Síntese biográfica do meu percurso em África durante a Guerra Colonial o0o Mobilizado como Furriel do QP, de 1965 a 1967 integrado na CArt 785/BArt786 formado no RAP-2, para prestar serviço na RMA – Angola, no Sub-Sector do Quitexe , Sector de Carmona, destacado na Fazenda Liberato, Fazenda S. Isabel e novamente Fazenda Liberato de onde regressei á Metrópole o0o Mobilizado como 2º Sarg. de 1968 a 1970, em rendição individual para RMA- Angola e colocado no GAC/NL em Nova Lisboa , Huambo, mais tarde transferido por troca, para Dinge em Cabinda integrado na CArt 2396/BArt 2849, formado no RAL.5, regressei no final da comissão a Nova Lisboa de onde parti para Lisboa, a bordo do paquete Vera Cruz onde viajei também na primeira comissão o0o Mobilizado como 1º Sarg. de 1972 a 1974 integrado na Cart3514, formada no RAL.3, para prestar serviço na RMA- Angola , no Sub-Sector de Gago Coutinho (Lumbala Nguimbo) província do Moxico, onde cumprimos 28 meses, em missão de protecção aos trabalhos de construção da “Grande Via do Leste” num troço da estrada Luso – Gago Coutinho – Neriquinha – Luiana. Regressei em 1974, alguns meses depois de Abril 1974, tal como na viagem de ida, a bordo dum Boeing 707 dos TAM,.

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

CAPº. - XXII - Outras histórias - Uma "mascote" especial

Como já por diversas vezes aqui referi, tivemos uma comissão intensamente ocupada em actividades operacionais, pois que parecia que toda a cadeia de comando estava fortemente empenhada em fazer uma rápida liquidação da missão que nos fora imposta. Ora tal desiderato era uma pretensão utópica e inalcançável, tanto quanto os factos futuros vieram comprovar. Mas a verdade era que tinham uma tão grande preocupação com o estado de saúde do pessoal, mas tinham umas reacções estranhas quando um médico diagnosticava um doente com “astenia” e “inapetência” e chegavam a perguntar: “Que é isto de“astenia”e “inapetência”?!  Até quase que acusavam os médicos de cumplicidade para o  “desenfianço” do pessoal ao trabalho operacional. Chegavam até a proibir jogos de futebol, para que não houvessem lesões traumáticas originadas nessas partidas desportivas que dessem cobertura a fugas à actividade operacional. Havia um que até dizia que não deviam beber refrigerantes gasosos, pois que eles só davam origem à produção de “gases”!.Cervejas, também, nem vê-las, pois embriagavam e viciavam quem as consumia. Vinho,  podia beber-se com moderação, mas apenas nas doses recomendadas pela “ração” diária, de dois decilitros por refeição e não mais que isso. Beber, só água, devidamente desinfectada, por causa das febres palúdicas !...Tudo tão sómente para não ficarem inoperacionais e poderem dar o máximo das suas possibilidades, sem descanço ou até caírem para o lado, de exaustão e “astenia”!...Valeu de muito, tanto empenho e sacrifício?!..
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Por do Sol sobre a floresta
A História seguiu o seu curso natural, tal qual um rio que foi represado e desviado do seu caminho e que, um dia, saltou das represas e fugiu ao caminho que lhe tinham imposto saindo, por fim, liberto dos limites que lhe tinham, artificialmente, traçado!... De qualquer maneira e, pelo menos, pela minha parte, apesar dos contratempos que me causou tal aventura no coração da África tropical, não dou por mal empregados os anos que lá passei e que não foram dois ou quatro,  mas seis, com mais alguns meses em cima!...No Capítulo anterior falei de algumas “mascotes” que eram os nossos cães. Neste episódio, estou a lembrar-me de um camarada nosso que,  não sei como, pois a memória me falha neste caso, arranjou uma “mascote” muito especial que era, nem mais nem menos que uma leitoa. Dentro do aquartelamento, seguia-o para onde quer que ele fosse, como se de um cachorrinho se tratasse. Tinha-lhe dado o nome de “Zeferina” e o facto é que o animal atendia quando o chamavam pelo nome . Tinha a sua cama, que era um caixote, onde dormia muito enrolada num pedaço velho de cobertor, encontrado no trapo de limpar o armamento. Só não me recordo do fim que lhe foi dado quando chegou a hora do regresso a casa, no fim da missão. Não sei se acabou transformada em “leitão à Bairrada”ou se foi deixada a algum dos camaradas que nos vieram render ao Liberato em 1967. Do camarada em questão não cito o nome, uma vez que resolvi não mencionar o nome de seja quem  for ligado a qualquer história que relate relacionada com factos ocorridos  com pessoas que, comigo, prestaram serviço na CArt 785. E, já que estamos em maré de histórias, estou a recordar-me de uma ocorrência passada com uma das nossas Praças. E, em poucas palavras, contarei a história tal qual como ela aconteceu: Foi um certo soldado nomeado para serviço de sentinela nocturna num posto que ficava perto da cozinha do Rancho Geral, que tinha dia e noite o fogo aceso em  permanência. O jantar devia ter sido fraco para ele e, durante a noite e fora da sua hora de posto, fez uma incursão a uma capoeira dos nativos contratados da fazenda, tendo capturado um galináceo escanzelado, só com penas e ossos. Quando a ronda passou pelos postos, notou que o soldado em questão estava acocorado junto à lareira, ocupado a fazer um “churrasco” com a sua presa e, imagine-se!...Ele tinha esquartejado o animal, sem o depenar, e estava a assá-lo nas brasas!...É claro que não cheirava a frango assado, mas a penas chamuscadas, que é um pivete bem desagradável.
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Elefantes na savana africana
E já tinha comido metade do frango cozinhado com aquela maestria, o que levava a crer que devia estar esfomeado para conseguir tragar tal petisco, culinariamente, tão pouco atractivo e até repelente. Enfim!...Contingências da guerra!...Mas parece-me  que a necessidade de comida não deveria ser assim tão grande para cometer uma proeza que nem os cafreais fariam, pois estes sabiam e muito bem tratar e temperar devidamente os seus churrascos!...Por agora vou encerrar este “post”, enviando saudações cordiais a quem se dispuser a lê-lo. No próximo Capítulo contarei outras histórias. Até lá!...
Octávio Botelho

