Síntese biográfica do meu percurso em África durante a Guerra Colonial o0o Mobilizado como Furriel do QP, de 1965 a 1967 integrado na CArt 785/BArt786 formado no RAP-2, para prestar serviço na RMA – Angola, no Sub-Sector do Quitexe , Sector de Carmona, destacado na Fazenda Liberato, Fazenda S. Isabel e novamente Fazenda Liberato de onde regressei á Metrópole o0o Mobilizado como 2º Sarg. de 1968 a 1970, em rendição individual para RMA- Angola e colocado no GAC/NL em Nova Lisboa , Huambo, mais tarde transferido por troca, para Dinge em Cabinda integrado na CArt 2396/BArt 2849, formado no RAL.5, regressei no final da comissão a Nova Lisboa de onde parti para Lisboa, a bordo do paquete Vera Cruz onde viajei também na primeira comissão o0o Mobilizado como 1º Sarg. de 1972 a 1974 integrado na Cart3514, formada no RAL.3, para prestar serviço na RMA- Angola , no Sub-Sector de Gago Coutinho (Lumbala Nguimbo) província do Moxico, onde cumprimos 28 meses, em missão de protecção aos trabalhos de construção da “Grande Via do Leste” num troço da estrada Luso – Gago Coutinho – Neriquinha – Luiana. Regressei em 1974, alguns meses depois de Abril 1974, tal como na viagem de ida, a bordo dum Boeing 707 dos TAM,.

sexta-feira, 9 de março de 2012

Capº.XIII - Prosseguindo o desfile de memórias

Pois é assim, tal como digo no título deste "post"!... Estou aqui de novo a reatar o meu desfile de recordações de Cabinda,a terra "fiote" como se dizia naquele tempo. E, para fazer correr o manancial de memórias, nada melhor do que recorrer às imagens fotográficas  que são excelentes meios de favorecer o ressurgimento de factos já há muitos anos ocorridos. As imagens de que me vou socorrer como "muleta", foram captadas entre os anos 68/70 do extinto século XX e já têm garantida uma existência de 42 a 44 anos que, na verdade, representam uma vida entre tantas que não tiveram uma duração tão longa. Recorri então aos meus ficheiros e seleccionei algumas imagens para ilustrarem esta postagem.  
Na Messe, no fim do Almoço
Assim, em primeiro lugar,  escolhi esta foto que evoca o fim de um almoço na nossa Messe, em que figuro eu, a seguir e voltado de costas, encontra-se o Fur.Milº. Enfº., Pais da Costa. Ao seu lado e perfeitamente visível, encontra-se o Fur. Milº.de Trms e, finalmente, escondido atrás e pouco visível, encontra-se, se não estou em erro, o Fur. Milº. Luís Murta, pois era um dos elementos que ocupava naquela mesa e aquele mesmo lugar, quando se encontrava na sede da CArt 2396, uma vez que era um Fur.Atirador,  operacional, sendo algumas vezes desviado para destacamentos, com o seu GC, para outras zonas de Cabinda.
Raposa voadora

Para variar o tema das fotos, encontrei , bastante a propósito, a imagem que anexo a seguir e representa um animal que nunca vi noutros locais  em Angola, senão em Cabinda. É muito parecido, no aspecto geral, com o morcego europeu, com a diferença no formato do focinho, cor da pelagem e no tamanho, evidentemente. Enquanto aquele tem mais o aspecto de um murganho sem cauda e alado, com uma envergadura alar de pouco mais de 10cm, este, ou melhor, esta a que chamam raposa voadora, tem um focinho muito parecido com uma raposa e uma envergadura alar de 1,m45. Embora tenha o nome cientifico de “Vampyrus”, não é hematófaga, conforme mito criado e alimenta-se unicamente de frutos e de néctar das flores, desempenhando uma útil função de polinização nas plantas frutíferas e na propagação de muitas outras plantas de cujos  frutos se alimenta e em que as sementes desses frutos têem de passar pelo trato digestivo daqueles animais para nascerem novas plantas. São caçados algumas vezes pelos nativos, para serem usados na alimentação e estão em risco de extinção, enbora sejam animais protegidos pela legislação nacional e internacional. São animais mansos e não fogem das pessoas, mas podem transmitir a raiva.
Repuxo e lago com nenúfares junto à Messe de Of.e Sargentos
 Prosseguindo na minha pesquisa de imagens, encontrei a que a seguir anexo e que representa o lago que existia junto à Messe de Oficiais e Sargentos, que tinha plantas de nenúfar na sua água e  uma peanha central de cimento,encimada pela figura de um peixe, de cuja boca saia um repuxo. Dava uma agradável sensação, estar nas horas de silêncio da noite, a ouvir o murmúrio da água a cair no lago e a ouvirmos rádio em surdina, para não incomodar as pessoas que estavam a descansar. 
Finalmente, aqui vai a ultima imagem seleccionada para hoje. Estou eu, a jantar no restaurante da Tila, que servia os camionistas da Madeireira. Ainda me lembro como se fosse hoje do que lá fui comer: um valente bife, com um ovo estrelado, azeitonas pretas e batatas cozidas e, para beber, uma garrafa de 7,5 dl de vinho verde branco Casal Mendes e foi porque não havia Casal Garcia, que era o meu preferido. E ia embora a garrafinha inteira!...Hoje já não faço aquelas aventuras e limito-me ao uso da Coca Light . Este está a atingir a minha tabela e, por isso, vou encerrá-lo, enviando cordiais saudações a todos os  elementos da CArt 2396,  da CArt 785/BArt 786 e da CArt 3514 e bem assim aos eventuais visitantes deste Blogue, onde quer que se encontrem. Para todos um até breve e um abraço do Camarada e Amigo,
Botelho

sexta-feira, 2 de março de 2012

CAPº. XII - Recordando e...vivendo!...

  Para título deste “post”, escolhi palavras derivadas de um provérbio muito antigo: “Recordar é viver” que, embora possa parecer um chavão ou frase feita, tem no seu conceito um amplo sentido de verdade, pois é bem sabido por todos que uma pessoa que não tenha memórias ou recordações da sua vida passada, não tem uma vida plena e será quase como se estivesse fora do ambiente dos vivos, para não dizer , morta. É uma garantia de boa saúde mental uma pessoa ter recordações do seu passado, sejam boas ou más, uma vez que a vida é composta por toda a espécie de recordações ou lembranças. Assim e dando provas de que ainda estou vivo e de que por cá ainda estou, vou inserir neste “post” uma primeira imagem evocativa, não só para mim, mas também para outras pessoas, de ocorrências passadas já há uns bons 43 anos, enquanto  estávamos em missão de “soberania” no Pangamongo, enclave de Cabinda, Angola.
Na imagem:(?),Botelho,Furs.Fernandes e de TRMS.
Na  imagem aparecem várias pessoas, que são, a contar da esquerda para a direita, um furriel, de quem já não lembro o nome, a olhar para a câmara; em segundo lugar, estou eu a fechar os olhos por causa do”flash”. A seguir, meio escondido, encontra-se o Fur.Vagomestre Fernandes e, por fim meio de lado, encontra-se o Fur. de TRMS. Tínhamos estado a jantar e tínhamos acabado de tomar o nosso café e estávamos na conversa a fazer tempo para irmos para os nossos quartos, ouvir as notícias da rádio, pois a televisão ainda não existia, ler alguma coisa e depois, ir  para a cama para dormir, até à manhã do dia seguinte.
Junto ao heli da Madeireira Jomar
Em seguida, tendo rebuscado nos meus ficheiros de imagens, fui encontrar uma outra foto, em que figura a minha pessoa, junto a um helicóptero da Companhia Madeireira “JOMAR”, sedeada em Cabinda, que explorava as madeiras da floresta do Maiombe e era a proprietária das instalações que nos serviam de Quartel. O edifício que está ao centro da foto era a Capela-Escola, pois servia para que se fizessem ali os serviços religiosos e escolares, na mesma casa, mas em salas separadas. Como se pode ver, é um edifício construído em madeira e que, certamente, já hoje não existirá, pois deve ter sido destruído pelos ML, a quando da independência de Angola e, se não foram eles, terá sido destruído pela salalé ou formiga branca .

