Síntese biográfica do meu percurso em África durante a Guerra Colonial o0o Mobilizado como Furriel do QP, de 1965 a 1967 integrado na CArt 785/BArt786 formado no RAP-2, para prestar serviço na RMA – Angola, no Sub-Sector do Quitexe , Sector de Carmona, destacado na Fazenda Liberato, Fazenda S. Isabel e novamente Fazenda Liberato de onde regressei á Metrópole o0o Mobilizado como 2º Sarg. de 1968 a 1970, em rendição individual para RMA- Angola e colocado no GAC/NL em Nova Lisboa , Huambo, mais tarde transferido por troca, para Dinge em Cabinda integrado na CArt 2396/BArt 2849, formado no RAL.5, regressei no final da comissão a Nova Lisboa de onde parti para Lisboa, a bordo do paquete Vera Cruz onde viajei também na primeira comissão o0o Mobilizado como 1º Sarg. de 1972 a 1974 integrado na Cart3514, formada no RAL.3, para prestar serviço na RMA- Angola , no Sub-Sector de Gago Coutinho (Lumbala Nguimbo) província do Moxico, onde cumprimos 28 meses, em missão de protecção aos trabalhos de construção da “Grande Via do Leste” num troço da estrada Luso – Gago Coutinho – Neriquinha – Luiana. Regressei em 1974, alguns meses depois de Abril 1974, tal como na viagem de ida, a bordo dum Boeing 707 dos TAM,.

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

CAPº. - XVII - Saída de Santa Isabel

Assim como tudo que tem um princípio tem, fatalmente, que ter um fim, a nossa  permanência naquela Fazenda, ia-se aproximando inexoravelmente do seu fim, mas como despedida, que pouco tempo nos deixava para pensarmos nisso, continuámos a ter, como de hábito, bastante e variada ocupação operacional, pelas mais variadas e diversas localizações, qual delas a melhor!... Poderia dizer-se que entre “aquelas” e “estoutras”, viesse  o diabo e escolhesse. Era esta actividade intercalada com outras menos arriscadas, mas não isentas de qualquer risco que, poderia dizer-se sem exageros, estava em todas as missões que nos atribuíssem, fossem de que natureza fossem. Não se podia propriamente dizer que pessoa alguma integrada numa qualquer força em estacionamento em Angola, tivesse missões mais ou menos arriscadas, porque tal não correspondia à verdade, salvo algumas excepções que aqui e agora não interessa referir. A propósito de operação, estou a lembrar-me de uma que foi feita para os lados da serra da Cananga e, durante o seu desenrolar, um dos nossos GC foi levado pelo PCA,  a um “objectivo” onde foram encontrados numa palhota armazém diversos aparelhos domésticos, tais como mobílias, despertadores, relógios de parede, máquinas de costura, que tinham sido objecto de saque feito a fazendas de europeus que ficavam nas faldas da citada serra e tinham sido levadas para ali por elementos dos Movimentos de Libertação.
Troço da picada de acesso à Fazenda Liberato
Como era impossível restituir tais objectos aos seus donos, por se desconhecerem e até talvez terem sido chacinados em 1961, alguns foram destruídos, mas um dos militares ficou encantado com uma máquina de costura muito bem conservada que lá viu e pediu ao Comandante da força se lha deixava levar consigo, no que foi atendido. Pois teve que a carregar desde o alto da serra até à base, num percurso que não era nada fácil, pois a serra tinha uma encosta bastante inclinada, difícil de subir e mais ainda de descer, como era na presente circunstância. Nunca mais se ouviu falar em tal máquina, nem se sabe se o militar a vendeu antes de partir ou se, de facto, a levou para casa no fim da comissão!... Foi enquanto estávamos nesta Fazenda que, em 26ABR66, tivemos a primeira visita do azar que, à nossa convivência retirou,  num brutal acidente de viação, os nossos camaradas Fur.Milº. Luís Joaquim Pereira Pinto, natural de Torre de Moncorvo e o Sold. CAR Alfredo Rebelo de Amorim Malheiro, natural de Vila Nova de Cerveira. Esta ocorrência já aqui foi referida mas, achei por bem repeti-la, para que fique na memória de todos os elementos da CArt 785/BArt 786/RAP-2 e assim não suceda ser eclipsada pelo olvido e perdure enquanto for vivo um dos elementos da nossa Companhia. Há ainda um outro elemento que faleceu em combate, mas mais perto do fim da Comissão que será relembrado na altura apropriada.
Por do Sol em Angola
Pouco antes de Natal de 1966, saímos efectivamente de Santa Isabel e voltámos ao nosso aquartelamento inicial, a Fazenda Liberato, aonde nos acomodámos o melhor possível para a etapa final da nossa Comissão em Angola. Já era um território conhecido e a adaptação às mais fracas instalações foi superada com relativa facilidade e alguma filosofia à mistura, tendo sido esta última que mais nos facilitou e suavizou o trauma da transferência. A CArt 784 pouco ou quase nada fez no melhoramento das instalações pois a verdade era que eles ali estiveram apenas em trânsito e porque as instalações eram  privadas e tal melhoramento poderia ter partido do proprietário da Fazenda, pois que elas, na realidade, eram sua  propriedade  legítima e os melhoramentos seriam feitos em valorização e benefício próprio. Por hoje vou terminar, enviando cordiais saudações aos meus camaradas da CArt 785 e a todos os que se derem ao trabalho de me ler, estejam onde estiverem. No próximo capítulo continuarei a narração destas Crónicas. Até lá!...
Octávio Botelho