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

CAPº. - XXI - "Quitexe", "Calambinga" e outras "mascotes" da CArt 785

Não!... Não se trata da localidade, nem do rio com o mesmo nome, situados, como já referi várias vezes, na província do Uíge, na República de Angola. Na verdade, trata-se dos nomes de um casal de cães, irmãos e que, pelos nossos militares, foram adquiridos no Quitexe, após desmamados da sua mãe, uma cadela “pastor alemão” civil, pertença de um residente local,  sendo o pai  um garboso cão de guerra, que prestava serviço numa “Secção de Cães de Guerra”, adida ao nosso Batalhão. Foram trazidos para o Liberato, logo após a nossa chegada e foram logo adoptados pela maioria dos militares, que os cumulavam de muito mimo e os tratavam principescamente. Assim foram criados sem dono, mas com muitos donos e assim, qualquer militar que os chamasse pelo  nome, corriam logo os  dois para a brincadeira ou para receberem um petisco qualquer.
"Quitexe"e "Calambinga"
.Criaram-se e desenvolveram-se e, quando fomos transferidos para Santa Isabel, levámo-los connosco. Eram os dois muito afeiçoados a qualquer militar, mas a dois em especial, que eram o cozinheiro e o faxina da messe de sargentos, que deixavam comida e carnes em cima das bancadas, mandando à  “Calambinga”que os guardasse e saíam fora para verem no que davam as modas. Verificaram que, logo que qualquer pessoa estranha tentasse entrar no local, ela a impedia de entrar rosnando furiosamente, afastando assim os intrusos das coisas confiadas à sua guarda. Até mesmo o Gerente da Fazenda que, pretendendo reduzir caminho para o 1º.andar da residência tentou atravessar pelo local, que era no rés-do-chão, ao tentar entrar na porta, ela saiu disparada de lá de dentro e, pondo-se em pé, colocou-lhe as patas anteriores sobre os ombros, derrubando-o para o chão, onde ficou deitado de costas com a cadela por cima a rosnar-lhe junto à cara. O homem ficou a detestá-la por causa disso!... Qualquer estranho que viesse, mesmo que fosse militar e ela o visse avançar, arrancava como um raio para o estranho, pondo-se em pé a rosnar em frente à cara  da pessoa.
A cadela Dachshund, "A Baixota"
.Tinha que se chamá-la para ela deixar em paz a pessoa em causa. Mas não passava disso, nunca tendo mordido nenhum estranho que lá entrasse. Estou a lembrar-me de uma ocorrência com ela e com uma nativa bailunda, mulher de um contratado da fazenda, que era a lavadeira do cozinheiro da messe. A mulher parece ter extraviado qualquer peça de vestuário do militar e ele esperou que ela voltasse do trabalho, para lhe perguntar o que sucedera com a  peça em falta.  A “Calambinga”, muito atenta a todos os passos do “dono” deitou-se sobre a bancada de cimento que rodeava o edifício e vendo que a nativa ao ser interrogada, começara a falar alto e a gesticular para o seu"dono",  dispara em direcção a ela e, abocanhando-lhe o panal que lhe servia de vestido e que era apertado sobre os seios, deu-lhe um valente puxão, arrancou-o e ficando encapuchada,  começou a ladrar e a sacudir furiosamente o pano, correndo às cegas pelo terreiro!...A nativa ao ver-se despida no meio da rua e vendo a fúria da cadela, agarrou-se ao soldado e gritou: “ Ai ué, minino!...Não deixa que  o cadela mi mata!...Eu vou buscá já o teu roupa e não quero mais lavá!...Tenho medo do cadela mau!” O soldado ria que se partia e dizia-lhe: “Não !...Continuas a lavar-me a minha  roupa!...A cadela não te mata que eu não deixo!...
O "Rhodesian Ridgeback", o "Leão"
 Só quero que me tragas a peça de roupa em falta!”… Em seguida ele deteve a cadela, tirou-lhe o pano da boca e deu-o à nativa que, imediatamente, se envolveu nele e foi para casa em grande velocidade. A cadela também não gostava de ver fosse quem fosse a discutir, pois começava a ladrar enquanto não parassem e se uma das pessoas a chamasse pelo nome em tom aflitivo, ela atirava-se à pessoa que achava que estava a ameaçar a pessoa que a chamasse!...Era uma folia constante!...Enquanto estivemos em Santa Isabel, a “Calambinga” engravidou e a seu tempo, presenteou-nos com uma ninhada de doze cachorros, mas a maioria eram muito fracos e morreram, só tendo escapado três ou quatro que se desenvolveram e criaram normalmente, sendo já graúdos quando regressámos de novo ao Liberato. Como a cadela nunca saíu para o exterior e não havendo cão daquela raça, a não ser o “Quitexe” e as crias terem sido todas “pastor alemão” puras, desconfiámos que  o pai dos cachorros foi o próprio “Quitexe”, o irmão da cadela . Deve ter sido por essa razão que a ninhada foi anormal e fraca, devido à consanguinidade dos pais!... Mas as mascotes não eram só estes!...Havia ainda um “leão da Rodésia”, chamado “Leão” e uma cadela “basset-hound”, a quem chamavam a “Baixota”, o que perfazia um total oito cães, sendo quatro adultos e as quatro crias que eram o entretenimento dos militares em geral!... Por agora vou terminar, pois este já está a ficar um bocado extenso. Cordiais saudações a quem se der à paciência de me ler e despeço-me até ao próximo Capítulo. Até lá!...
Octávio Botelho     

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

CAPº. - XX - Emboscada aos "aguadeiros" e "Um golpe de sorte ou mestria?"

Estávamos há pouco tempo de regresso ao Liberato, vindos de Santa Isabel, quando nos aconteceu uma ocorrência única e invulgar, pelo menos nas Subunidades em que fiz parte dos efectivos das mesmas. No aquartelamento do Liberato não havia água corrente em nenhuma das instalações existentes. Nem mesmo na residência do gerente da Fazenda havia tal comodidade. Tinham uma cisterna feita em cimento  que era reabastecida de água pelos militares que igualmente reabasteciam os depósitos da cozinha do rancho geral e dos diversos chuveiros para o pessoal existentes em diversos locais do aquartelamento, depósitos esses que eram construídos com diversos bidões unidos pelo fundo com curvas e tubos de canalização, tendo um ou vários crivos de chuveiro, onde tomávamos os nossos  duches. A água era bastante boa, originária do rio Calambinga um, entre outros, dos afluentes do rio Dange e que tinha a sua nascente a poucos quilómetros a sueste do Liberato. A água do rio era periódicamente analisada, e em todas as análises, era classificada como potável, na época seca, mas na época chuvosa era aconselhada a filtragem, para poder-se utilizar sem riscos para a saúde. Ficava o rio a pouca distância das instalações(cerca de quinhentos a setecentos metros). Era, diariamente, nomeada uma Secção, com um Unimog 404 com atrelado tanque para água que, com uma bomba manual, aspirava a água do rio e depois a vinha distribuir, primeiro pela Cozinha e depois pelos chuveiros deixando todos os depósitos atestados, inclusive o da Fazenda.
Pistola-Metralhadora  PPSH(Costureirinha)-Russa
. Era um trabalho feito às primeiras horas da manhã e sucedeu um dia o inesperado. O rio ficava numa planície, que estava plantada de cafeeiros, o que dificultava a visão a longa distância, uma vez que aquela planta é muito ramosa e de folhagem perene.  A cerca de uns quinze a vinte metros havia um maciço de bambus, bastante espesso com uma extensão de uns dez metros e um metro e meio de largura, disposto ao longo da margem do rio, afastado desta uns quatro a cinco metros. A viatura com os militares, aproximou-se da margem do rio para iniciar o enchimento do atrelado da água e quando o fazia, inicia-se um inesperado tiroteio a partir da cortina do maciço de bambus, o que provocou pronta e idêntica reacção dos nossos militares, que fez com que os atiradores lá emboscados se pusessem em fuga precipitada, desaparecendo rapidamente a coberto da espessura dos cafeeiros. Foi feita uma rápida batida nas proximidades, mas foi infrutífera dada a pouca visibilidade na área, provocada pela vegetação existente Foram procuradas posições de vigilância além do rio a uma distância de uns vinte metros para prevenir alguma tentativa de reaproximação dos atacantes, mas eles não apareceram  mais, nem naquele nem em qualquer outro dia, até sairmos definitivamente de lá, no término da comissão. E foi este o único ataque feito,  não directamente ao meu aquartelamento,  mas nas suas imediações, durante as minhas três missões de serviço em Angola.
Por do sol em Angola
Depois deste episódio, estou a lembrar-me de um outro, ocorrido com um camarada meu que tinha a mania de querer fazer de qualquer bicho que apanhasse, um animal de estimação. Estava ele, nas proximidades do já citado rio Calambinga, à procura de qualquer animal que alcançasse, pesquisando no meio da vegetação rasteira com essa intenção. Tinha um militar ou dois que iam fazendo uma espécie de batida para irem encaminhando os bichos que lá estivessem refugiados para o local onde ele se encontrava. Ele, por prudência, levava aperrada a sua espingarda G-3, quando, de súbito, vinda do lado que se encontravam os seus ajudantes, se ouve uma grande restolhada na vegetação rasteira e logo em seguida se vê erguer-se do chão, uma cobra de  cor castanha clara e que fica estática, silvando e alçada, voltada para o local em que se encontrava o meu camarada. Repentinamente, a cobra catapulta-se para o ar e atira-se na direcção dele, que instintivamente e sem fazer a necessária pontaria,  disparou para o ar na direcção do ofídio que veio cair a seus pés, revolvendo-se no chão, mas... com a cabeça cortada pelo projéctil disparado!.... Era um animal com cerca de dois metros!... Ele ficou pálido e tremia, dizendo que, se quisesse fazer tal façanha de certeza que não conseguiria, apesar de ter tido a classificação de “atirador especial” e ter ganho alguns campeonatos naquela especialidade. Na realidade, deve ter sido um acaso ou um golpe de sorte. Veio para o aquartelamento arrastando o seu troféu, que esfolou e com ajuda de um nativo esticou a pele sobre uma tábua, depois de devidamente tratada, para secar. Mas a verdade é que perdeu a mania de ir caçar animais selvagens para fazer deles animais de estimação. Mas antes, chegou a ter um esquilo, depois um noitibó, mas dizia que o seu  sonho era ter uma cobra, anseio que nunca conseguiu concretizar. Por agora, parece que vou ter que parar, pois já me excedi um pouco. Despeço-me enviando cordiais saudações a quem se der ao trabalho de me ler. No próximo capítulo cá estarei com outras histórias. Até lá!...
Octávio Botelho

