se, em segundo plano, alguns prédios de andares. Ao centro e em último plano, encontra-se a Sé Episcopal de Cabinda e no extremo esquerdo mais alguns prédios de andares. Ao longo do primeiro plano, nota-se a existência de uma estrada asfaltada que dava para a entrada ou saída da cidade, sendo a artéria principal para o acesso ou saída da mesma. Estou a ver que tenho de encerrar este “post” e faço-o, apresentando cordiais saudações a todos os elementos da CArt 2396, da CArts 785 e 3514 e familiares, assim como a todos os visitantes deste Blogue, onde quer que se encontrem. Para todos vai um abraço do Camarada e Amigo,
Octávio Botelho

sexta-feira, 9 de março de 2012

Capº.XIII - Prosseguindo o desfile de memórias

Pois é assim, tal como digo no título deste "post"!... Estou aqui de novo a reatar o meu desfile de recordações de Cabinda,a terra "fiote" como se dizia naquele tempo. E, para fazer correr o manancial de memórias, nada melhor do que recorrer às imagens fotográficas  que são excelentes meios de favorecer o ressurgimento de factos já há muitos anos ocorridos. As imagens de que me vou socorrer como "muleta", foram captadas entre os anos 68/70 do extinto século XX e já têm garantida uma existência de 42 a 44 anos que, na verdade, representam uma vida entre tantas que não tiveram uma duração tão longa. Recorri então aos meus ficheiros e seleccionei algumas imagens para ilustrarem esta postagem.  
Na Messe, no fim do Almoço
Assim, em primeiro lugar,  escolhi esta foto que evoca o fim de um almoço na nossa Messe, em que figuro eu, a seguir e voltado de costas, encontra-se o Fur.Milº. Enfº., Pais da Costa. Ao seu lado e perfeitamente visível, encontra-se o Fur. Milº.de Trms e, finalmente, escondido atrás e pouco visível, encontra-se, se não estou em erro, o Fur. Milº. Luís Murta, pois era um dos elementos que ocupava naquela mesa e aquele mesmo lugar, quando se encontrava na sede da CArt 2396, uma vez que era um Fur.Atirador,  operacional, sendo algumas vezes desviado para destacamentos, com o seu GC, para outras zonas de Cabinda.
Raposa voadora

Para variar o tema das fotos, encontrei , bastante a propósito, a imagem que anexo a seguir e representa um animal que nunca vi noutros locais  em Angola, senão em Cabinda. É muito parecido, no aspecto geral, com o morcego europeu, com a diferença no formato do focinho, cor da pelagem e no tamanho, evidentemente. Enquanto aquele tem mais o aspecto de um murganho sem cauda e alado, com uma envergadura alar de pouco mais de 10cm, este, ou melhor, esta a que chamam raposa voadora, tem um focinho muito parecido com uma raposa e uma envergadura alar de 1,m45. Embora tenha o nome cientifico de “Vampyrus”, não é hematófaga, conforme mito criado e alimenta-se unicamente de frutos e de néctar das flores, desempenhando uma útil função de polinização nas plantas frutíferas e na propagação de muitas outras plantas de cujos  frutos se alimenta e em que as sementes desses frutos têem de passar pelo trato digestivo daqueles animais para nascerem novas plantas. São caçados algumas vezes pelos nativos, para serem usados na alimentação e estão em risco de extinção, enbora sejam animais protegidos pela legislação nacional e internacional. São animais mansos e não fogem das pessoas, mas podem transmitir a raiva.
Repuxo e lago com nenúfares junto à Messe de Of.e Sargentos
 Prosseguindo na minha pesquisa de imagens, encontrei a que a seguir anexo e que representa o lago que existia junto à Messe de Oficiais e Sargentos, que tinha plantas de nenúfar na sua água e  uma peanha central de cimento,encimada pela figura de um peixe, de cuja boca saia um repuxo. Dava uma agradável sensação, estar nas horas de silêncio da noite, a ouvir o murmúrio da água a cair no lago e a ouvirmos rádio em surdina, para não incomodar as pessoas que estavam a descansar. 
Finalmente, aqui vai a ultima imagem seleccionada para hoje. Estou eu, a jantar no restaurante da Tila, que servia os camionistas da Madeireira. Ainda me lembro como se fosse hoje do que lá fui comer: um valente bife, com um ovo estrelado, azeitonas pretas e batatas cozidas e, para beber, uma garrafa de 7,5 dl de vinho verde branco Casal Mendes e foi porque não havia Casal Garcia, que era o meu preferido. E ia embora a garrafinha inteira!...Hoje já não faço aquelas aventuras e limito-me ao uso da Coca Light . Este está a atingir a minha tabela e, por isso, vou encerrá-lo, enviando cordiais saudações a todos os  elementos da CArt 2396,  da CArt 785/BArt 786 e da CArt 3514 e bem assim aos eventuais visitantes deste Blogue, onde quer que se encontrem. Para todos um até breve e um abraço do Camarada e Amigo,
Botelho

sexta-feira, 2 de março de 2012

CAPº. XII - Recordando e...vivendo!...