Prosseguindo com a minha pesquisa no meu acervo fotográfico, fui encontrar uma outra imagem que representa a Sé Catedral de Cabinda. Isto faz-me recordar o bispo auxiliar de Luanda, D.André Muaca que era natural de Cabinda e que foi o primeiro bispo católico autóctone em Portugal e Angola. Estou também a recordar-me de uma passagem que fez no Pangamongo,  transportado num dos camiões do MVL, para fazer visita pastoral à regiões norte e nordeste de Cabinda. Era um simpático velhote, aparentando os seus sessenta anos avançados, mas dotado de bastante vitalidade e vivacidade. Finalmente, após mais algumas pesquisas nos meus arquivos, fui encontrar mais uma imagem que anexo .
Em baixo: Fur.Antunes;de pé Fur.Pais da Costa, Botelho e Furs.Bogalho,Fernandes, Murta e
Gonçalves
Foi tirada a quando da inauguração de um lago com repuxo que foi construído sob o alpendre da Messe de Sargentos. Nela figuram, no primeiro plano e à esquerda, em posição baixa, o Fur. MilºAntunes. No segundo plano e de pé, estão, da esquerda para a direita, o Fur.Milº.Enfº.Pais da Costa,  a seguir, eu próprio, os Fur.Milºs. Bogalho, Fernandes, Murta e Gonçalves. Este já atingiu a extensão ideal e vou ter que encerrá-lo. Envio cordiais saudações para todos os elementos da CArt 2396, CArt 785 CArt 3514 “Panteras Negras” e respectivos familiares, com um até breve e um abraço para todos do Camarada e Amigo,
Botelho

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Cap. Xl - Bicharada de Cabinda

Sem querer meter-me em matéria de ciências naturais, meteu-se-me na cabeça dar uma ideia da bicharada existente em Cabinda que era e é, de facto, muito variada e exótica para todos os europeus e com a qual, só naquele tempo, estavam a tomar contactos e conhecimentos práticos, uma vez que, pelo menos, em teoria, já teriam algumas ideias sobre a respectiva existência. Assim, estavam a conhecer em realidade o que tinham aprendido nos manuais escolares.
Fases da formiga-leão: Larvar; larvar, em posição de caça e
Insecto perfeito(com asas)
Assim, vou começar por mostrar a imagem  dum curioso insecto, com um nome, também um tanto invulgar e que é nada mais nada menos que o de formiga-leão. O animalzinho não é, na realidade uma formiga e muito menos um leão. Apenas é assim chamado porque, na fase larvar da sua existência, é um predador insaciável de outros insectos, tais como formigas e pequenas borboletas que se aproximam curiosamente das armadilhas que a formiga-leão constrói e que constam de pequenas covas cónicas construídas de areia e em cujo fundo se encontra escondido a caçador e, mal as presas assomam curiosas ele, lá do fundo da sua cova, dispara areia sobre a presa que se atrapalha e escorrega pela rampa da armadilha, onde encontra a morte nas fortes mandíbulas do predador. Há um outro insecto curioso que é muito vulgar em toda a África tropical e também em Cabinda.

Morros de salalé(formiga branca)
Trata-se da formiga branca ou salalé, que é uma praga para as madeiras, quer estejam na natureza  ou incluídas na construção de moradias. Mas  enquanto estão na natureza servem-lhes de matéria prima para a construção dos seu ninhos, que são autênticas obras de avançada engenharia, pois têm nas suas estruturas os necessários espaços para ninhos e  maternidades, armazéns de provisões, canais de ventilação, sistemas de aquecimento e até plantações de fungos para alimentação e com andares com corredores e câmaras com aplicações diversas. Tudo isto é construído com uma mistura de celulose de madeira e vegetais, saliva e barro e que fica com uma consistência de argila cozida no forno e, portanto, com uma impermeabilidade total à água das chuvas ou das enchurradas. Junto aqui uma imagem desses morros, que são autênticas cidades fortificadas, que chegam a atingir três ou mais metros de altura e são bastante resistentes ao derrube e à destruição. Prosseguindo e puxando à cena uma outra personagem, bastante antipática  e indesejada e que é, nada mais, nada menos que a “pulga penetrante”. É designada pelos indígenas como “bitacaia” e “matacanha” pelos europeus. É chamada também por “bicho-de-pé”, nome que lhe dão os brasileiros e diz-se até que esse animalículo é originário do Brasil, de onde foi levado  para a África.  Aqui junto uma imagem com a efígie desse parasita que tem uma predilecção pelos pés  das pessoas que se descuidam e andam descalças em Angola e em toda a África. Para a sua retirada, é necessária uma grande  perícia e cuidado para evitar o rebentamento do casulo cheio de ovos, que está sob a pele dos pés originando comichão e que dariam origem a várias infecções se tal acontecesse e os melhores especialistas nessa melindrosa operação são os próprios nativos.
Pulga penetrante(Matacanha, bitacaia ou bicho-de-pé)
São eles os únicos a fazê-lo com garantia total da completa excisão do parasita “matacanha” e respectivo casulo. Não falo aqui dos papagaios cinzentos, nem do miruim e nem dos gorilas pois já aqui fiz referência a esses três habitantes de Cabinda e que são considerados como que o símbolo daquela região tropical africana. Estou a atingir o limite para este “post” e, por isso, vou encerrá-lo enviando cordiais saudações a todos os elementos da CArt 2396/BArt 2849, CArt 785/BArt 786 e CArt  3514, assim como a todos os que se derem ao trabalho de me ler e  aos eventuais visitantes deste Blogue. Para todos, um até breve e um abraço do Camarada e Amigo,
Botelho

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Cap. X - Mais recordações de Cabinda

Apesar de estarem as recordações algo adormecidas pelo passar dos anos é, para mim, suficiente recorrer a algumas imagens fotográficas que tenho digitalizadas e outras que ainda o não estão, para fazê-las surgir das trevas do tempo, com uma nitidez e acuidade excepcionais. A cronologia real dos factos documentados nessas fotas é que se encontra irremediavelmente alterada e sem possibilidades reais de ser reposta. Tal impossibilidade, não tem, na verdade, qualquer importância  para a veracidade dos factos nelas documentados, que são reais, embora apenas estejam localizados aproximadamente nos  anos, desconhecendo-se, com precisão a  dia e hora e mês em que ocorreram e, estes pormenores, na realidade, não têm um interesse tão importante quanto se possa crer.
Pessoal da CArt 2396, na entrada do refeitório em Pagamongo
.Assim, socorro-me de uma imagem em que aparece representada uma parte significativa dos efectivos da CArt 2396/BArt 2849-RAL-5, em que, pela nitidez da sua imagem, se podem reconhecer muitas fisionomias. Reconheço a grande maioria delas, mas nomes, só me lembro de alguns. A foto foi captada por volta dos anos de 68-70 e, por isso, tem garantidamente entre 42 ou 44 anos de idade. É natural que algumas das pessoas que aqui estão representadas, já não façam  parte do mundo dos vivos, outras já estarão um pouco diferentes por efeito da idade e doenças e algumas manterão  ainda um aspecto muito aproximado do que tinham naquela altura, mas os figurantes dela que ainda andem por cá, não estarão esquecidos dos nomes de nenhum deles. 
Lavadeiras
Em  seguida, apresento outra imagem, tirada a quando de uma ida ao Destacamento do Necuto, em que, ao passarmos num pontão sobre um dos afluentes do rio Chiloango, encontrámos um grupo de duas lavadeiras cabindas ocupadas nas suas tarefas diárias de lavagem de roupas. Entre as duas mulheres distingue-se a cabeça de um soldado que lhes pediu um balde emprestado, para colocar água no radiador do Unimog, que estava a aquecer um bocado. A foto seria excepcional se fosse captada em cores, pois o ambiente e a vegetação tinham um colorido como só em África se encontra. Continuando com a minha pesquisa de velhas fotos, fui encontrar esta em que me encontro eu acompanhado de alguns dos Fur.Milºs.
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2º.Sarg.Botelho,Furr. Murta,Pais da Costa,Antunes, Neves e Bogalho.Os miúdos são filhos de
 madeireiros, menos o que está ao colo que é filho do Cmdt.
Deve ter sido captada num domingo, pois eu e alguns dos outros estão”à paisana”. Os miúdos que estão connosco são do acampamento dos madeireiros, com excepção do que está ao colo de um furriel, que é o Tozé , filho do Sr.Cap.Novais, Comandante da CArt 2396. Finalmente, vou apresentar a última imagem deste “post” e que representa parte das instalações portuárias da cidade de Cabinda. Era um porto de grande movimento, mas que, excepcionalmente, neste dia, se encontrava com pouca actividade,  não se vendo qualquer navio em carga ou descarga. Apenas se vêm na doca, ancoradas ao largo, pequenas embarcações e algumas lanchas portuárias. Esta imagem foi captada nos anos 68-70, por ocasião de uma ida à cidade de Cabinda, para ir levantar fundos para o pagamento de ordenados a todos os militares e
Instalações portuárias de Cabinda(vista parcial)
fazer compras da materiais de luz, aquecimento, água, lavagem e limpeza, para gastos da Companhia. Era uma deslocação mensal e que nos ocupava um dia inteirinho. Saíamos de manhã cedo e só regressávamos à Companhia já noite avançada,(21 a 22H00). Só havia tempo para tomar um banho, comer alguma coisa e ir para a cama, pois quando chegávamos e nos víssemos num espelho, não sabíamos se éramos pretos ou brancos, tal era a quantidade de poeira que trazíamos em cima, pois embora a maioria da estrada que percorríamos fosse asfaltada , ainda existiam alguns troços em que era de laterite e bem poeirenta na época seca. Acho que já estou a ultrapassar o limite para a extensão deste “post”, pelo que vou encerrá-lo. Termino enviando cordiais saudações a todos os elementos da CArt 2396/BArt 2849, CArt 785/BArt 786 e CArt 3514-RAL-3. Para todos, um até breve e um abraço do Camarada e Amigo.
Octávio Botelho