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

CAPº. - XIX - Más recordações - Boas recordações

Vivemos de recordações!... Algumas delas desagradáveis, mas estas tentamos afastá-las para o mais longe possível, para que o tempo se encarregue de dissolvê-las, até que se extingam definitivamente e não voltem a importunar-nos. Mas a verdade é que as más recordações, lá de vez em quando , quais ervas daninhas que, embora sendo exaustivamente combatidas, insistem em surgir,  a verdade é que todas as recordações boas ou más ficam-nos permanentemente gravadas e, lá de vez em quando ressurgem inevitávelmente. Neste momento, estou a recordar um infausto acontecimento ocorrido não com pessoal da nossa CArt,  mas sim de outra subunidade, mas não me estou a recordar qual seria: se da CCS, seus adidos ou de qualquer das outras CArts do Batalhão. Em determinada data que já não recordo ao certo, foi realizada na áerea da Serra Quimbinda uma operação que tinha elementos da CCS e de uma das CArts. Devem recordar-se da existência do Fortim da OPVDCA que ficava a poucos quilómetros do Quitexe, na estrada Aldeia Viçosa – Quitexe – Carmona. A operação em causa foi realizada nas proximidades desse Fortim e sucedera que durante uma caçada levada a efeito em dia anterior pelos Voluntários, estes atingiram a tiro uma paçaça, ferindo-a apenas, não tendo conseguido apanhá-la, pois ela fugira-lhes, o que era evidenciado pelos rastos de sangue do animal ferido. Ainda a procuraram exaustivamente, mas nada conseguiram, pois a pacaça se pusera “a milhas” e, como era próximo o fim do dia, desistiram de procurar o animal e recolheram ao Fortim.
Synceros caffer(Búfalo do Congo ou pacaça)
 Passados que eram dois ou três dias desta ocorrência, estava o AGR/C em questão a entrar na região, quando transitava por entre capim alto, próximo de um maciço de mata, o animal ferido e naturalmente febril devido ao seu estado, do local em que estava emboscado, vendo o movimento das cimeiras do capim, investiu sobre a coluna de militares que por ali transitavam e foi atingir um militar que foi catapultado para uma distância de cerca de dezasseis metros e quando a equipa de socorro chegou junto a ele, verificou que um dos braços dele se encontrava praticamente arrancado rente ao ombro e apenas ligado ao corpo por algumas peles e nervos. O pior era que o rapaz de, 21 a 22 anos de idade, era casado e pai de dois filhos, pois tinha casado bastante novo. Foi pedida evacuação imediata do ferido e, dentro de muito pouco tempo de espera, lá chegou um Allouette III que o transportou para o Hospital Militar de Luanda. Quanto à evolução do caso do ferido, na nossa Companhia, nunca mais soubemos nada sobre ela, mas de certo haverão algumas pessoas do nosso Batalhão que deverão ter sabido do que lhe sucedeu. Temos boas recordações que vale a pena relembrar. Esta chama-se Victória. Já passo a explicar: Quando o nosso Batalhão ocupou o subsector, uma das suas Companhias, a 784, foi colocada em Stª.Isabel, onde foi render uma CCAÇ qualquer que, numa das suas operações teve a missão de destruir um objectivo In que tinha  dado diversos problemas à população civil europeia e nativa, sem distinção. Foi montada uma operação cuja missão era destruir o acampamento e seus ocupantes para deixarem de dar problemas. Realizou-se a operação com um tal factor de surpresa e secretismo que tudo decorreu como planeado. Foi destruído o objectivo com tal eficiência que não escapou ninguém, apesar da feroz resistência do In., bem equipado e armado, este foi completamente derrotado não tendo ficado ninguém, tendo alguns perdido a vida nesse combate. Na fase seguinte, foi iniciada a destruição da sanzala pelo fogo. Nesta ocasião, vindo de uma das cubatas em vias de ser destruída, foi  nitidamente ouvido o choro de um recém-nascido que, na fuga, fora abandonado pela mãe. Entraram na palhota e encontraram um bebé com poucos dias de vida. Era uma menina e órfã de pai e de mãe!...O que fazer?!... Consultado o Cmdt da força, este decidiu que não se faria qualquer mal à inocente, que seria recolhida e depois, com mais calma, se resolveria o que fosse melhor para ela. Logo ali lhe deram-lhe um nome:Victória !...
Foto apenas simbólica
E Victória passou a chamar-se. Tratou-se de registar e legalizar a bebé o que foi realizado sem problemas. A menina era tratada, alimentada por alguns soldados, como se de uma filha deles se tratasse. Quando chegou a fim da comissão deles, tentaram levar consigo para a Metrópole a criança, mas as autoridades puseram-lhes tantas dificuldades que tiveram que desistir. Mas há sempre uma solução para todos os problemas e para este não houve fuga à regra: Então, uma nativa bailunda que era mulher de um dos contratados na Santa Isabel não tinha filhos nem podia tê-los por uma qualquer razão física e foi ela que propôs às autoridades um processo de adopção plena da pequena Victória, que assim pode ter legalmente os seus pais. Essa criança, quando chegámos a Stª.Isabel devia ter uns dois a três anos e estava tão habituada aos militares por atavismo da sua criação, que só ia para os pais adoptivos para dormir. Falava o português espantosamente bem e nós, que gostávamos de ouvir falar , provocávamo-la a falar e dizíamos-lhe que ela era muito bonita(e era mesmo!...), mas que era “preta”. E ela respondia “Ah!...Não!...Não sou nada preta!...Queres ver?” E mostrando-nos as palmas das mãozinhas rosadas, dizia-nos:”Estás a ver?!...Não sou nada preta!...Sou branca!...”. Saímos de Stª.Isabel e Victória ficou lá com os seus pais adoptivos e com a 784 novamente, como no princípio. Deve ter nascido em 64-65. Hoje se estiver viva, terá uns 46 a 47 anos de idade. O que será feito da pequena   Victória tão amimada pelos militares?...Desta vez, bati o “record” de texto e fugi um pouco ao tema habitual. Vou terminar enviando cordiais saudações a quem se der ao trabalho de me ler, despedindo-me até ao próximo Capítulo. Até lá!...
Octávio Botelho

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

CAPº. - XVIII - Regresso ao Liberato

Chegou finalmente o dia do regresso à estação inicial da nossa chegada ao Subsector do Quitexe que foi a Fazenda Liberato. Como já referi antes,  foi mais um choque físico–psicológico esta mudança  de  instalações, mas que foi bastante atenuado, por uma filosofia  que  nos tornava bastante  preparados para tal acontecimento com  muita antecedência, prevendo já, embora envolto em muitas incertezas, o nosso regresso ao lar, pois era uma verdade incontestável que não se podiam ter muitas certezas nas circunstâncias em que nos encontrávamos. Continuou, como do antecedente, a intensa actividade operacional, no sistema já referido de Bases Tácticas, adoptado na vigência da mega operação “Determinação Permanente” e, a propósito disso estou a recordar-me de um episódio passado com o encarregado de reabastecimento do AGR/C da minha Companhia com quem tínhamos combinado o envio de uma garrafa de Brandy 1920, não com este nome, mas sob um nome de código que era o de “azeitonas”. O pedido foi feito pelo Op. de Rádio, através do PCA, uma avioneta Dornier que recebia  esses pedidos e, simultaneamente dirigia os operacionais em terra, encaminhando-os para os objectivos a destruir, indicando-lhes rumos de aproximação aos mesmos.

Picada de acesso ao Liberato, na Estação das chuvas
.Nessa avioneta seguia com o piloto o oficial de operações do Batalhão que recebia pelos auscultadores os pedidos dos combatentes e os transmitia ao sargento reabastecedor para providenciar o solicitado. Feita a comunicação dos pedidos, eram reunidos os reabastecimentos na pista do aeródromo do Quitexe, metidos na Dornier ou num helicóptero que os levava até à BT e os lançava para uma clareira preparada para o efeito e a essse carregamento, nesse dia, como de costume,  foi assistir o Oficial de Operações, para verificar que tudo fosse enviado  sem falta alguma. Ao ver o sargento encarregado do Reab perguntou-lhe se não se tinha esquecido das azeitonas e, por causa das dúvidas, queria vê-las. O sargento ficou um tanto ou quanto baralhado, pois não tinha azeitonas nenhumas, mas sim uma garrafa de 1920, que não podia nem queria mostrar ao oficial. Pôs-se a procurar e, de repente, sai-se com uma desculpa de que as tinha preparado mas se esquecera de trazê-las. O oficial disse-lhe então que ele fosse a uma loja do comércio local comprá-las, pois não podiam faltar no Reab. Ele foi e regressou rápido com umas duas latas de um quilo de azeitonas cada uma e, de seguida a avioneta partiu para o Reab. Acho conveniente explicar que o pedido de 1920 foi feito devido a estar-se na  “época de cacimbo  ou seca”, em que as noites eram muito frias, devido ao denso nevoeiro saturado de humidade e as barracas, que eram abertas nos topos, não davam a necessária protecção contra o frio intenso que se fazia sentir, principalmente durante a noite.
Perfis de girafas ao por do sol, em Angola
Arranjou-se assim um produtor de calor interior para empurrar  para longe o frio, mas não para nos etilizarmos, o que seria uma falta ética e regulamentar.Como dizia acima, continuaram as operações, com o mesmo sobe serra, palmilha serra e desce serra, com tal frequência que até na mata, civis nativos que estavam sob o controlo dos ML que, posteriormente, se apresentaram ao Exército e às autoridades, sabiam os nossos nomes e um desses apresentados, quando contratado como guia de operação dirigindo-se a um dos nossos graduados que era furriel miliciano, contou-lhe que em determinada data, na serra Pingano, tinha sido por ele molhado com uma valente urinadela quando se encontrava escondido a observar o avanço da operação que naquela data e local fora realizado por um AGR/C da CArt 785. Parece-me que por hoje já chega e vou terminar, enviando saudações a quem se der à paciência de ler este “post”.No próximo Capítulo continuarei com outras histórias.   Até lá!...
Octávio Botelho