  Para título deste “post”, escolhi palavras derivadas de um provérbio muito antigo: “Recordar é viver” que, embora possa parecer um chavão ou frase feita, tem no seu conceito um amplo sentido de verdade, pois é bem sabido por todos que uma pessoa que não tenha memórias ou recordações da sua vida passada, não tem uma vida plena e será quase como se estivesse fora do ambiente dos vivos, para não dizer , morta. É uma garantia de boa saúde mental uma pessoa ter recordações do seu passado, sejam boas ou más, uma vez que a vida é composta por toda a espécie de recordações ou lembranças. Assim e dando provas de que ainda estou vivo e de que por cá ainda estou, vou inserir neste “post” uma primeira imagem evocativa, não só para mim, mas também para outras pessoas, de ocorrências passadas já há uns bons 43 anos, enquanto  estávamos em missão de “soberania” no Pangamongo, enclave de Cabinda, Angola.
Na imagem:(?),Botelho,Furs.Fernandes e de TRMS.
Na  imagem aparecem várias pessoas, que são, a contar da esquerda para a direita, um furriel, de quem já não lembro o nome, a olhar para a câmara; em segundo lugar, estou eu a fechar os olhos por causa do”flash”. A seguir, meio escondido, encontra-se o Fur.Vagomestre Fernandes e, por fim meio de lado, encontra-se o Fur. de TRMS. Tínhamos estado a jantar e tínhamos acabado de tomar o nosso café e estávamos na conversa a fazer tempo para irmos para os nossos quartos, ouvir as notícias da rádio, pois a televisão ainda não existia, ler alguma coisa e depois, ir  para a cama para dormir, até à manhã do dia seguinte.
Junto ao heli da Madeireira Jomar
Em seguida, tendo rebuscado nos meus ficheiros de imagens, fui encontrar uma outra foto, em que figura a minha pessoa, junto a um helicóptero da Companhia Madeireira “JOMAR”, sedeada em Cabinda, que explorava as madeiras da floresta do Maiombe e era a proprietária das instalações que nos serviam de Quartel. O edifício que está ao centro da foto era a Capela-Escola, pois servia para que se fizessem ali os serviços religiosos e escolares, na mesma casa, mas em salas separadas. Como se pode ver, é um edifício construído em madeira e que, certamente, já hoje não existirá, pois deve ter sido destruído pelos ML, a quando da independência de Angola e, se não foram eles, terá sido destruído pela salalé ou formiga branca .

Prosseguindo com a minha pesquisa no meu acervo fotográfico, fui encontrar uma outra imagem que representa a Sé Catedral de Cabinda. Isto faz-me recordar o bispo auxiliar de Luanda, D.André Muaca que era natural de Cabinda e que foi o primeiro bispo católico autóctone em Portugal e Angola. Estou também a recordar-me de uma passagem que fez no Pangamongo,  transportado num dos camiões do MVL, para fazer visita pastoral à regiões norte e nordeste de Cabinda. Era um simpático velhote, aparentando os seus sessenta anos avançados, mas dotado de bastante vitalidade e vivacidade. Finalmente, após mais algumas pesquisas nos meus arquivos, fui encontrar mais uma imagem que anexo .
Em baixo: Fur.Antunes;de pé Fur.Pais da Costa, Botelho e Furs.Bogalho,Fernandes, Murta e
Gonçalves
Foi tirada a quando da inauguração de um lago com repuxo que foi construído sob o alpendre da Messe de Sargentos. Nela figuram, no primeiro plano e à esquerda, em posição baixa, o Fur. MilºAntunes. No segundo plano e de pé, estão, da esquerda para a direita, o Fur.Milº.Enfº.Pais da Costa,  a seguir, eu próprio, os Fur.Milºs. Bogalho, Fernandes, Murta e Gonçalves. Este já atingiu a extensão ideal e vou ter que encerrá-lo. Envio cordiais saudações para todos os elementos da CArt 2396, CArt 785 CArt 3514 “Panteras Negras” e respectivos familiares, com um até breve e um abraço para todos do Camarada e Amigo,
Botelho