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Cap. IX - Outras histórias de Cabinda

Decorridas que são quatro décadas sobre determinadas ocorrências, a memória já nos prega algumas partidas, quando tentamos relatar essas mesmas ocorrências com o  máximo de autenticidade. O que vale, em muito casos, é termos imagens fotográficas que nos ajudam eficazmente a recordar e relatar fielmente os factos que estão documen-tados nessas imagens e nos servem como que de “muleta” para que possamos evocá-los, passando-os a relatos escritos. Assim, após uma exaustiva busca às minhas velhas recordações, encontrei a foto que agora anexo a este “post”e que representa a minha pessoa, quando tinha uns trinta e dois anos de idade. Estou acompanhado por um 1º. Cabo que, se não estou errado, era “Socorrista”. Quanto ao seu nome, francamente, não tenho qualquer lembrança de qual fosse. Se este “post” for lido por algum elemento da CArt 2396, que saiba o nome do meu acompanhante, agradecia que, através de um comentário, me dissesse o seu nome.   A foto foi captada no Destacamento, a nível de Pelotão, da CArt 2396, que se encontrava na localidade chamada Necuto, que ficava situada na fronteira nordeste- sudoeste  com R.D.do Congo, fronteira essa materializada pelo Rio Chiloango, que se vê perfeitamente no 2º.plano da imagem.
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2º.Sarg.Botelho e um 1º.Cabo Socorrista
Por trás de mim, vê-se uma planta florida, chamada mamoeiro, muito abundante em  Angola, mas especialmente em Cabinda. A mata que se vê em último plano na imagem e para além do rio, é a periferia da chamada Floresta do Maiombe, habitat natural dos pigmeus e dos gorilas e está em território congolês. Os nativos do lado português tinham relações comerciais com aldeias vizinhas e usavam o sistema de troca de produtos. Os de cá forneciam produtos agrícolas e do outro lado apresentavam produtos que eram de mais difícil aquisição no lado contrário. Foi  nesta localidade que provei, pela primeira vez, uma cerveja de fabrico congolês, de nome “Primus”, apresentada em garrafas de 1 litro, de uma qualidade bastante razoável. Aqui, também tive a oportunidade de provar umas sardinhas de conserva em tomate, em latas cilíndricas, de excelente sabor e qualidade, de fabrico sul-africano. Prosseguindo a minha pesquisa e utilizando ainda a “muleta” fotográfica, anexo uma outra imagem, captada no mesmo local da anterior, mas desta vez, no interior das instalações militares. Os militares compravam animais aos nativos e possuíam a sua própria criação, como se pode verificar por esta cabra que teve gémeos. Assim, tinham possibilidades de terem leite e carne para uma qualquer emergência ou aperto.
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Criação do Destacamento do Necuto
Obrigavam-se a isto, pois era  muito difícil adquirir estes animais aos nativos pois, quando o tentavam fazer, eles diziam que  não vendiam animais, porque os queriam para criação ou melhor diziam: “não vendemo animal porque é p'ra fazê minino!...” Neste destacamento tinham uns quantos burros semi-domesticados, que  serviam para carregar lenha para a confecção das refeições, pois era o único combustível existente no local que servia e era usado para isso. Continuando a procurar nas minhas velhas fotos, fui encontrar mais esta que segue. Foi tomada, em dia diferente, no mesmo  local das anteriores, próximo do mastro da Bandeira, que ficava num local bastante elevado e sobranceiro à casa do Administrador do Necuto, que se vê em 2º.plano e, ao fundo, a omnipresente floresta do Maiombe, já situada na RDC ou Congo de Kinshasa, sendo a fronteira física entre os dois territórios, como já disse acima, o rio Chiloango que, deste local, não é visível.
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Botelho no destacamento do Necuto
E, assim, com estas três imagens fotográficas, recordei e talvez faça mais alguém recordar-se desses tempos que já  lá vão há quarenta e tal anos e que, apesar de muito difíceis e inoportunos naquela altura, é sempre bom recordá-los tendo em atenção o velho axioma que diz que “recordar é viver”, que pode parecer o chavão, que é de facto, mas que é também um sinal de ainda andamos por cá passado tantos anos e que os contratempos daquela época já foram largamente ultrapassados e até deixam algumas saudades. Não saudades doentias, mas sim, as do tempo da nossa juventude, que deu para ultrapassar esses contratempos e agora, passados todo este tempo, recordarmo-los com saudade. Vejo que estou a ultrapassar o espaço que pretendia ocupar e, por isso, vou encerrar este “post”, enviando cordiais saudações a todos os elementos da ex - Cart  2396, das CArt 785 e  3514 e de todos os eventuais visitantes deste Blogue. Para todos vai um abraço e um até breve.
Octávio Botelho

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Cap. VIII - Reminiscências de Cabinda