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

CAPº. - XVII - Saída de Santa Isabel

Assim como tudo que tem um princípio tem, fatalmente, que ter um fim, a nossa  permanência naquela Fazenda, ia-se aproximando inexoravelmente do seu fim, mas como despedida, que pouco tempo nos deixava para pensarmos nisso, continuámos a ter, como de hábito, bastante e variada ocupação operacional, pelas mais variadas e diversas localizações, qual delas a melhor!... Poderia dizer-se que entre “aquelas” e “estoutras”, viesse  o diabo e escolhesse. Era esta actividade intercalada com outras menos arriscadas, mas não isentas de qualquer risco que, poderia dizer-se sem exageros, estava em todas as missões que nos atribuíssem, fossem de que natureza fossem. Não se podia propriamente dizer que pessoa alguma integrada numa qualquer força em estacionamento em Angola, tivesse missões mais ou menos arriscadas, porque tal não correspondia à verdade, salvo algumas excepções que aqui e agora não interessa referir. A propósito de operação, estou a lembrar-me de uma que foi feita para os lados da serra da Cananga e, durante o seu desenrolar, um dos nossos GC foi levado pelo PCA,  a um “objectivo” onde foram encontrados numa palhota armazém diversos aparelhos domésticos, tais como mobílias, despertadores, relógios de parede, máquinas de costura, que tinham sido objecto de saque feito a fazendas de europeus que ficavam nas faldas da citada serra e tinham sido levadas para ali por elementos dos Movimentos de Libertação.
Troço da picada de acesso à Fazenda Liberato
Como era impossível restituir tais objectos aos seus donos, por se desconhecerem e até talvez terem sido chacinados em 1961, alguns foram destruídos, mas um dos militares ficou encantado com uma máquina de costura muito bem conservada que lá viu e pediu ao Comandante da força se lha deixava levar consigo, no que foi atendido. Pois teve que a carregar desde o alto da serra até à base, num percurso que não era nada fácil, pois a serra tinha uma encosta bastante inclinada, difícil de subir e mais ainda de descer, como era na presente circunstância. Nunca mais se ouviu falar em tal máquina, nem se sabe se o militar a vendeu antes de partir ou se, de facto, a levou para casa no fim da comissão!... Foi enquanto estávamos nesta Fazenda que, em 26ABR66, tivemos a primeira visita do azar que, à nossa convivência retirou,  num brutal acidente de viação, os nossos camaradas Fur.Milº. Luís Joaquim Pereira Pinto, natural de Torre de Moncorvo e o Sold. CAR Alfredo Rebelo de Amorim Malheiro, natural de Vila Nova de Cerveira. Esta ocorrência já aqui foi referida mas, achei por bem repeti-la, para que fique na memória de todos os elementos da CArt 785/BArt 786/RAP-2 e assim não suceda ser eclipsada pelo olvido e perdure enquanto for vivo um dos elementos da nossa Companhia. Há ainda um outro elemento que faleceu em combate, mas mais perto do fim da Comissão que será relembrado na altura apropriada.
Por do Sol em Angola
Pouco antes de Natal de 1966, saímos efectivamente de Santa Isabel e voltámos ao nosso aquartelamento inicial, a Fazenda Liberato, aonde nos acomodámos o melhor possível para a etapa final da nossa Comissão em Angola. Já era um território conhecido e a adaptação às mais fracas instalações foi superada com relativa facilidade e alguma filosofia à mistura, tendo sido esta última que mais nos facilitou e suavizou o trauma da transferência. A CArt 784 pouco ou quase nada fez no melhoramento das instalações pois a verdade era que eles ali estiveram apenas em trânsito e porque as instalações eram  privadas e tal melhoramento poderia ter partido do proprietário da Fazenda, pois que elas, na realidade, eram sua  propriedade  legítima e os melhoramentos seriam feitos em valorização e benefício próprio. Por hoje vou terminar, enviando cordiais saudações aos meus camaradas da CArt 785 e a todos os que se derem ao trabalho de me ler, estejam onde estiverem. No próximo capítulo continuarei a narração destas Crónicas. Até lá!...
Octávio Botelho

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

CAPº. - XVI - O "Tango dos Barbudos"

O título musical que encima este “post” pode parecer despropositado, mas apenas e tão só para aqueles que tiveram a felicidade de deixarem de ter de ir para as ex-colónias portuguesas em, como nas décadas  de 60 e 70 do século passado se dizia, missão de soberania, para a manutenção do Império e combate aos Movimentos de Libertação que, não propriamente por sua  iniciativa, mas claramente empurrados por outros Estados que tinham em vista interesses naquelas regiões que desejavam ver libertas do jugo português, para manobrarem à vontade, tornando-se assim eles os reais “donos e senhores” daquelas riquezas que sabiam existir e queriam explorar à sua vontade. Mas isto é uma divagação e, assim, acho melhor voltar ao assunto em agenda. O “Tango dos Barbudos” foi e é ainda hoje, para as pessoas da minha idade que ainda andam por cá, uma peça musical que foi um estrondoso êxito de um conjunto musical latino-americano, tendo a peça em questão um cariz tipicamente revolucionário, tipo “Sendero Luninoso”ou “FARC”, pois a respectiva introdução era iniciada com efeitos sonoros de rebentamentos de granadas e longas rajadas de metralhadoras.
Capa do disco de vinil "Tango dos Barbudos"
Na altura em que decorria esta minha comissão de serviço(1965-1967) esse “Tango” estava na “berra” em todos os bailaricos populares em romarias, arraiais e feiras de todo o País e até na própria guerra colonial, neste caso, com muito mais realismo. Tanto assim era que, em conversa sobre as actividades operacionais que se iriam realizar, era comum ouvirem-se em diálogos entre militares, expressões como estas:  - “Vai ser feita em tal data uma operação à serra “Tal””!... Em resposta ouvia-se alguém dizer:-“Tenham cuidado!...Vocês vão, com certeza ouvir o “Tango dos Barbudos”!... Foi o que aconteceu connosco quando lá estivemos a semana passada e digo-vos que fizeram uma resistência cerrada, pois aparentavam estar bem armados e municiados”!...  Se, por uma lado, é verdade que homem prevenido vale por dois, ouvir uma tal notícia era, também, um motivo de preocupação prévia que tinha efeitos bastante negativos no ânimo dos intervenientes na futura operação. Mas enfim!...lá  chegava  dia “D” e, com as tripas às voltas e a quererem saltar cá para fora, com que força não teriam elas de ser transformadas em coração, para  dar ânimo para avançar sempre em frente e até ao fim da missão?! Pelo que fica dito acima, fica em aberto uma questão: A intervenção fora conhecida com antecedência e os intervenientes foram avisados das possibilidades de reacções fortes por parte do IN e  assim ,onde estava o secretismo da intervenção que era planeada no “segredo dos deuses” da Secção de Operações e que eram única e exclusivamente do conhecimento do pessoal que nela trabalhava?... Mas a verdade inegável era esta: Não havia secretismo nenhum, pois bastava passar pela sede do Batalhão uma viatura com pessoal das Companhias que, quando chegassem  ao seu destino, eram logo sabidas todas as operações que se iriam realizar, assim como os locais das respectivas intervenções. Assim, as praças, primeiro que os Comandantes das respectivas Companhias tinham total conhecimento das operações planeadas pelo Comando do Batalhão.
Por-do-Sol africano
.Isto era um facto conhecido de toda a gente e, nunca, em tempo algum, houve qualquer atitude por parte de quem direito que obstasse  a que tal acontecesse e assim continuou até a fim da nossa  intervenção na ZIN(Zona de Intervenção Norte) de Angola. Afinal, o tão proclamado segredo  operacional  não passava de um vulgar “segredo de Polichinelo”!... Mas apesar de todas essas contínuas violações de tal segredo, não houveram as terríveis consequências apontadas nos cartazes de “Acção Psicológica” que recomendavam “segredo absoluto” sobre as actividades operacionais, proclamadas com populares sentenças do género “ Pela boca morre o peixe!...Quem te mandou badalar?!” Mas queiramos quer não e sem me considerar fatalista, acredito que só nos acontecerá aquilo que “tiver de nos acontecer”, pois nada acontece “por acaso”, muito embora  deva poder  também ser considerado o factor “sorte” ou “azar”. Pela minha parte, posso considerar-me um sortudo por ter atravessado incólume o meu total de seis anos e meio de odisseia em plena África tropical. Desta vez, creio que excedi o limite habitual e vou terminar, enviando cordiais saudações a quem se der à paciência de me  ler.  Divaguei um pouco para desanuviar o ambiente esperando que o tenha conseguido. No próximo Capítulo, continuarei com outras histórias. Até lá!...
Octávio Botelho