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

CAPº. - XVI - O "Tango dos Barbudos"

O título musical que encima este “post” pode parecer despropositado, mas apenas e tão só para aqueles que tiveram a felicidade de deixarem de ter de ir para as ex-colónias portuguesas em, como nas décadas  de 60 e 70 do século passado se dizia, missão de soberania, para a manutenção do Império e combate aos Movimentos de Libertação que, não propriamente por sua  iniciativa, mas claramente empurrados por outros Estados que tinham em vista interesses naquelas regiões que desejavam ver libertas do jugo português, para manobrarem à vontade, tornando-se assim eles os reais “donos e senhores” daquelas riquezas que sabiam existir e queriam explorar à sua vontade. Mas isto é uma divagação e, assim, acho melhor voltar ao assunto em agenda. O “Tango dos Barbudos” foi e é ainda hoje, para as pessoas da minha idade que ainda andam por cá, uma peça musical que foi um estrondoso êxito de um conjunto musical latino-americano, tendo a peça em questão um cariz tipicamente revolucionário, tipo “Sendero Luninoso”ou “FARC”, pois a respectiva introdução era iniciada com efeitos sonoros de rebentamentos de granadas e longas rajadas de metralhadoras.
Capa do disco de vinil "Tango dos Barbudos"
Na altura em que decorria esta minha comissão de serviço(1965-1967) esse “Tango” estava na “berra” em todos os bailaricos populares em romarias, arraiais e feiras de todo o País e até na própria guerra colonial, neste caso, com muito mais realismo. Tanto assim era que, em conversa sobre as actividades operacionais que se iriam realizar, era comum ouvirem-se em diálogos entre militares, expressões como estas:  - “Vai ser feita em tal data uma operação à serra “Tal””!... Em resposta ouvia-se alguém dizer:-“Tenham cuidado!...Vocês vão, com certeza ouvir o “Tango dos Barbudos”!... Foi o que aconteceu connosco quando lá estivemos a semana passada e digo-vos que fizeram uma resistência cerrada, pois aparentavam estar bem armados e municiados”!...  Se, por uma lado, é verdade que homem prevenido vale por dois, ouvir uma tal notícia era, também, um motivo de preocupação prévia que tinha efeitos bastante negativos no ânimo dos intervenientes na futura operação. Mas enfim!...lá  chegava  dia “D” e, com as tripas às voltas e a quererem saltar cá para fora, com que força não teriam elas de ser transformadas em coração, para  dar ânimo para avançar sempre em frente e até ao fim da missão?! Pelo que fica dito acima, fica em aberto uma questão: A intervenção fora conhecida com antecedência e os intervenientes foram avisados das possibilidades de reacções fortes por parte do IN e  assim ,onde estava o secretismo da intervenção que era planeada no “segredo dos deuses” da Secção de Operações e que eram única e exclusivamente do conhecimento do pessoal que nela trabalhava?... Mas a verdade inegável era esta: Não havia secretismo nenhum, pois bastava passar pela sede do Batalhão uma viatura com pessoal das Companhias que, quando chegassem  ao seu destino, eram logo sabidas todas as operações que se iriam realizar, assim como os locais das respectivas intervenções. Assim, as praças, primeiro que os Comandantes das respectivas Companhias tinham total conhecimento das operações planeadas pelo Comando do Batalhão.
Por-do-Sol africano
.Isto era um facto conhecido de toda a gente e, nunca, em tempo algum, houve qualquer atitude por parte de quem direito que obstasse  a que tal acontecesse e assim continuou até a fim da nossa  intervenção na ZIN(Zona de Intervenção Norte) de Angola. Afinal, o tão proclamado segredo  operacional  não passava de um vulgar “segredo de Polichinelo”!... Mas apesar de todas essas contínuas violações de tal segredo, não houveram as terríveis consequências apontadas nos cartazes de “Acção Psicológica” que recomendavam “segredo absoluto” sobre as actividades operacionais, proclamadas com populares sentenças do género “ Pela boca morre o peixe!...Quem te mandou badalar?!” Mas queiramos quer não e sem me considerar fatalista, acredito que só nos acontecerá aquilo que “tiver de nos acontecer”, pois nada acontece “por acaso”, muito embora  deva poder  também ser considerado o factor “sorte” ou “azar”. Pela minha parte, posso considerar-me um sortudo por ter atravessado incólume o meu total de seis anos e meio de odisseia em plena África tropical. Desta vez, creio que excedi o limite habitual e vou terminar, enviando cordiais saudações a quem se der à paciência de me  ler.  Divaguei um pouco para desanuviar o ambiente esperando que o tenha conseguido. No próximo Capítulo, continuarei com outras histórias. Até lá!...
Octávio Botelho