A palavra “reminiscência”, é sinónimo de recordação vaga ou memória quase apagada. Reforçando esta sinonímia estão os já longos 42 a 44 anos decorridos sobre os factos sucedidos. Passado que foi um tão vasto lapso de tempo que equivale praticamente a uma vida, embora se sabendo que há vidas que não duraram nem duram tanto tempo quanto isto. Mas, valha a verdade, ao fim e ao cabo, estas comparações não passam de filosofia e esta é uma ciência que é bastante discutível e se presta a estéreis polémicas, pois que se pode afirmar que cada um tem a sua filosofia própria e individual, que deve ser respeitada.
Ida ao Luali, em Cabinda
.Assim, deixando que cada um se manifeste filosoficamente como queira e ao seu arbítrio, vou tentar desfiar algumas reminiscências de factos ocorridos durante a minha permanência no enclave de Cabinda, nos anos 68 a 70 do século passado. Assim estou a recordar-me de um acidente ocorrido no Pangamongo, sede de CArt 2396 naquele período. Devia decorrer o ano de 69, quando um dos militares da Companhia, que tinha de se deslocar ao Hospital Militar de Luanda, para tratamento de determinada moléstia que resistia aos tratamentos feitos nos Serviços de Saúde  de primeira linha .Estava o militar a tratar de arrumar a sua bagagem e, quando procedia à limpeza da arma individual que lhe fora atribuída para defesa pessoal durante o seu deslocamento(uma pistola Walther 9mm), por uma inadvertência ou descuido qualquer, depois de montar a arma, ocorreu um disparo de um tiro fortuito que o atingiu, ferindo-o gravemente.
Refeitório das Praças no Pangamongo
Ele, que estava à espera do MVL para ir para Cabinda e de lá, por via aérea para Luanda, teve que ser evacuado de urgência em Helicóptero da FAP , directamente dali para o HML. Nunca mais tive notícias do  ferido e já nem me lembrava de que tivesse regressado à CArt 2396, mas há pouco tempo, tendo perguntado por ele ao Esmeraldo Diogo, este informou-me de que o acidentado daquele tempo se encontrava de óptima saúde  e que tinha recuperado completamente do acidente causado pela sua inexperiência ou falta de cuidado. Nesta Comissão tive a grata surpresa de encontrar pessoas da área da minha residência na Ribeira Grande e para mais, com uma ligação, ainda que afastada, com familiares da minha mulher. Eram eles um casal chamados Lima, que moravam na segunda residência dos funcionários da Companhia de Celulose de Cabinda, a contar para baixo da nossa Messe. Fui convidado pelo casal para uns jantares de aniversário enquanto lá estive e passámos ainda alguns agradáveis serões, que em muito contribuíram para me ajudar a passar o tempo enquanto andei no Pangamongo. E é por esta e por outras razões que considero esta Comissão aquela em que melhor me senti, sob muitos aspectos. Estou agora a lembrar-me de outra reminiscência e que era o cuidado, poder-se-ia dizer e com propriedade, quase “ maternal “que certa pessoa tinha para com o pessoal da CArt 2396, em especial, quando tinha que tomar parte nas escoltas aos MVL.
Serração e secagem de madeira da CCC
.A CArtª. 2396, ficava sensivelmente a meio percurso, entre a cidade de Cabinda e o  extremo nordeste do enclave, onde ficava o limite da área reabastecida pelos MVL.que, de Cabinda ao Pangamongo, traziam uma escolta que era rendida por outra fornecida pela CArt 2396, regressando nessa altura a Cabinda no MVL  descendente, a escolta dali originária. A comida fornecida às escoltas do MVL era a ração de combate que, quando usada esporadicamente, era sofrível mas se, pelo contrário, fosse usada com muita frequência, tornava-se insuportável e pouco apelativa. Mas, providencialmente, a esposa do sr.Capitão Comandante, dava-se ao incómodo e ao trabalho de fazer umas quantas “bolas de carne”, para variar e reforçar a alimentação dos militares nomeados para escolta ao MVL(*), com a natural colaboração da Vagomestria da Subunidade, que fornecia os ingredientes e no forno da Companhia coziam-se as bolas, depois de confeccionadas pela Srª.D. Manuela. Por essa razão e por muitas outras, era esta senhora altamente considerada e respeitada por todo o pessoal da CArt 2396, que a considerava como uma “mãe”para todos sem excepção e, ao publicá-lo, creio fazer justiça ao apoio moral que prestou a todos os elementos que fizeram parte daquela subunidade. Este já está a ficar um pouco longo e vou ter que encerrá-lo, enviando cordiais saudações para todos os elementos da CArt 2396, assim como para os da minha primeira e última Comissão, CArt 785 e CArt 3514, respectivamente. Despeço-me com um até breve e um abraço para todos do Camarada e Amigo,
Octávio Botelho
(*)MVL, Movimento de Viaturas de Logística(Nota do Autor)

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Cap. VII - Memórias breves e dispersas

 Decorridas que são quatro décadas bem contadas sobre os acontecimentos que se pretendem narrar, se nos cingirmos apenas às palavras, pouco ou nada se poderá comunicar com a intenção de evocar ocorrências surgidas num tão vasto lapso de tempo, uma vez que a nossa memória nos poderá pregar algumas partidas,  deixando-nos em branco. Assim, para nos socorrermos dessas falhas, poderemos recorrer ao recurso das imagens, neste caso, fotográficas, que nos não deixarão ficar mal uma vez que é bem certo que o velhíssimo provérbio popular que diz que “uma imagem vale por mil palavras”, tem, no presente caso, a sua aplicação prática, que é bem demonstrativa da verdade de tal afirmação. Admitindo eu que, na verdade, tenho alguns lapsos de memória e para não cair  nas armadilhas que tais falhas podem produzir, vou recorrer às imagens para relembrar factos ocorridos no Pangamongo, situado no enclave de Cabinda, há cerca de 43 quase 44 anos de distância.
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Aniversário do Fur.Trms. Matos
Assim, a primeira foto a que vou recorrer, reporta-se a um aniversário. Ambiente alegre e descontraído, tanto do aniversariante como dos acompanhantes. O homenageado é o Fur. de Trms Matos(?), que está a ser brindado por um dos convidados que, por falta de copo(?), deve ter recorrido à garrafa de whisky para o efeito. A senhora que se segue e de que não recordo o nome, era a esposa do falecido 1º.Sarg.Silva, (ao tempo, 2º.Sargento) que tomava conta da Arrecadação de Material de Guerra. A seguir, meio escondido pela garrafa, estou eu por fim, já quase fora do alcance da câmara, está o fur. Vagomestre.
Ambiente alegre e descontraído que até se tem quase a impressão de que se não está numa zona de guerra e mal de nós, combatentes se não existissem estes oásis, que nos davam a ilusão de que a guerra estava nos nossos antípodas e não às portas do quintal, como é costume dizer-se. A verdade é que havia essa descontracção porque estavam garantidas as necessárias medidas de segurança, pois se assim não fosse poderiam considerar-nos e com razão, loucos varridos.
Passagem do Ano de 1969
 A imagem a que vou  recorrer em seguida como auxiliar de memória é a que documenta a da  passagem de Ano de 1969. Há pessoas civis e militares da Companhia e outros de outras Companhias. Assim, a começar pela esquerda, está  uma senhora que deve ser filha de um dos funcionários da Madeireira, seguindo-se o Capelão do BArt 2849, Pe. Diamantino.Em seguida,encontra-se o médico da CArt 2396, de que não recordo o nome. Seguem-se-lhe os Furriéis Antunes e Bogalho. O indivíduo que está de olhos fechados, é-me completamente desconhecido, assim como aquele meio escondido a seguir. No primeiro plano , a começar pela esquerda, está um alferes que desconheço, estando eu logo a seguir. Nota-se que não há a alegria que se evidenciava na primeira imagem, uma vez que as pessoas, naturalmente e dadas as circunstâncias de se tratar de uma passagem de Ano, estarem, certamente, a pensar nos seus familiares e noutras festas idênticas, mas com mais alegria. Pois, como é evidente, nota-se que não existe nesta a alegria e expontaneidade que se verificava na foto anterior, pois, de um modo geral, as pessoas apresentam um aspecto sorumbático e manifestando que não se encontram nos lugares em que desejavam estar. Passando agora para outro tema, vou mostrar agora um outro aspecto do ambiente de guerra.

Mascotes dos Faxinas da Messe
Este liga-se com os animais de estimação, pois à falta de a quem dar atenção e carinho, as pessoas dedicam-se de forma admirável a dar atenção aos animais, quer sejam cães, gatos, macacos e até ratos de laboratório(ratos brancos). Assim, os cozinheiros e serventes da nossa Messe, tinham também os seus animais de estimação de que cuidavam com muito amor e carinho. Tínhamos, na nossa Messe dois animais muito estimados: Um gato, que tinha a particularidade de ser integralmente branco e ainda a raridade de ter os olhos com duas cores: um verde e outro vermelho. Chamavam-lhe “Negus”. Tinha uma companheira, uma cadela, mestiça de rafeiro e pastor alemão. De rafeiro, tinha o tamanho e corpo. De pastor alemão, tinha a pelagem e respectiva cor. Mas, naquele lugar, conviviam os dois e estavam sempre na brincadeira, dando aos humanos um exemplo de convivência pacífica a amigável entre animais que, de seu natural, são antagonistas e, portanto, inimigos inconciliáveis, salvo muito raras excepções, o que era amplamente ilustrado pelas mascotes da Messe de Oficiais e Sargentos do Pagamongo.Este já está a ficar um pouco longo, pelo  que vou terminá-lo, enviando cordiais saudações para todos os elementos da CArt 2396 e para todos os que se derem à paciência de ler, assim como aos eventuais visitantes deste Blogue.Para todos um abraço do Amigo e Camarada,
Botelho

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Cap. VI - Recordações de Cabinda

A minha permanência em Cabinda limitou-se a pouco mais de um ano e meio, mas foi na verdade o melhor período de tempo de toda a minha prestação de serviço em Angola, que se prolongou por quase uns longos seis anos e meio, no total. Em primeiro lugar e, não menos importante para mim, foi a excelente aceitação que, de um modo geral, me foi dispensada por todos os elementos da CArt 2396, quer por parte de Oficiais, Sargentos e Praças, uma vez que, para todos eles, não deveria passar de um intruso, dado que não tinha participado com eles na formação da sua CArt., nada e criada lá no centro do Douro Litoral, na cidade de Penafiel, no extinto RAL-5. E manda a verdade que se diga que essa fase de vida de uma Subunidade tem uma importância vital na futura convivência de um chefe com os seus subordinados, numa zona teatro de guerra tal qual aquela em que nos encontrávamos. Felizmente a minha adaptação ao pessoal da CArt não foi difícil e a deles à minha pessoa também não foi nada problemática. Demo-nos todos muito bem e tudo decorreu às mil maravillhas.