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

CAPº. - XV - Relembrando algumas ocorrências marcantes

Continuámos com a nossa permanência em Santa Isabel que, comparativamente ao nosso anterior  paradeiro, podia ser considerado quase como que uma colónia de férias, quanto a acomodações. Já tanto não poderei afirmar quanto a actividade operacional que era, já do antecedente, bastante dura e realizada, no geral, em localizações de difícil acesso, nomeadamente nas serras da Cananga, Pingano, Quitoque, Uíge, Vamba e Quimbinda, nomes que para muitos de vós nada significam e de que nem tampouco terão a certeza de que existem. Mas a verdade é que existem mesmo e qualquer um dos que connosco as treparam, quase como se fossem alpinistas e calcorrearam os cimos e cumeadas daquelas serras, que  não tinham planaltos, mas sim ravinas bastante profundas e quase alcantiladas e que deixavam de rastos, ao fim de um dia de marcha, até o mais atlético dos combatentes.
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Canhangulos, armas artesanais  (com o cano feito de tubo de canalização) de carregar  pela boca, com pregos e metralha diversa, cujo impacte era capaz de deformar um capacete militar de aço. 
 Estou a recordar-me, neste preciso momento, de um  camarada  meu  que, durante as deslocações de sobe e desce daqueles acidentes orográficos, sofria de uma espécie de hérnias musculares nas pernas que ficavam impressionantemente deformadas, o que lhe provocava dores excruciantes que lhe dificultavam a progressão da  marcha. Tinha que se parar, chamar o socorrista para, por intermédio de massagens e a toma de um tónico e analgésico muscular, lhe prestar a necessária assistência e, após um prolongado descanso e lenta recuperação da tonicidade muscular, podíamos prosseguir a marcha interrompida.Também o sistema de operações mudou bastante nesta época, pois apareceu por estas alturas a modalidade das “Bases Tácticas”, que permitiam uma mais longa permanência na mata, desenvolvendo-se uma actividade baseada essencialmente em patrulhamentos que irradiavam das referidas “Bases”,que em resumo eram como que um acampamento aquartelamento, com algumas melhorias, pois que estavam equipadas com cozinhas para a elaboração de comidas quentes  e refeições compostas de sopa e prato, o que era uma excelente oportunidade de desenjoar da R/C, que se tornava insuportável se utilizada por longos períodos. Continuava a haver as R/C, mas para serem usadas apenas em patrulhamentos que podiam durar, no máximo um dia e meio, a dois dias, mas com a certeza de que teriam à sua espera, no regresso, uma refeição reconfortante como devia ser. Essas “Bases” estiveram instaladas nas serras que já referi acima e as operações que se faziam a partir delas,  fizeram parte de uma mega-operação denominada “Determinação Permanente- Q” a que se juntava uma inicial “C”, “P”, “Q”, “U”, ou “V”, que indicavam a localização em que fora efectuada, sendo evidente que as iniciais correspondiam às das serras em que foram realizadas.
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Granada RPG(Energa)- Era lançada com a Esp.Mauser 7,9mm m/37
.Evocando um outro episódio ocorrido numa dessas operações, estou a recordar-me de um outro camarada que, ao fim de ter escalado uma das serras, parece-me que a Cananga, ao fim do segundo dia e depois de ter escalado uma série sucessiva de duas ou três ravinas, devido a não ter conseguido reter alimentos no estômago pois todos, mal lá caíam, saltavam para o exterior, mantinha-se apenas a beber água, ficando num tal estado de fraqueza e  prostração, que lhe impossibilitava o deslocar-se. O oficial comandante do AGR/C, vendo o estado em que se encontrava, através da rádio, pediu um meio de evacuação para o doente, tendo recebido como resposta que o Heli estava para Luanda aonde tinha ido transportar o Cmdt do Sector, para uma reunião de comandos, propondo que procedessem à evacuação com uma patrulha de escolta, saída do próprio AGR/C. O oficial conferenciou com o doente e este disse que, para trás, não ia com uma patrulha, de modo algum, tanto mais que, nesse dia e logo de manhã, tivéramos uma emboscada valente, com o In armado de canhangulos, Mauser’s e Pist-Metr PPSH.e fizeram-nos um arraial de fogachada, tendo sido obrigado a bater em retirada com uma “bazoocada” e umas “Energas” à  mistura. Não houveram quaisquer consequências  para nós, mas o bom senso nos aconselhava a não voltar pelo mesmo percurso, nem para evacuar um doente, pois que tal representava um risco enorme para quem se metesse em tal aventura. E assim, o doente, conforme pode, mas “à rasca”, percorreu o resto do trajecto da missão, durante mais três dias de insuportável agonia e“calvário”. Nesta operação ocorreu um facto inédito: O In seguiu-nos à vista, até termos saído da mata!..E, por hoje, acho que já foi suficiente e espero não ter desiludido ninguém e, se assim foi, espero fazer melhor na próxima semana. Apresento cordiais saudações a quem se tiver dado ao trabalho de me ler e despeço-me até ao próximo Capítulo. Até lá!...
Octávio Botelho

sexta-feira, 30 de setembro de 2011

CAPº.- XIV - Continuação em Santa Isabel

Como já disse anteriormente, a ida para Santa Isabel da CArt. 785, foi o melhor que nos poderia ter acontecido. Como também já disse, melhorámos enormemente no aspecto de alojamento e, como não poderíamos ter tudo bom, sucedia que no aspecto estratégico e táctico, Santa Isabel deixava muito a desejar. A área sede da Fazenda estava situada numa ligeira depressão, com as plantações de cafeeiros cercando tudo em volta, praticamente em cima das instalações fabris e de moradia e, portanto com uma visibilidade muito reduzida para o caso de haver um ataque às citadas instalações, só se dando fé de tal invasão, se  acontecesse,  mesmo em cima do acontecimento. Estava, assim, completamente afastada a hipótese de qualquer detecção prévia que permitisse organizar a auto-defesa. Felizmente que nunca aconteceu, pelo menos enquanto lá estiveram as duas CArts, a 784, em primeiro lugar e depois a nossa CArt 785”Os Cágados”, nenhuma visita  do então chamado IN. A verdade era a que diz  um ditado muito antigo e, como sempre, muito sábio: “O medo vigia a vinha e não o vinhateiro”!...O que quero dizer com isto é que, só pelo simples facto de existirem tropas aquarteladas numa Fazenda, era um forte óbice a que se aventurassem a, com intenções malévolas, caírem em tal aventura em que lhes sairia o “tiro  pela culatra” e levariam para contar!...
                               Vista geral da Fazenda Santa Isabel
Estávamos, assim um tanto ou quanto descontraídos, mas não ao ponto de nos relaxarmos na necessária segurança nocturna que  era  rigorosamente mantida, como era do Regulamento e da praxe. O clima, nada diferia do de Liberato, uma vez que Santa Isabel ficava a Leste daquele, a uma distância em linha recta de cerca de catorze quilómetros e, visto isto, é perfeitamente comprovada a afirmação que faço. A vida operacional mantinha-se sempre em força e actividade e sobre isto pouco mais há a dizer, que seja diferente da habitual rotina. Agora deu-me  para recordar uma altura em que estávamos muito próximo da época natalícia, que como qualquer outra tradicional festividade nos deixava com grandes saudades dos familiares e do ambiente familiar, mas a verdade é que nesta eram mais acentuadas e sentidas. Tínhamos recebido do MNF as tradicionais lembranças de Natal e que constavam essencialmente de cigarros, isqueiros, e pacotes de livros(nunca me esquecem os “Livros RTP) editados nos anos 60, de que recebemos embalagens de doze livros cartonados, com títulos de autores portugueses, tais como Júlio Dinis, A.Herculano, A.Garrett, e outros. Na véspera de Natal, a CCS, que tinha preparado um Auto de Natal, muito simples, sob a direcção do capelão, Pe. Victor Filipe, enviou um grupo que veio presentear-nos com uma exibição do seu trabalho, baseado na narração evangélica do nascimento de Jesus que, pela sua simplicidade, veio amenizar  e dar mais um pouco de calor à vivência das Festas Natalícias e, sob a direcção de um dos nossos alferes, foi improvisado o canto de algumas canções natalícias tradicionais.
Por-do-Sol em África
Foi bom, pois conseguiu-se, pelo ,menos  naquela noite, afastar um pouco o ambiente guerreiro, transformando-se aqueles momentos em oásis de paz e harmonia fraterna, que deveriam ser o quotidiano e não a excepção de uma noite ou de um dia, como era no caso presente. Infelizmente a paz e amor foram naqueles tempos uma flor com uma vida muito efémera, pois que durava apenas uma noite ou um dia e, no dia seguinte, já estava morta e enterrada,  como se nunca tivesse existido. Mas, que se poderia fazer?!...Eram as circunstâncias que assim o determinavam e nada havia a fazer. Estou a achar que já me excedi um pouco no meu “post” e acho melhor, por agora, terminá-lo.  Tentei fugir um pouco à rotina da matéria e espero que não tenha feito pior que nos anteriores trabalhos. Se, por acaso vos decepcionei, peço-lhes que me desculpem e no próximo tentarei fazer melhor. Cordiais saudações a quem se der à paciência de me aturar e cá estarei em breve, com o próximo “post”, para continuar. Até lá!...
Octávio Botelho