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Cap. Xl - Bicharada de Cabinda

Sem querer meter-me em matéria de ciências naturais, meteu-se-me na cabeça dar uma ideia da bicharada existente em Cabinda que era e é, de facto, muito variada e exótica para todos os europeus e com a qual, só naquele tempo, estavam a tomar contactos e conhecimentos práticos, uma vez que, pelo menos, em teoria, já teriam algumas ideias sobre a respectiva existência. Assim, estavam a conhecer em realidade o que tinham aprendido nos manuais escolares.
Fases da formiga-leão: Larvar; larvar, em posição de caça e
Insecto perfeito(com asas)
Assim, vou começar por mostrar a imagem  dum curioso insecto, com um nome, também um tanto invulgar e que é nada mais nada menos que o de formiga-leão. O animalzinho não é, na realidade uma formiga e muito menos um leão. Apenas é assim chamado porque, na fase larvar da sua existência, é um predador insaciável de outros insectos, tais como formigas e pequenas borboletas que se aproximam curiosamente das armadilhas que a formiga-leão constrói e que constam de pequenas covas cónicas construídas de areia e em cujo fundo se encontra escondido a caçador e, mal as presas assomam curiosas ele, lá do fundo da sua cova, dispara areia sobre a presa que se atrapalha e escorrega pela rampa da armadilha, onde encontra a morte nas fortes mandíbulas do predador. Há um outro insecto curioso que é muito vulgar em toda a África tropical e também em Cabinda.

Morros de salalé(formiga branca)
Trata-se da formiga branca ou salalé, que é uma praga para as madeiras, quer estejam na natureza  ou incluídas na construção de moradias. Mas  enquanto estão na natureza servem-lhes de matéria prima para a construção dos seu ninhos, que são autênticas obras de avançada engenharia, pois têm nas suas estruturas os necessários espaços para ninhos e  maternidades, armazéns de provisões, canais de ventilação, sistemas de aquecimento e até plantações de fungos para alimentação e com andares com corredores e câmaras com aplicações diversas. Tudo isto é construído com uma mistura de celulose de madeira e vegetais, saliva e barro e que fica com uma consistência de argila cozida no forno e, portanto, com uma impermeabilidade total à água das chuvas ou das enchurradas. Junto aqui uma imagem desses morros, que são autênticas cidades fortificadas, que chegam a atingir três ou mais metros de altura e são bastante resistentes ao derrube e à destruição. Prosseguindo e puxando à cena uma outra personagem, bastante antipática  e indesejada e que é, nada mais, nada menos que a “pulga penetrante”. É designada pelos indígenas como “bitacaia” e “matacanha” pelos europeus. É chamada também por “bicho-de-pé”, nome que lhe dão os brasileiros e diz-se até que esse animalículo é originário do Brasil, de onde foi levado  para a África.  Aqui junto uma imagem com a efígie desse parasita que tem uma predilecção pelos pés  das pessoas que se descuidam e andam descalças em Angola e em toda a África. Para a sua retirada, é necessária uma grande  perícia e cuidado para evitar o rebentamento do casulo cheio de ovos, que está sob a pele dos pés originando comichão e que dariam origem a várias infecções se tal acontecesse e os melhores especialistas nessa melindrosa operação são os próprios nativos.
Pulga penetrante(Matacanha, bitacaia ou bicho-de-pé)
São eles os únicos a fazê-lo com garantia total da completa excisão do parasita “matacanha” e respectivo casulo. Não falo aqui dos papagaios cinzentos, nem do miruim e nem dos gorilas pois já aqui fiz referência a esses três habitantes de Cabinda e que são considerados como que o símbolo daquela região tropical africana. Estou a atingir o limite para este “post” e, por isso, vou encerrá-lo enviando cordiais saudações a todos os elementos da CArt 2396/BArt 2849, CArt 785/BArt 786 e CArt  3514, assim como a todos os que se derem ao trabalho de me ler e  aos eventuais visitantes deste Blogue. Para todos, um até breve e um abraço do Camarada e Amigo,
Botelho

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Cap. X - Mais recordações de Cabinda