Rádio-Clube de Cabinda
O Sargento que vim render tinha um feitio muito semelhante ao meu e a adaptação à sua falta quando saiu para o meu lugar processou-se de forma calma e sem tropeços. Dentro de muito pouco tempo já estava completamente integrado e aceite por todos tal como se tivesse participado com eles da formação inicial da Companhia. Tornara-me rapidamente como que um elemento  familiar de todos e de cada um. A Messe de Oficiais e Sargentos era comum  e quando havia aniversários os mesmos eram comemorados como se fosse em família.

Igreja da Vila Guilherme Capelo(Lândana)
O Comandante da CArt., Cap. Novais, tinha com ele a sua esposa e três filhos, que usavam também a Messe. A esposa, Srª. D.  Manuela, desempenhava as funções de professora Primária no Posto Escolar da Companhia de Celulose de Cabinda, para os filhos dos funcionários da Empresa. Os filhos, eram duas meninas, a Isabel e a Xana e um menino chamado Tó Zé, que tinham idades aproximadas entre os oito e dois anos. Esta noite, há poucas horas, falei com o Esmeraldo Diogo, soldado impedido na nossa Messe, que me disse que, depois desses três filhos, tinha nascido mais uma menina de que desconheço o nome. A minha apreciação sobre estas pessoas, nomeadamente o sr.Capitão Novais e esposa é a seguinte: A ele, considero-o um excepcional comandante e condutor de homens, humano e atencioso, muito interessado nas condições de vida do pessoal sob o seu comando e responsabilidade. A senhora sua esposa, com a sua preocupação com todo o pessoal da Companhia, poderia com toda a propriedade e justiça, ser considerada, a título honorífico, como uma extremosa mãe de família, para todos, sem distinção. Por esta e por muitas outras razões é que eu, num dos “posts” anteriores a este, deixei escrito que, das minhas três comissões a Angola, esta é que fora, sob muitos aspectos, a melhor de todas e aquela que melhores recordações me deixou. A última que fiz nos anos 72-74, foi e é a segunda nesta área. Quanto à primeira, dela apenas tenho recordações da camaradagem e espírito de corpo que se forja em ambientes de guerra e combate ao vivo e em  que, felizmente, a partir dela nunca mais me vi envolvido. Quanto a convivência posterior com algumas das pessoas que comigo estiveram   nesta Comissão, tenho falado com alguma delas.
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Aniversário do Sr.Cap.Novais(Prenda:1Isqueiro Dupont)
Assim há poucas horas falei com o Sr.ex-Cap.Novais, por telefone, Tenho falado regularmente com o Esmeraldo Diogo, que foi faxina na Messe de Sargentos, falei há dias com o ex-Fur.Enfº.Pais da Costa, com o ex.Alf.Santos, com o Ex-fur.Murta. Com o Esmeraldo Diogo e com o Murta, correspondo-me por e-mail, trocando alguns pps. Só até hoje não foi possível participar em nenhum convívio da CArt 2396, não por que se não tenham  realizado, mas sim por falta de contactos que, só ultimamente e passados que são quase 41 a 42 anos, vieram a concretizar-se. Ainda há poucas horas me telefonou o Esmeraldo Diogo, a participar-me que , no próximo mês de Abril, de 23 a 27, virá aqui aos Açores e quer encontrar-se comigo aqui em São Miguel, na cidade da Ribeira Grande, onde tenho a minha residência. Ainda faltam quase três meses mas já estou contando os dias que faltam. Nunca esquecerei que o Esmeraldo foi o meu “Enfermeiro” e até “cozinheiro”,quando me fui abaixo com um ataque de paludismo, pouco tempo após ter chegado ao Pangamongo, o quartel da, agora, minha Companhia CArt 2396/BArt 2849.RAL-5, embora por empréstimo. Creio que já estou a ultrapassar os limites de extensão deste “post” e ,por isso, vou finalizar, enviando cordais saudações a todos os elementos das CArt 2396/BArt 2849 e aos das outras em que prestei serviço, CArt 785/BArt 786 e CArt 3514, com um grande abraço para todos. Saúdo também os eventuais visitantes deste Blogue  e a todos os que se derem ao trabalho de ler este “post”.Despeço-me com um até breve!...
Octávio Botelho

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Cap. V- Histórias de Cabinda

As CArt’s componentes do BArt 2849/RAL-5, estavam sedeadas em Massabi, junto à fronteira norte com o Congo Brazaville, no Tchivovo, a meio precurso entre o Dinge e Massabi e em Pangamongo, que era onde se encontrava a CArt 2396 onde fui colocado a prestar serviço por  troca com o 1º.Sargento titular (2º.Sargento Costa). Resolveu-se que, num domingo, iríamos os dois aoTchivovo, fazer uma apresentação como novo membro da família e a despedida do camarada Costa que se iria embora para o meu lugar dentro de poucos dias. Foi solicitada a necessária autorização ao Comando do Batalhão e da Companhia, tendo a mesma sido concedida.
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Carta de Cabinda
Assim, num Domingo, após o pequeno almoço, foi organizada uma coluna com um Jeep e três Unimogs 411 e pusemo-nos a caminho do Tchivovo, o 2º.Sarg,Costa, eu, o 2º.Sarg.Silva, a esposa e filho deste, um miúdo com uns 2 a 3 anos de idade e a necessária escolta. Estava um dia excepcional para o passeio, com um sol radioso, mas acompanhado  com uma fresca e agradável aragem que atenuava bastante os calores do sol. Ao aproximarmo-nos do Tchivovo e após dobrarmos uma “crista” de terreno, iniciámos a aproximação ao vale, dobrámos uma segunda curva e avistámos a uns 50 a 60 metros, o fundo do mesmo, que servia de leito a um rio, de águas excepcionalmente cristalinas, onde tinha sido improvisada uma represa artesanal destinada a piscina que estava realmente ocupada com uma dúzia de banhistas em pleno banho, em estado de completa nudez que, ao serem surpreendidos pela primeira viatura a dobrar a curva, ficaram momentaneamente paralisados pela surpresa, só reagindo depois de uns momentos de inacção, atirando-se frenéticamente às toalhas que tinham na margem para se cobrirem.
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Eu, em 1º.plano, em 2º., a casa do Administrador do N'cuto
O que maior impressão me fez, foi a reacção da senhora que nos acompanhava, que foi da maior calma , pois sei que se aquilo tivesse acontecido com muitas damas que conhecia(e conheço!...), teriam feito um escarcéu, para não dizer uma “tempestade”, por causa da ocorrência, pela qual ninguém era culpado. Estou em crer que os intérpretes da peça terão ficado preocupados a pensarem que iriam fazer queixa deles na sua Companhia, mas tal não sucedeu. Depois do almoço no Tchivovo, deslocámo-nos a Massabi, onde estava a outra CArt e lá foram feitas  a minha apresentação e as despedidas do colega Costa. A meio da tarde regressámos ao Tchivovo, de onde partimos ao fim do dia para Pangamongo. No domingo anterior, tinha ido ao destacamento da CArt 2396, no N’cuto, pequena vila fronteiriça ao Congo Brazzaville, na margem do Rio Chiloango, fronteira de Cabinda no sentido NE/SW, até meio da altura do enclave, ponto em que entrava em território português no Pangamongo, com rumo a W, em direcção de Lândana, onde desaguava no Atlântico, junto de um mangue. Era uma vila muito pequena, com um razoável intercâmbio comercial com o Congo, onde os Cabindenses iam a uma feira semanal, tendo sido ali que provei,  pela primeira vez, a cerveja congolesa”Primus”. O Destacamento era a nível de Pelotão(GC). No caminho para lá, passavam-se por várias aldeias indígenas(sanzalas) , com razoáveis níveis de habitantes. Após passar o ramal para N’cuto e a um terço do caminho para Buco-Zau, ficava um quartel abandonado, num local chamado Chiaca e que antes de ser Quartel fora um posto de Polícia Florestal. Tinha umas acomodações modernas  excepcionais e nunca soube por que tinha sido abandonado. Havia lá sido instalada uma completa estação meteoro-climatológica, com pluviómetros, anemómetros, barómetros,  heliografos e todos os tipos de termómetros e, por um posto de rádio, eram transmitidas, diariamente, para Cabinda, as medições de todas as aparelhagens ali montadas. Quando lá passei, todos os aparelhos estavam praticamente destruídos.
Monumento fúnebre de um "notável" de Cabinda
De lá, apenas trouxe comigo uma esfera de cristal de um heliógrafo que estava ilesa no meio de toda aquela destruição. Não serviu de muito, pois perdi-a , esquecendo-a em algum local onde alguém,  mais tarde, a terá reencontrado. Em resumo, óptimas instalações em edifícios modernos, mas sem uma única peça de mobiliário que, ou fora retirado propositadamente, ou saqueado pelos ML. Mas a versão que  corria era que fora, na realidade, saqueado pelo MPLA. Buco-Zau, sede de Concelho ou Circunscrição, localidade situada bem no centro do enclave, tinha um razoável nível de população e boas casas comerciais. Em importância seguia-se-lhe o Belize, também no interior do enclave, mas já no extremo NE, próximo da fronteira com o Congo Brazzaville, mas mais fraco a nível comercial e populacional. Este "post" está a ultrapassar os limites habituais e vou ter que terminá-lo, enviando cordiais saudações a todos os elementos da CArt 2396/BArt 2849, aos  elementos das minhas primeira e última comissões, aos eventuais visitantes deste Blogue e a todos os que se derem à paciência de me ler. Para todos um abraço e até à próxima oportunidade.
Octávio Botelho. 