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

CAPº. - XIII - Transferência para Stª.Isabel

Perto do fim do ano de 1965, ocorreu um facto transcendente na vida da CArt 785 e que consistiu na sua transferência da Fazenda Liberato para a Fazenda Santa Isabel. Este acontecimento teve efeitos muito benéficos para o nosso  pessoal ( que fora inicialmente colocado no “pior” de todos os aquartelamentos que foram postos à disposição dos efectivos do BArt 786), pois constava ,muito simplesmente, numa melhoria radical nos percursos de acesso mais curto e com melhores condições de trânsito em qualquer época do ano, assim como nas acomodações para todo o pessoal, sem distinção(Oficiais, sargentos e Praças) e melhor e mais rápido acesso quer à sede do Batalhão, do Sector e até ainda a Luanda. Para o nosso “paraíso” abandonado, vieram fixar-se os efectivos da CArt 784, até  ali aquartelados na que era, desde então, a nossa residência no sub-sector do Quitexe. Para fazermos uma melhor ideia das excelentes condições de acesso ao exterior, enquanto a picada Aldeia Viçosa- Liberato, tinha uma distância muito próxima dos cinquenta quilómetros, num percurso que, na época chuvosa, demorava a fazer umas quase 5 horas, pois era um percurso com fraca drenagem das águas, o que provocava a formação de enormes  lamaçais em diversas baixas em que se enterravam as viaturas, tendo-se que recorrer aos guinchos que algumas possuíam para as desatascar e, se não possuíssem tal meio, teriam que ser socorridas por outras que os possuíam.
Em todas estas manobras se perdiam horas sem fim. Era este o maior inconveniente do acesso ao   Liberato, acrescido pelo facto de termos de atravessar dois maciços de mata cuja ramagem descaía sobre as laterais da estrada e a que o pessoal tranportado tinha que dar muita atenção, sob pena de ser derrubado e ficar debaixo de algum rodado. Na nova colocação, a picada que ia desta à estrada para o Quitexe- Luanda, tinha uns meros 20 quilómetros de uma picada que raramente apresentava um pouco de lama, o que se resolvia com o engate das “redutoras” e da “tracção às 4 rodas” e sem surgirem problemas de maior. Tinha ainda a vantagem de ter bastante perto uma outra fazenda que se chamava Fazenda Vamba, que ficava mais internada no vale do rio com o mesmo nome e que tinha um destacamento a nível de Secção, pertencente à CArt 785.  Escusado será dizer que, nos aspectos de alojamento, a ida para Stª.Isabel representou uma mudança semelhante à que se experimenta quando nos mudamos de uma pensão para um hotel de 4 estrelas. É evidente que esta melhoria se verificou apenas nas acomodações do pessoal, porquanto a actividade operacional se mantinha com a mesma exuberância de sempre.
Fazenda Stª.Isabel (à esqª.a Secretaria e à dtª., o Fortim, residência do Gerente, Oficiais, alguns Sar-
gentos e as Messes.
Tínhamos  até  a impressão de  que os nossos superiores estavam ansiosos por enterrar definitivamente a guerra Colonial, pois a actividade operacional, tanto do Sector, como do subsector e das Companhias continuavam a rodar em pleno e sem descanso ou quase. Quanto aos efectivos da CArt 784 que nos rendeu no Liberato, esses devem ter levado um choque, ao terem sido afastados das suas comodidades e das atenções do Gerente da Fazenda que olhava e considerava muito os Oficiais, Sargentos e até as Praças, a quem distinguia com  muitas atenções, de um modo geral e não apenas ao pessoal maior. Ainda me lembro das visitas do proprietário que vinha de Luanda vistoriar o andamento dos trabalhos na Fazenda , transportado no seu avião “Cessna”, trazendo consigo umas caixas isotérmicas carregadas de boas gambas e lagostas, para, no terraço do Fortim, se fazer uma valente petiscada, com muitas “Nocal” e “Cucas” fresquinhas. Sei que as praças também tinham a sua parte na petiscada, mas à parte, para estarem mais à vontade. Foi ainda durante o período de permanência nesta fazenda que a CArt 785 teve o primeiro golpe de azar, após a Páscoa de 1966, precisamente a 24ABR66, data em que faleceram por acidente de viação, o Fur. Milº.Pereira Pinto e o Sold.CAR Malheiro. Este episódio já aqui foi referido e, por isso, não vou prolongar-me sobre ele.  Este “post” já está a fugir aos cânones estabelecidos em extensão e vou ter de encerrá-lo. Aproveito a oportunidade para apresentar cordiais saudações a todos os eventuais leitores, onde quer que se encontrem, esperando não ter sido demasiado exaustivo  mas, se assim fui, peço-lhes que me desculpem por isso. No próximo Capítulo tentarei ser menos fastidioso!... Até lá!...
Octávio Botelho

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

CAPº. - XII - Outra operação

Continuando na senda que me propus seguir, avanço com a narração de outra operação levada a efeito nos já longínquos e afastados anos 60 do século passado. E de que outro assunto deveria falar, se outro assunto não há para tratar na realidade? Essas acções eram realizadas em função de  informações com diversas origens e que aos Comandos chegavam com bastante frequência, quer como resultado de observações directas feitas pela FAP e por informações dadas por elementos apresentados vindos da mata, onde faziam trabalho agrícola forçado nas lavras, dando apoio logístico ao IN. Assim, sabia-se existirem inúmeros refúgios que tinham anexadas lavras que proporcionavam meios de subsistência que lhes eram indispensáveis para a sua manutenção. A área em questão era localizada no vale do Rio Vamba e, em actuações nossas, feitas anteriormente naquela zona, tinham ocorrido reacções com fogos de “flagelação” e emboscadas, à nossa entrada. A missão e finalidade da operação era capturar elementos e no mínimo, destruir-lhes os locais de refúgio e os meios de subsistência. Compunham os efectivos desta operação oito AGR/C, que integravam um total de 27 GC. Um destes AGR/C pertencia à CArt 785 e tinha um efectivo de 3 GC, o que significava uma saída máxima de pessoal operacional de uma Unidade do tipo Companhia.
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                                   Por-do-sol, sobre a floresta
A acção iniciou-se a 2SET, tendo o AGR saído do Liberato a meio da tarde, indo pernoitar na Fazenda Poço. No dia imediato, ao iniciar-se a progressão, foi ouvido um estardalhaço, como de ramagens a serem partidas, dando a impressão de alguém a fugir precipitadamente. O atirador da “Madsen” reagiu abrindo fogo, dando cobertura para a entrada do primeiro GC no objectivo. Não houve qualquer reacção por parte dos fugitivos, tendo sido encontrados diversos utensílios domésticos e mobílias destruídas, dispersos pelo chão. Como a missão estivesse já concluída, o AGR prosseguiu, subindo a serra Ambuíla onde pernoitou. No dia seguinte procedeu a “batidas” ao longo do Rio Vamba, sem que tivesse tido qualquer contacto com o IN. Ao iniciar o novo dia, foi encontrada uma lavra abandonada, com umas cubatas antigas, mas com vestígios de terem sido recentemente utilizadas. Ao fim da tarde e depois de ter atravessado um rio, o AGR subiu a um morro, onde montou acampamento para pernoitar. Na manhã do dia seguinte, pouco depois de iniciar a progressão, foi encontrada uma lavra trabalhada, com um conjunto de cubatas, tendo tudo sido destruído. Perto do fim do dia foi encontrado um outro grupo de cubatas que tiveram o mesmo fim.
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Batuque na sanzala, em Angola
No dia subsequente, foi o AGR forçado a acampar, por motivo da ocorrência de uma forte trovoada, que impediu as comunicações via rádio. No dia imediato, o AGR subiu à serra Ambuíla onde encontrou uma cubata nova que destruiu e cerca do meio-dia foi sobrevoado pelo PCA, que lhe indicou o rumo para a Fazenda Poço, não tendo conseguido atingi-la, o que só sucedeu no dia seguinte, sendo dali auto-transportado para o Liberato, no dia 9SET.  Todo este percurso foi executado em sete dias, num trajecto, no geral, bastante montanhoso e de difícil acesso. Por hoje vou terminar, esperando que o tema não tenha sido demasiado maçador e ao mesmo tempo enviando cordiais saudações a todos quantos  tenham lido este “post”, despedindo-me até ao próximo capítulo. Até lá!...
Octávio Botelho