Apesar de estarem as recordações algo adormecidas pelo passar dos anos é, para mim, suficiente recorrer a algumas imagens fotográficas que tenho digitalizadas e outras que ainda o não estão, para fazê-las surgir das trevas do tempo, com uma nitidez e acuidade excepcionais. A cronologia real dos factos documentados nessas fotas é que se encontra irremediavelmente alterada e sem possibilidades reais de ser reposta. Tal impossibilidade, não tem, na verdade, qualquer importância  para a veracidade dos factos nelas documentados, que são reais, embora apenas estejam localizados aproximadamente nos  anos, desconhecendo-se, com precisão a  dia e hora e mês em que ocorreram e, estes pormenores, na realidade, não têm um interesse tão importante quanto se possa crer.
Pessoal da CArt 2396, na entrada do refeitório em Pagamongo
.Assim, socorro-me de uma imagem em que aparece representada uma parte significativa dos efectivos da CArt 2396/BArt 2849-RAL-5, em que, pela nitidez da sua imagem, se podem reconhecer muitas fisionomias. Reconheço a grande maioria delas, mas nomes, só me lembro de alguns. A foto foi captada por volta dos anos de 68-70 e, por isso, tem garantidamente entre 42 ou 44 anos de idade. É natural que algumas das pessoas que aqui estão representadas, já não façam  parte do mundo dos vivos, outras já estarão um pouco diferentes por efeito da idade e doenças e algumas manterão  ainda um aspecto muito aproximado do que tinham naquela altura, mas os figurantes dela que ainda andem por cá, não estarão esquecidos dos nomes de nenhum deles. 
Lavadeiras
Em  seguida, apresento outra imagem, tirada a quando de uma ida ao Destacamento do Necuto, em que, ao passarmos num pontão sobre um dos afluentes do rio Chiloango, encontrámos um grupo de duas lavadeiras cabindas ocupadas nas suas tarefas diárias de lavagem de roupas. Entre as duas mulheres distingue-se a cabeça de um soldado que lhes pediu um balde emprestado, para colocar água no radiador do Unimog, que estava a aquecer um bocado. A foto seria excepcional se fosse captada em cores, pois o ambiente e a vegetação tinham um colorido como só em África se encontra. Continuando com a minha pesquisa de velhas fotos, fui encontrar esta em que me encontro eu acompanhado de alguns dos Fur.Milºs.
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2º.Sarg.Botelho,Furr. Murta,Pais da Costa,Antunes, Neves e Bogalho.Os miúdos são filhos de
 madeireiros, menos o que está ao colo que é filho do Cmdt.
Deve ter sido captada num domingo, pois eu e alguns dos outros estão”à paisana”. Os miúdos que estão connosco são do acampamento dos madeireiros, com excepção do que está ao colo de um furriel, que é o Tozé , filho do Sr.Cap.Novais, Comandante da CArt 2396. Finalmente, vou apresentar a última imagem deste “post” e que representa parte das instalações portuárias da cidade de Cabinda. Era um porto de grande movimento, mas que, excepcionalmente, neste dia, se encontrava com pouca actividade,  não se vendo qualquer navio em carga ou descarga. Apenas se vêm na doca, ancoradas ao largo, pequenas embarcações e algumas lanchas portuárias. Esta imagem foi captada nos anos 68-70, por ocasião de uma ida à cidade de Cabinda, para ir levantar fundos para o pagamento de ordenados a todos os militares e
Instalações portuárias de Cabinda(vista parcial)
fazer compras da materiais de luz, aquecimento, água, lavagem e limpeza, para gastos da Companhia. Era uma deslocação mensal e que nos ocupava um dia inteirinho. Saíamos de manhã cedo e só regressávamos à Companhia já noite avançada,(21 a 22H00). Só havia tempo para tomar um banho, comer alguma coisa e ir para a cama, pois quando chegávamos e nos víssemos num espelho, não sabíamos se éramos pretos ou brancos, tal era a quantidade de poeira que trazíamos em cima, pois embora a maioria da estrada que percorríamos fosse asfaltada , ainda existiam alguns troços em que era de laterite e bem poeirenta na época seca. Acho que já estou a ultrapassar o limite para a extensão deste “post”, pelo que vou encerrá-lo. Termino enviando cordiais saudações a todos os elementos da CArt 2396/BArt 2849, CArt 785/BArt 786 e CArt 3514-RAL-3. Para todos, um até breve e um abraço do Camarada e Amigo.
Octávio Botelho

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Cap. IX - Outras histórias de Cabinda