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Cap.IV -O clima de Cabinda - A típica bicharada

Cabinda, situada geograficamente entre os paralelos 4 e 6, a sul do Equador, em plena zona tórrida do globo terrestre, evidentemente que teria que ter um clima de temperaturas extremas, mas a verdade é que estas afirmações são académicas e as realidades, na verdade, são muito diferentes. É certo que quem, como eu, acabado de sair de um clima praticamente mediterrânico como o do planalto central de Angola, devia sentir-me desambientado e, desde logo, para início de aclimatização, apanhei uma valente constipação, devido ao excessivo calor que se sentia durante o dia, mas apenas o sol se arrumasse ao anoitecer, a amplitude térmica baixava bastante e tínhamos que nos abrigarmos para não nos engriparmos e bastava-nos descuidarmo-nos um pouco para sermos caçados pela febre e arrepios!.
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Gorila bebé
Foi ali que tive em Angola um dos piores acessos de paludismo. Tivera-os também durante a primeira comissão e trazia comigo em estado latente os seus agentes que, naquele clima despertaram e me atacaram valentemente. Estive acamado, bastantes dias e, como não havia Enfermaria, fiquei no meu quarto em tal estado, que mal podia mexer comigo e sem qualquer vontade para comer nem para nada. Era tratado com injectáveis antipaludicos pelos Socorristas. Quanto a alimentação, para a qual tinha pouco apetite, era assegurada por um dos faxinas da Messe, que tinha uma paciência ilimitada comigo, perguntando-me o que queria que se fizesse para comer, uma vez que nada me apetecia. Hoje é um dos meus correspondentes e, há dias, me falou desta passagem comigo, relembrando-me factos que já se encontravam esquecidos.
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Papagaio cinzento do Congo(Vulgo "Jacó")
Era um soldado e chamava-se (e chama-se!...), Esmeraldo. Falando agora de outros assuntos, não era só o clima que era estranho. Era a bicharada, a começar pelos gorilas que todas as noites faziam uma ronda à cozinha do Rancho Geral, à procura de restos de comida que ficassem nos caldeiros e, toda a noite era ouvi-los a retirarem as tampas dos recipientes que retiniam como sinos, na sua caça à comida, aliás com pouco êxito, pois os recipientes eram lavados e limpos para serem utilizados no dia seguinte. A propósito estou a recordar-me de que o “Bar-man” da nossa Messe tinha como mascote um simpático bebé gorila, que era grande apreciador de cerveja e ficava muito amuado quando o não deixavam beber quanta queria. Em troca, ofereciam-lhe refrigerante, mas ele recusava-o. Vinho, também o bebia, mas a sua preferência ia para a cerveja!...Ficou para mim uma figura memorável, pois brincava com toda agente que se interessasse por ele. Continuando a falar de bichos, Cabinda era e é ainda a terra dos papagaios cinzentos, embora estes estejam espalhados por todas as florestas do Congo Brazaville. Eram conhecidos pelo nome de”Jacós”, pois  era  uma  das primeiras palavras que “palravam” e havia também uma quantidade razoável destes animais que foram adoptadas como mascotes pelos militares, que os instruíam com um vasto repertório de palavras e palavrões de todos os calibres. Qualquer destes animais eram inofensivos e só alguns deles podiam transmitir doenças aos seres humanos. Por exemplo, era preciso ter cuidado com os papagaios, pois podiam transmitir às pessoa uma doença chamada “psitacose” , com mais frequência em pessoas com imunização debilitada, tais como crianças, doentes ou idosos . Quanto a outros animais, havia-os mais pequenos, que quase eram invisíveis e insignificantes, mas potencialmente transmissores de diversas doenças graves. O mais falado de todos era o “mirui”, também chamado “maruim” ou “miruim” e que era nada mais nada menos que um micro-mosquito, que não havia rede mosquiteira que o segurasse de nos atacar. 
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O micro-mosquito "maruim"ou "mirui", muito ampliado
Chegava a entrar nas mais finas redes das janelas para atacar as pessoas e o único meio de dar cabo deles, era usar uma espiral insecticida, chamada “Dragão”, fabricada em Macau e que tinha de ser acendida num extremo, depois de colocada num suporte de lata, onde ardia fumegando toda a noite e que era composta por um material combustível lento, impregnado de um insectífugo chamado “piretrina”, inofensivo para as pessoas, mas que afugentava qualquer espécie de mosquito. O tal”miruí” era tão pequeno que não se via facilmente, só se sentiam as suas picadas e quando as pessoas batiam no local das ferroadas é que se viam os riscos de sangue que eles deixavam na pele das pessoas, ao serem esmagados pelas pancadas que lhes davam!...Ora vejam lá que bendita raça de mosquito!... Por hoje, vou ficar por aqui!...Fugi um bocado ao tema da guerra, mas acho que até fiz bem para não ocasionar saturação. E, dado que este está a ficar um pouco longo vou terminá-lo também pelo mesmo motivo, despedindo-me com amizade até ao próximo capítulo, com um abraço para todos. Até breve!...
Octávio Botelho

sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

Capª. III - Nova Lisboa - Saída para Cabinda

Depois de decorridos os trâmites para a minha troca com um camarada de uma Unidade de Reforço à Guarnição Normal(Unidade Expedicionária Metropolitana) que era propriamente designada como CArt 2396/BArt 2849-RAL-5, despedi-me de Nova Lisboa, cidade que tinha um clima fabuloso, muito semelhante ao clima mediterrânico, onde nunca passei um inverno tropical em que, diziam as pessoas que lá viviam em permanência, as águas chegavam a congelar superficialmente em tanques ou recipientes  que ficassem durante a noite ao ar livre e chegavam a ocorrer geadas nalgumas noites mais frias. Nunca cheguei a verificar tais fenómenos, mas eles existiam. Assim, num curto lapso de tempo, que não ultrapassou mais de um mês, chegou ao GACNL a nota do QG/RMA autorizando a troca, desencadeando a minha marcha para Luanda e dali para Cabinda. Para Luanda, o transporte utilizado foi um dos autocarros da EVA, um percurso com duração de oito horas.

2ºs.Sargentos Botelho e Costa, na Messe de Sargentos do Pangamongo
. De Luanda para Cabinda, foi utilizado como transporte uma LDG da Armada Portuguesa, um bom transporte para mercadorias ou materiais, mas para pessoal, era de uma pobreza franciscana, pois não tinha as condições mínimas para tal.  O que valeu é que foi numa época em que fazia bom tempo e ter sido feita a deslocação durante o dia, proporcionando-nos a oportunidade de fazer “Whale watching” gratuito, tendo as baleias acedido a proporcionar-nos um espectáculo de saltos e mergulhos durante a viagem que,  para mim e muitos outros, foi único e será irrepetível. À chegada a Cabinda, estava à minha espera uma coluna de duas viaturas, composta por um jeep e uma Berliet, pertencentes à Companhia a que estava destinado e seguimos para Lândana(antiga Vila Guilherme Capelo). Passámos em seguida pelo Dinge(sede do BArt  2849), onde se fez uma pequena paragem para apresentação e após esta, seguimos para Pangamongo, aquartelamento da CArt 2396, que ocupava instalações da CCC(Companhia de Celulose de Cabinda), com muito boas acomodações tanto para oficiais como para sargentos e praças. Nas proximidades, na margem direita  do rio Chiloango, no ponto em que entrava em território português, estava instalada a serração da CCC, onde a madeira era transformada em chaprões e transportada para o porto de Cabinda para ser exportada para os diversos destinos. O aquartelamento  ficava situado numa óptima posição defensiva, apenas tinha uma única via de acesso possível, ficando  sobre uma elevação,  excelentemente  protegido de acessos invasivos.