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

CAPº. - XI - Regresso ao tema principal


Depois de ter fugido ao tema principal no Capítulo anterior, hoje vou regressar à temática  com que iniciei este Blogue e, assim, em termos muito sintéticos, vou tentar descrever uma operação, sem no entanto citar, individualmente,  quaisquer nomes de pessoas que nela tenha participado. A operação foi baptizada com o nome “Nova Vaga” e foi realizada na região do Vale do Rio Vamba, adstrita à zona operacional do sub-Sector do BArt 786. Era integrada por quatro AGR/C, cada um deles com três GC. Um dos AGR pertencia à CArt 785 e um dos três GC era o meu e eu ia incluído nele. A missão da operação era fazer uma batida na zona do Vale do Vamba, pois havia informações que naquela área existiam vários refúgios do IN e de que existiam muitas lavras cultivadas com diversas espécies agrícolas que garantiam a logística desses mesmos refúgios e, em suma, deviam ser destruídos tanto os refúgios com  os meios de subsistência dos mesmos, os referidos campos cultivados.
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Carta da zona de acção do Sector I, sub-sector/BArt 786 e da CArt 785
Ao fim da tarde, o nosso AGRC foi auto-transportado do Liberato para a Fazenda Vamba e dali, internou-se na mata, onde pernoitou, em acampamento expedito, sem montagem de barracas, protegendo-se cada um da humidade da noite com o poncho impermeável. Eu acomodei-me o melhor que pude, usando como almofada para descansar a cabeça, a minha mochila, ficando localizado no limite da mata, com uma enorme mancha de capim. Como estava cansado adormeci rapidamente e , de manhã, ao acordar e mexer-me para me levantar, sinto uma grande restolhada por entre o capim e vi, distintamente, uma enorme cobra, com cerca de um metro e meio a dois metros a serpentear pelo meio do capim, fugindo em grande velocidade. Perto de mim seguia um carregador nativo que me disse que a cobra tinha passado a noite aquecendo-se ao meu calor e que fugiu quando me mexi ao acordar. Considerei-me com bastante sorte em o animal me não ter pago a pernoita com uma boa ferrada!.. Iniciámos a progressão durante todo o dia e, pela tarde,ouviu-se uma  rajada de metralhadora sem que  tivesse havido contacto directo com o atirador.
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Mamba verde(Dendroaspis viridis) -(Venenosa)

Passou-se a segunda noite e pela manhã, ouviram-se novamente  tiros de metralhadora, à distância. Após algumas horas de progressão, houve um encontro com um dos outros AGRC. Constava no transparente(*) da operação a existência de um objectivo, que foi encontrado e destruído, tendo em seguida sido montadas emboscadas nas proximidades do objectivo destruído. Ouviram-se novas rajadas de metralhadora, sem que tivesse  havido qualquer contacto com o IN. No dia seguinte, o AGR foi   recolhido, regressando ao seu aquartelamento no Liberato. Eis aqui descrita de forma simples e sintética uma operação realizada nas espessuras florestais do Uíge, nas proximidades do Quitexe e na área precisa do rio Vamba que, se consultardes um bom mapa de Angola, podereis verificar que se trata de um dos afluentes do Rio Loge, que tem mais um afluente chamado rio Lué. Há dois sub-afluentes, sendo um chamado rio Calambinga, de cuja água bebemos durante o tempo de permanência no Liberato e cuja nascente é muito próxima de Santa Isabel e o outro chamado rio Luége, que nasce perto do Quitexe. O rio Loge desagua no Oceano Atlântico, nas proximidades da vila de Ambriz. Por hoje, acho que consegui dar um rumo diferente ao meu “post”. As mais cordiais saudações a quem visitar o Blogue e o ler. No próximo Capítulo tentarei manter esta nova linha e rumo. Até lá!...
Octávio Botelho
Nota do Editor:(*) Transparente, é um "croquis" feito por decalque de uma carta topográfica.

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

CAPº. - X - Variação de Tema

Hoje, para descontrair um pouco, deixarei de parte o tema “Guerra” e entrarei por outros caminhos. Pretendo assinalar a drástica mudança que é, na realidade, o facto de uma pessoa se mudar de um ambiente europeu para um ambiente tropical o que é, de facto, uma alteração profunda, em todos os aspectos possíveis e imaginários. Até o ritmo temporal parece que é alterado e os meses, dias, horas e minutos parecem muito mais dilatados, escoando-se, por isso mesmo, mais lentamente. Poderá também comparar-se à mudança de uma planta do lugar em que foi criada e habituada a permanecer, para uma outra localização completamente diferente. Necessitará de uma aclimatação e readaptação ao seu novo “habitat”, para poder prosseguir a sua rota vital.
É evidente que não éramos plantas mas seres humanos e com mais possibilidades de adaptação que um vulgar vegetal e, assim, dentro de pouco tempo íamo-nos, lentamente, habituando a todo o exótico que se nos deparava. Recordo agora a ocorrência do primeiro encontro com um animal estranho para nós que se nos deparou durante a permanência na espessura florestal. Tinha uma voz que parecia mais um grito do que o canto canoro de um vulgar pássaro. Ao ouvirmos aquela voz dissonante, desagradável até, perguntámos às pessoas habituadas a ouvirem-na, qual o nome do animal que tão mal “cantava”, tendo-nos sito dito que se chamava “águia gritadeira” o que, de facto fazia justiça ao nome que lhe davam.
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Águia gritadeira (Haliaeetus vocifer)
Por outro lado, tínhamos encontros mais encantadores, como por exemplo com um pássaro muito semelhante aos que estávamos habituados, só que este tinha a particularidade invulgar de construir os seus ninhos com tal arte que lhes valeu ter-lhe sido atribuído o nome de “pássaro tecelão”, por sinal  bem merecido, se olharmos com atenção para o artístico trabalho que é o seu ninho que, poderá dizer-se, é uma obra de avançada “engenharia”, uma vez que, embora seja construído nas hastes flexíveis da gramínea “capim”, resistem muito bem aos ventos fortes que se sentem, principalmente na “época das chuvas”, antes das torrenciais precipitações pluviais. Parece que hoje em dia este pássaro é criado em cativeiro no nosso País, para ser usado como animal exótico de estimação.
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Pássaro tecelão
Saltando para outra área, deparávamos com o feérico espectáculo nocturno dos pirilampos que, para mim, eram completamente desconhecidos, não se podendo dizer o mesmo quanto a muitos outros elementos da CArt., que já os conheciam, pois sei que eles existem em muitos lugares de Portugal Continental. Era fantástico estar num local não iluminado, em noites sem luar, a apreciar a luminosidade de uns bichinhos tão frágeis e que se servem da luz que emitem para comunicarem entre si e poderem prepetuar a sua espécie.
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Pirilampo
Para coroar todos estes espectáculos, quero relembrar o espectáculo espantoso dos cafezais floridos que, durante o dia, fazem lembrar arbustos nevados, num clima tropical e durante as noites calmas embalsamam o ar com o seu suave perfume que apetecia respirar a longos e profundos haustos. Ainda me lembro de que tinha por hábito abrir as janelas, que eram protegidas por persianas com rede no interior que impediam a entrada de mosquitos, respirando assim, toda a noite o ar balsâmico e  puro dos cafeeiros floridos.
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Cafeeiros floridos
Como contraste para este espectáculo, tínhamos o soberbo cenário dos cafezais já maduros e prontos para a colheita e secagem nos terreiros de tijoleira, com a sua vibrante cor vermelha escarlate em cachos acumulados ao longo dos compridos caules, semelhantes a varas. Haviam outras espécies de café, cujos frutos tinham cores completamente diferentes, por, na realidade, serem de espécies diversas. Lembro-me que eram designados com os nomes de “Caturra”, “Robusta”, “Arábica”  e ainda outros de que me não recordo agora.
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Café maduro(cereja), pronto para colheita
Por hoje, parece que consegui o meu intento de variar o tema deste Blogue, fugindo, mas não muito ao esquema geral, pois que, se não tivesse sido à Guerra Colonial eu não poderia nem saberia escrever este “post” e, se o fizesse, sem lá ter ido, arriscaria a não poder escrevê-lo ou então usar da “fantasia” e inventar, que é aquilo que não estou a fazer neste momento.
Espero ter cumprido o que prometi no Capítulo anterior e só me resta despedir-me até ao próximo “post”. Muito cordiais saudações aos eventuais leitores e até lá.
Octávio Botelho