Decorridas que são quatro décadas sobre determinadas ocorrências, a memória já nos prega algumas partidas, quando tentamos relatar essas mesmas ocorrências com o  máximo de autenticidade. O que vale, em muito casos, é termos imagens fotográficas que nos ajudam eficazmente a recordar e relatar fielmente os factos que estão documen-tados nessas imagens e nos servem como que de “muleta” para que possamos evocá-los, passando-os a relatos escritos. Assim, após uma exaustiva busca às minhas velhas recordações, encontrei a foto que agora anexo a este “post”e que representa a minha pessoa, quando tinha uns trinta e dois anos de idade. Estou acompanhado por um 1º. Cabo que, se não estou errado, era “Socorrista”. Quanto ao seu nome, francamente, não tenho qualquer lembrança de qual fosse. Se este “post” for lido por algum elemento da CArt 2396, que saiba o nome do meu acompanhante, agradecia que, através de um comentário, me dissesse o seu nome.   A foto foi captada no Destacamento, a nível de Pelotão, da CArt 2396, que se encontrava na localidade chamada Necuto, que ficava situada na fronteira nordeste- sudoeste  com R.D.do Congo, fronteira essa materializada pelo Rio Chiloango, que se vê perfeitamente no 2º.plano da imagem.
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2º.Sarg.Botelho e um 1º.Cabo Socorrista
Por trás de mim, vê-se uma planta florida, chamada mamoeiro, muito abundante em  Angola, mas especialmente em Cabinda. A mata que se vê em último plano na imagem e para além do rio, é a periferia da chamada Floresta do Maiombe, habitat natural dos pigmeus e dos gorilas e está em território congolês. Os nativos do lado português tinham relações comerciais com aldeias vizinhas e usavam o sistema de troca de produtos. Os de cá forneciam produtos agrícolas e do outro lado apresentavam produtos que eram de mais difícil aquisição no lado contrário. Foi  nesta localidade que provei, pela primeira vez, uma cerveja de fabrico congolês, de nome “Primus”, apresentada em garrafas de 1 litro, de uma qualidade bastante razoável. Aqui, também tive a oportunidade de provar umas sardinhas de conserva em tomate, em latas cilíndricas, de excelente sabor e qualidade, de fabrico sul-africano. Prosseguindo a minha pesquisa e utilizando ainda a “muleta” fotográfica, anexo uma outra imagem, captada no mesmo local da anterior, mas desta vez, no interior das instalações militares. Os militares compravam animais aos nativos e possuíam a sua própria criação, como se pode verificar por esta cabra que teve gémeos. Assim, tinham possibilidades de terem leite e carne para uma qualquer emergência ou aperto.
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Criação do Destacamento do Necuto
Obrigavam-se a isto, pois era  muito difícil adquirir estes animais aos nativos pois, quando o tentavam fazer, eles diziam que  não vendiam animais, porque os queriam para criação ou melhor diziam: “não vendemo animal porque é p'ra fazê minino!...” Neste destacamento tinham uns quantos burros semi-domesticados, que  serviam para carregar lenha para a confecção das refeições, pois era o único combustível existente no local que servia e era usado para isso. Continuando a procurar nas minhas velhas fotos, fui encontrar mais esta que segue. Foi tomada, em dia diferente, no mesmo  local das anteriores, próximo do mastro da Bandeira, que ficava num local bastante elevado e sobranceiro à casa do Administrador do Necuto, que se vê em 2º.plano e, ao fundo, a omnipresente floresta do Maiombe, já situada na RDC ou Congo de Kinshasa, sendo a fronteira física entre os dois territórios, como já disse acima, o rio Chiloango que, deste local, não é visível.
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Botelho no destacamento do Necuto
E, assim, com estas três imagens fotográficas, recordei e talvez faça mais alguém recordar-se desses tempos que já  lá vão há quarenta e tal anos e que, apesar de muito difíceis e inoportunos naquela altura, é sempre bom recordá-los tendo em atenção o velho axioma que diz que “recordar é viver”, que pode parecer o chavão, que é de facto, mas que é também um sinal de ainda andamos por cá passado tantos anos e que os contratempos daquela época já foram largamente ultrapassados e até deixam algumas saudades. Não saudades doentias, mas sim, as do tempo da nossa juventude, que deu para ultrapassar esses contratempos e agora, passados todo este tempo, recordarmo-los com saudade. Vejo que estou a ultrapassar o espaço que pretendia ocupar e, por isso, vou encerrar este “post”, enviando cordiais saudações a todos os elementos da ex - Cart  2396, das CArt 785 e  3514 e de todos os eventuais visitantes deste Blogue. Para todos vai um abraço e um até breve.
Octávio Botelho