Frente:Cap.Novais, Luís Piçarra,Furriéis Neto,Figueiredo,(?), Antunes,Bogalho,Abrantes e 2º.Sarg.Botelho.Atrás: Furrieis Murta e Gonçalves,D.Manuela,Linda Mara e Ilusionista,Isabel,Tó Zé e Furrieis Runa e Pais da Costa
Após ter-me apresentado, foram indicar-me as minhas instalações, que eram as mesmas do sargento que ia substituir e que esteve comigo cerca de quatro a cinco dias a integrar-me na mecânica das funções de um primeiro sargento e a fazer-me a entrega dos serviços da sua responsabilidade. Foi para mim uma estreia, pois nunca tinha desempenhado aquelas funções. A CArt 2396, era uma Companhia Operacional, tinha um Destacamento no N’Cuto, a nível de Secção e dois GC destacados em zonas de alto risco em que, para se deslocarem numa distância de 10 Km, tinham que usar ou o detector de minas ou a “pica”, um espeto de metal,  para detectá-las. A picada era rasgada em plena floresta e tinha-se  que ter cuidado para não ser derrubado de cima das viaturas ao passar por lá. Era a floresta do Maiombe, comparável quase à da Amazónia. Os GC estavam aquartelados em locais como o Chimbete e o Sangamongo, qual deles o pior, tanto em acomodações como em condições de segurança.

Crachá do BART 2849
.Estou a lembrar-me de um oficial que foi ferido numa acção  de combate e que se chamava Santos, que ficou com uma boa quantidade de estilhaços no corpo  e foi, por isso, hospitalizado em Cabinda e da resposta algo dura que  deu ao comandante da Unidade, quando o foi visitar ao Hospital e o interrogou, quase como que a responsabilizá-lo pelo azar que tivera. Mas mudemos de assunto e passemos a outro tema: O da minha sobreposição com o 2º.Sargento que estava a responder e que eu viera substituir. Chamava-se(e chama-se, espero!...) Eduardo Costa e fora prisioneiro de guerra do Neru, em 1961, a quando da invasão do Estado Português da Índia. Como disse acima, esteve comigo cerca de quatro a cinco dias e findos estes, partiu para Nova Lisboa para o meu lugar, mas também para junto da esposa, que lá estava.  E, neste aspecto, ficou a ganhar mais do que eu com a troca que fizemos, embora eu também me sentisse suficientemente compensado no aspecto económico-financeiro, pois na situação em que ficava, estava bem melhor que em Nova Lisboa sob muitos aspectos. O Comandante de Companhia, em todas as áreas, uma excepcional pessoa, tinha consigo a sua esposa, que era professora e dava aulas, num posto escolar oficial que lá fora propositadamente instalado, às crianças filhas dos funcionários da CCC, e as suas duas filhas e um filho. Residiam numa casa, fora do Aquartelamento, que pertencia á Companhia madeireira. Era o seu nome António Novais, a sua esposa chamava-se Manuela e as filhas Isabel e Xana. O filho António José(Tó Zé). Consideravam-se como família de todos os militares e os aniversários deles  eram festejados com toda a Companhia e, francamente, das minhas três comissões a Angola, considero esta a melhor de todas, pois foi a que mais ambiente  familiar proporcionou aos militares. Em segundo lugar(e que me perdoem estes) ficou a terceira, a dos “Panteras Negras”. Relativamente à primeira, não teve comparação alguma com nenhuma das outras e apenas existiu entre os militares uma grande camaradagem e espírito de corpo. E, já agora, estou a notar que, contra o costume, este “post” está a ficar um bocado longo. Vou terminar enviando cordiais saudações a quem se der ao trabalho de me ler, mas em especial a todos os elementos das Companhias das minhas três Comissões em Angola e despeço-me até à próxima oportunidade, desejando a todos um próspero Ano de 2012, com   um abraço de amizade para todos. Até breve!...
Octávio Botelho

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Capº.II - Nova Lisboa e algumas recordações

A guerra de Angola, em Nova Lisboa, no pouco tempo que lá permaneci, parecia um assunto de outro mundo muito distante, pois dela pouco ou quase nada se ouvia falar. É certo que as Unidades de Nova Lisboa, tais como o RINL (Antigo RI 21 e o GACNL, tinham Companhias de Caçadores e  Baterias de Campanha destacadas em lugares bastantes afastados das respectivas sedes, em locais como o Cuemba(Bié) e Luso (Moxico), ocupadas em missões que envolviam os riscos inerentes ás suas funções próprias e lá, de vez em quando, se ouvia falar de ocorrências de ataques do MPLA, dado que esses efectivos se encontravam numa zona tampão muito sensível, precisamente em locais que intermediavam entre a zona de acção dos dois ML (MPLA e UNITA). Existiam mais duas Unidades, que eram o Quartel-General da ZMC e a EAMA, mas estas   não eram operacionais, sendo a primeira um  QG e a segunda um Estabelecimento Escolar Militar, onde se ministravam em Angola os COM e CSM. Em complemento tinha outras pequenas Unidades, tais como um PAD, uma Delegação da Manutenção Militar e ainda um DRM e uma Casa de Reclusão.
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Uma rua em Nova Lisboa
As Unidades  ficavam situadas na periferia da cidade, já numa zona rural, nos arredores do Bairro de Stº.António e junto ao IIVA (Instituto de Investigação Veterinária de Angola) um estabelecimento de ensino e investigação na área da Agro-Pecuária, muito conceituado e único em todo o território angolano. A vida nas Unidades era idêntica à das Unidades Metropolitanas. Os militares que lá prestavam serviço, não tinham as mordomias dos que estavam em Luanda e no mato, pois não tinham direito nem a alimentação completa e alojamento e apenas recebiam o vencimento base e o complementar e não tinham a subvenção de campanha. Resultava disto que tínham apenas direito a almoço p/conta do Estado. Quanto ao resto era por sua conta. Tínham que pagar numa pensão, o quarto, o pequeno-almoço, o jantar e a lavadeira. Era uma situação tão apertada que, quando chegava o fim do mês, pagávamos as contas do Bar, da pensão, lavadeira e ficávamos “tesos” sem um “tusto” para qualquer outro imprevisto, tal como uma ida ao Cine Ruacaná, uma refeição fora, no Bar Martins, etc… Mas, por uma ajuda do destino, consegui um feito inédito, graças a uma troca que fiz com um camarada 2º.sagento como eu, que estava numa unidade de reforço à GN (Unidade Expedicionária, do RAL-5) que se encontrava em Cabinda, e que tinha a sua família estabelecida em Nova Lisboa; sucedera que tinha estado ali numa Comissão Voluntária e, quando esta terminou e regressou à Metrópole  foi logo apanhado para uma Comissão por Imposição, mas em Cabinda. Estava então ele em Cabinda e a mulher em Nova Lisboa, numa situação algo desconfortável. Ele, como tinha uma “cunha” no QG/RMA, conseguiu que fossse realizada a troca, fazendo ele o requerimento  e eu apresentando uma declaração como aceitante.Assim se fez e, rapidamente, foi o assunto resolvido!...Marchei para Cabinda, onde, embora isolado, fiquei numa situação económica mais  desafogada, pois tinha alimentação e alojamento e ainda recebia a subvenção de campanha .Isto permitiu-me aumentar a soma da minha pensão para casa e ainda ficar com um remanescente mais confortável de dinheiro para os meus gastos pessoais. Mas ainda antes de sair de Nova Lisboa para Cabinda, estou a recordar-me de um episódio trágico ocorrido nesse lapso de tempo com militares do GACNL. Conta-se em  poucas palavras:
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Jardim Público em Nova Lisboa
Estavam, numa determinada data que  não recordo, nomeados Sargentos de Dia ao Grupo e a uma das Batarias, um Furriel e um 1º.Cabo Milº., como então eram designados, por sinal, dois grandes amigos.  O Furriel e o Cabo Miliciano, acompanhados do Oficial de Dia, tinham acabado de passar a revista ao Quartel, após o Render da Parada e estavam os dois junto ao Posto Rádio das TRMS, na cavaqueira. Estavam armados os dois com a pistola Walther. De repente, sai-se o Fur.Milº. com esta, frase,  dirigindo-se ao Cabo Milº.: "Ó F…, eu vou-te matar, agora"!...E, acabando de dizer estas palavras, sacou da Valther e apontou-a  ao Cabo Milº, disparando um tiro, que atingiu em pleno peito o seu amigo, matando-o instantaneamente. O atirador ficou  como que “fulminado” transformado em estátua  durante uns segundos e ao consciencializar o que tinha acontecido na realidade, entrou num ataque de loucura, pelo que teve de ser dominado pelos circunstantes que o  transportaram ao Posto de Socorros, onde foi sedado. Quanto ao falecido, uma vez confirmado o óbito no próprio local da ocorrência, foi-lhe dado o conveniente destino. Por  hoje vou terminar, enviando cordiais saudações e aproveitando ao mesmo tempo a oportunidade para, nesta quadra festiva que se aproxima, formular os meus  votos  de um Feliz Natal, com muita felicidade, compreensão e saúde para os eventuais visitantes que se derem à paciência de me ler. Um abraço, com amizade, para todos e até breve!...
Octávio Botelho