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

CAPº. - IX - "Enxurrada" de Operações

Poder-se-á, com propriedade e sem exageros aplicar o termo “enxurrada”, ao dilúvio de operações que nos caíram em cima. E quando digo “nos” quero dizer que não me refiro apenas  à CArt 785, mas também às outras duas CArts do Batalhão, e até também à CCS que também tinha o seu quinhão, assim como os Pel.Mort, que eram adidos à CCS e faziam parte  seu QO que, na sua maior parte eram administrativos não operacionais e, por essa mesma razão, nunca saíam das instalações do quartel em missão de combate. Para dar uma ideia do movimento operacional, poderei dizer que no período de 1 a 29 de Julho de 1965, foram iniciadas 9 Operações, sendo a primeira delas baptizada com o sugestivo nome de “Começa a Dança”, feita a nível do Sector. A Operação envolvia 8 AGR/C, todos eles, com excepção de um que era de comando de Alf.Milº., comandados por um capitão,envolvendo 21 GC . O AGR/C de comando de Alferes tinha 4 GC, sendo um Pel Mort, um de At.de Infantaria, outro de Sap. e um Pel.Rec.*
Esta intervenção teve a duração de 5 dias (l/7 a 6/7/65) e teve algumas peripécias e recontros de curta duração, pois o IN sabendo da quantidade de efectivos envolvidos não esteve pelo ajustes e manteve-se na “retranca”, dando apenas sinal da sua presença, mas não dando muita luta e fugindo ao contacto directo. Durante esta operação em que tomei parte, sucedeu um episódio de me ficou profundamente gravado na memória e que ainda hoje não esqueci e que foi relacionado com a falta de água. A zona que nos coube percorrer era pobre em cursos de água, facto que desconhecíamos e de que não fomos avisados, pela simples razão de que ninguém conhecia tal pormenor. Sucedeu que a maioria do pessoal, devido ao calor que se fazia sentir, esgotou nos primeiros dois dias as suas reservas de água, que não era muita na realidade, pois não passava de pouco mais de um litro de água transportada nos cantis e ao atravessarem uma ampla área de capim à torreira do sol,  alguns começaram  sentir-se mal por falta de água e sofreram durante um dia os tormentos dessa privação. Felizmente que, ao meio do quarto dia, fomos dar de caras com um rio e não fazem ideia do espectáculo de se nos deparou: Os homens, à semelhança de um rebanho de animais em “estouro” ao pressentirem a presença da água, lançaram-se em corrida desenfreada, atirando-se para o meio da torrente que, felizmente, não era muito forte, pois se tratava de um rio de planície, e de águas muito calmas e, que, por sinal, não eram lá muito cristalinas, pois tinham um colorido amarelado e foi esta a primeira vez em que se bebeu água sem haver o cuidado de lhe por o Halazone para a necessária desinfecção.
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Vista geral do aquartelamento do Liberato

Prosseguindo, de 8 a 15/7/65, iniciam-se duas operações: A “Ala Arriba” e a “Rio Lima”, com duração de 3 e 4 dias respectivamente, envolvendo 3 GC cada uma delas.
De 15 a 22/7/65, iniciaram-se as operações “Eco”, com 1 dia de duração, envolvendo 2AGR/C, com 2 GC cada um; A”Lobo do Mar", com 1 dia de duração, envolvendo 3 GC e a “Nova Vaga”, com 4 AGR/C, envolvendo 13 GC, com a duração de 2 dias.
De 22 a 29/7/65, foi iniciada a operação “Chegaremos”, com duração de um dia, envolvendo 2 GC. Foram continuadas as operações do período anterior, “Eco” e “Lobo do Mar,  com  outros efectivos.  E prossegue no período de 29/7 a 5/8/65, com as operações “Cachimbada”, envolvendo 7 GC, durante 6 dias e ainda a operação “Ultimo Tiro”, envolvendo 2 AGR/C, com um efectivo de 4 GC, durante 4 dias. De 5 a 12/8/65, realizaram-se as operações “Eco II”, envolvendo 4 AGR/C, com o efectivo de 8 GC; Operação “Bota Abaixo”, envolvendo 1 GC/dia ;Operação “Abre-se Sésamo”, envolvendo 2 GC/dia e Operação “Aranha Negra”, com duração de 4 dias, envolvendo 3 GC. Ainda durante este período, 1 GC continuou a Operação “Determinação Permanente I”, levada a efeito na serra do Uíge, sendo esta operação a nível Sector I. Este “post”, dada a sua especificidade, não deve ser muito interessante e sou de opinião que, por hoje, chega de monotonia, e por isso peço aos eventuais leitores que me  desculpem pela “estopada” com que os brindei. No próximo Capítulo, tentarei amenizar mais o texto que lhes apresentar. Até lá.
Octávio Botelho

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

CAPº. - VIII - "Determinação Permanente"(*)

No capítulo anterior descrevi, sumariamente, uma saída operacional numa época de cacimbo. Desta vez, irei fazer o mesmo, mas numa estação diferente, a das chuvas. Era a pior estação para os deslocamentos em viaturas auto, pois as picadas ficavam em péssimo estado e praticamente intransitáveis e fazê-lo nessas condições era uma aventura em que, não raro, as viaturas se atolavam em lamaçais de onde só saíam por meio de “guinchos” próprios, se os tinham, ou de outras viaturas que as socorriam, perdendo-se muito tempo com essas manobras, dando origem a que, um percurso que em tempo seco levaria uma hora a fazer, poderia prolongar-se por três a quatro horas, sem exageros!...
Tiveram então os comandos a ideia de criar um novo estilo de guerra em que se permaneceria mais tempo em “bases tácticas”, que não passavam de destacamentos improvisados e fixos durante bastante tempo, cujas guarnições eram renovadas periodicamente. Tinham cozinhas que preparavam refeições quentes, tendas de campanha montadas sobre abrigos, à prova de armas de tiro tenso e que, por isso, em caso de ataque, o que, pelo menos, com a nossa Companhia nunca aconteceu, serviam eficazmente de excelentes abrigos para fazê-los desistir ou sequer tentar a aproximação. Haviam alguns destacamentos  daquele tipo que eram completamente inexpugnáveis, pois possuíam um único caminho de acesso tão apertado que bastava um único homem para fazer a sua protecção e segurança. Dessas “bases” haviam lançamentos de patrulhas que percorriam um dia até ao anoitecer, pernoitando nesse lugar e regressando de volta, vindo dormir ao acampamento. Cada homem levava R/C para usar enquanto em patrulha. Neste sistema de “bases” a permanência poderia prolongar-se por mais de oito dias. Quanto a reabastecimentos, quando havia rendição de guarnição, a que chegava trazia consigo o essencial para o primeiro dia. Para os restantes dias haviam reabastecimentos por via aérea (avião ou helicóptero), pois havia sido aberta na mata uma clareira suficientemente ampla para isso.
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Trovoada nos trópicos
Na maior parte das vezes era o avião “Dornier” que, a baixa altitude e reduzindo a velocidade,  fazia o lançamento de sacos com géneros para a clareira. Este estilo de “operação”, era como já disse, executado na época das chuvas e quantas e quantas vezes não fomos, eu e todos os outros meus camaradas, aquando da rendição, apanhados no meio de matas cerradas, que mesmo em pleno dia era quase como se fora noite, debaixo de grossas bátegas de chuva que nos deixavam instantaneamente encharcados, com a água a espirrar para fora das botas e, como se não bastasse tudo isto, fosse ainda todo este espectáculo sonorizado pela mais retumbante trovoada, cujos raios atingiam árvores a pouco mais de cem metros, ou menos, afastadas de nós e que ficavam derrubadas e chamuscadas!... O que valia, era que não eram espécies resinosas tipo pinheiro, e por essa mesma razão, não se incendiavam nem ateavam o fogo às outras árvores pois que, se assim não fora, talvez ainda sobrasse para alguns de nós. Acrescia a toda essa ambiência de água, luz e som, a sensação terrível para todos nós de estarmos  ensopados em água gelada e sentir-se, durante uma hora e meia a duas horas a reacção de calor dos nossos corpos por debaixo das roupas molhadas!...Digo-vos era o mesmo que estarmos a ser cozinhados a vapor e à pressão!... Só quando chegávamos à “base” é que nos podíamos aliviar das roupas encharcadas, pô-las a secar junto ao fogo, o que ainda demorava umas boas horas a suceder. Depois de secas as roupas, comer alguma coisa que houvesse preparada,  iniciava-se uma patrulha de curta duração, de forma a vir pernoitar na “base".

PCA (Avioneta Dornier)
 No percurso, poder-se-ia enfrentar uma emboscada relâmpago, tipo bate e foge,  como sempre seguida de “flagelação”, tudo a contribuir  para a acumulação de “neura”, outra patologia corrente , a juntar ao “cacimbo” e a muitas “ites”, como por exemplo “pinganite”(pânico de fazer operações na serra Pingano), “vambite”(pavor de ir actuar  na serra Vamba) e ainda “quitoquite”, sim, é isso mesmo, medo de actuar na serra do Quitoque!...(Serra bem conhecida de quantos estiveram no sub-sector do Quitexe). Mas falando agora de outros assuntos, devo dizer que usávamos alguns indígenas contratados para servirem de carregadores  nessas  deslocações  em que era necessário transportar materiais  extra e aproveito para recordar um episódio interessante, ocorrido com um desses carregadores.  Numa dessas operações tínhamos carregadores e quando se estava a instalar o acampamento um dos nossos graduados pediu a um deles que fosse abrir uma vala com 2,5m de comprimento, 60 cm de largo e 80 cm de fundo, para servir de sentina. O carregador olha-o espantado e diz –lhe que uma vala com aquelas medidas não é “quadrada”, mas “rectangular”.Por sua vez, o graduado respondeu-lhe que ele tinha razão e perguntou-lhe se ele tinha andado na escola. Ele responde-lhe que sim e que tinha estudado Geometria!... O graduado deu meia volta e desapareceu do local, com cara de quem tinha dado um passo em falso. Por hoje vou acabar e, no próximo Capítulo, continuarei. Até lá!...
Octávio Botelho
(*)Nota do Redactor – Designação de uma mega-operação levada a cabo durante a nossa comissão, que foi realizada em diversas localizações, que se distinguiam uma das outras pela adição da inicial do seu nome próprio.