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

2ª.PARTE - CAPº. I - A minha segunda comissão a Angola

Como disse no término da 1ª.Parte destas Crónicas, embarquei em Luanda em 24JUL67, a bordo do paquete “Vera Cruz”, iniciando uma viagem que duraria nove dias e a partir dessa data estava logo incluído na escala para uma nova Comissão. Desembarquei em Lisboa no dia 3 de Agosto e, nesse mesmo dia apresentei-me no DGA, onde foi dada requisição de transporte e saída na Guia de Marcha para o RAP-2, Vila Nova de Gaia, hoje Regimento de Artilharia da Serra do Pilar. Ali fiquei a aguardar colocação e  definição da minha situação militar, que só ficou resolvida em l3 de Agosto. Fiquei colocado no RAP.2 e em Diligência na BAG-l, em Ponta Delgada, enquanto estive com licença de desmobilização, que era de 20 dias(10 dias por cada ano de Comissão). Só em 15 de Agosto de 1967 é que consegui chegar à minha casa e junto da minha família num dia tão memorável. À minha espera, tinha uma festiva recepção que os meus familiares me tinham preparado. Iniciei a minha licença e, finda esta, entrei ao serviço na minha Unidade de origem, a BAG Nº.1, prestando serviço na Secção de Mobilização. Continuava colocado no RAP-2, em diligência na BAG-l, situação que dava direito a um abono suplementar no vencimento, de cerca de 20$00 diários. Findos os vinte dias de licença fui colocado efectivamente na minha Unidade, a BAG-l.
Desfile no Juramento de Bandeira, no GAC/NL, em 1968
Para não estar a maçar desnecessariamente, vou já dizendo que, depois de uma permanência de cerca de pouco mais de um ano e, aí pelo último trimestre de 1968, estava novamente nomeado para outra Comissão, novamente em Angola, desta vez não incluído numa Unidade do tipo Batalhão, como da primeira vez, mas em rendição individual, o que queria dizer que tinha sido indigitado para substituição de um militar de igual graduação que tinha sido abatido por motivo de evacuação por doença, ou falecido em acidente de viação ou quem sabe, em combate. Era um dos pormenores que nunca nos diziam sobre a causa do abatimento do militar que íamos substituir, nem tão pouco o seu nome, porque se o publicassem, havia maneiras de se saber o que lhe acontecera!...Assim, mais uma vez, uma viagem até Lisboa, de barco, mas já no paquete”Funchal”,em vez do velho “Carvalho Araújo”, as inevitáveis despedidas que tanto custavam e, passados 3 dias já estava em Lisboa, apresentando-me, desta vez no DGA, a aguardar embarque para Luanda, novamente no "Vera Cruz".

Vista da cidade de Nova Lisboa(Huambo)
.Após os 9 dias de viagem, em vez de ir para o Grafanil, desta vez fui mandado apresentar no GACL, onde estive alguns dias  a aguardar colocação. Por fim, foi-me conferida Guia de Marcha para o GACNL, uma Unidade da Garnição normal de Angola. Fui colocado no PCS, prestando serviço na Bataria de Mobilização, serviço com que estava familiarizado na minha Unidade de origem. Passei a fazer Guarda de Polícia à Porta d’Armas, a auxiliar do Gerente da Cantina das Praças e a ajudar na Escola para Crianças Indígenas, na distribuição de Lanches. Não sei explicar a razão da existência dessas aulas no Quartel, ,mas elas existiam, de facto. Depois haviam as incorporações de recrutas, os Juramentos de Bandeira, tudo fazendo lembrar a rotina das Unidades Metropolitanas e  Insulares. Ali passei já o Natal de 1968 e, pouco depois, tive de ser internado no Hospital Central de Nova Lisboa, onde fui submetido a uma pequena cirurgia. Estavam já com idéias de me destacarem para uma das Batarias de Campanha destacada em Cuemba, Bié, que era um local que, naquela altura, não era para brincadeiras, pois ficava precisamente numa zona de grande atrito entre o MPLA e a UNITA e as NT, ficavam no meio dos dois Movimentos e carregavam pela medida grossa. Mas quem estava a pressionar para serem os sargentos novos os destacados, eram os veteranos da Unidade que eram sempre considerados mais antigos que os recém-chegados, por mais comissões que estes tivessem no lombo!...Eu, que já conhecia sobejamente o cenário da guerra, não estava a ficar muito contente com
Ceia de Natal de 1968, no GAC/NL
o andamento das coisas e não tinha, francamente, saudades nenhumas de me ver em tais andanças. A propósito disto, estou a lembrar-me de uma ocorrência única que verifiquei enquanto permaneci no GACNL. Encontrava-se lá um Fur.Milº. a quem sucedia um raro fenómeno!...Bastava-lhe pegar numa ração de combate para ele ter uma reacção alérgica que lhe punha toda a pele do corpo vermelha e ficava com a cara e as mãos completamente inchadas e tinha que ser tratado com anti-histamínicos!...Em todos os meus seis anos de serviço em África, este foi um caso único de "alergia" às rações de combate que,  de facto, verifiquei!...Por hoje, vou terminar,pois este "post" está a ficar um pouco longo. Cordiais saudações a quem se der à paciência de me ler e despeço-me até ao próximo Capítulo. Até lá!...
Octávio Botelho

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Adendas

ADENDA – I (Final da Comissão) Após ter encerrado o último post deste Blogue, por intermédio de um elemento da CCS/BArt 786, ex-fur.mil.º.Lapa, recebi as informações que seguem e que faltavam citar, por tê-las esquecido:
- Final da Comissão : - 28MAI67
- Fomos rendidos no Liberato, pela CCav 1707/BCav 1917, em 06JUN67
- A CArt 784, em Stª.Isabel  pela  CCav 1705/                            
- A CArt 783, em Zalala, pela CCav 1706                                   
- Embarque em Luanda em 24JUN67
- Desembarque em Lisboa em 03JUL67
ADENDA- II - Militares da CArt 785 condecorados:
Contrariando o meu propósito de, nestas Crónicas, não dar protagonismo nem a mim próprio nem a outrem achei por bem fazer uma excepção, colocando nesta Adenda uma relação dos Militares da CArt 785, condecorados pela sua actuação durante a sua prestação de serviço em Angola:
Com a Medalha de Cruz de Guerra de 3ª.Classe:
- Alf.Milº. Artª. - Henrique Pereira da Costa Tavares
- Fur.Milº.Artª.  - Valentino Manuel Francisco Xavier Viegas
-                    - Luís Carmona de Jesus
Com a Medalha de Cruz de Guerra de 4ª. Classe:
- Sold. Artª. - Cândido dos Santos Ferreira
-                - João dos Santos Antunes
-                - José da Silva Gonçalves
-                - José de Jesus dos Reis
Com a Medalha de Valor Militar de Cobre:
- 1º.Cabo Artª. – Carlos Manuel Soares de Andrade
Cordiais saudações para todos os elementos da CArt 785/BArt 786, do camarada  amigo,
Octávio Botelho