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

CAPº. - XV - Relembrando algumas ocorrências marcantes

Continuámos com a nossa permanência em Santa Isabel que, comparativamente ao nosso anterior  paradeiro, podia ser considerado quase como que uma colónia de férias, quanto a acomodações. Já tanto não poderei afirmar quanto a actividade operacional que era, já do antecedente, bastante dura e realizada, no geral, em localizações de difícil acesso, nomeadamente nas serras da Cananga, Pingano, Quitoque, Uíge, Vamba e Quimbinda, nomes que para muitos de vós nada significam e de que nem tampouco terão a certeza de que existem. Mas a verdade é que existem mesmo e qualquer um dos que connosco as treparam, quase como se fossem alpinistas e calcorrearam os cimos e cumeadas daquelas serras, que  não tinham planaltos, mas sim ravinas bastante profundas e quase alcantiladas e que deixavam de rastos, ao fim de um dia de marcha, até o mais atlético dos combatentes.
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Canhangulos, armas artesanais  (com o cano feito de tubo de canalização) de carregar  pela boca, com pregos e metralha diversa, cujo impacte era capaz de deformar um capacete militar de aço. 
 Estou a recordar-me, neste preciso momento, de um  camarada  meu  que, durante as deslocações de sobe e desce daqueles acidentes orográficos, sofria de uma espécie de hérnias musculares nas pernas que ficavam impressionantemente deformadas, o que lhe provocava dores excruciantes que lhe dificultavam a progressão da  marcha. Tinha que se parar, chamar o socorrista para, por intermédio de massagens e a toma de um tónico e analgésico muscular, lhe prestar a necessária assistência e, após um prolongado descanso e lenta recuperação da tonicidade muscular, podíamos prosseguir a marcha interrompida.Também o sistema de operações mudou bastante nesta época, pois apareceu por estas alturas a modalidade das “Bases Tácticas”, que permitiam uma mais longa permanência na mata, desenvolvendo-se uma actividade baseada essencialmente em patrulhamentos que irradiavam das referidas “Bases”,que em resumo eram como que um acampamento aquartelamento, com algumas melhorias, pois que estavam equipadas com cozinhas para a elaboração de comidas quentes  e refeições compostas de sopa e prato, o que era uma excelente oportunidade de desenjoar da R/C, que se tornava insuportável se utilizada por longos períodos. Continuava a haver as R/C, mas para serem usadas apenas em patrulhamentos que podiam durar, no máximo um dia e meio, a dois dias, mas com a certeza de que teriam à sua espera, no regresso, uma refeição reconfortante como devia ser. Essas “Bases” estiveram instaladas nas serras que já referi acima e as operações que se faziam a partir delas,  fizeram parte de uma mega-operação denominada “Determinação Permanente- Q” a que se juntava uma inicial “C”, “P”, “Q”, “U”, ou “V”, que indicavam a localização em que fora efectuada, sendo evidente que as iniciais correspondiam às das serras em que foram realizadas.
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Granada RPG(Energa)- Era lançada com a Esp.Mauser 7,9mm m/37
.Evocando um outro episódio ocorrido numa dessas operações, estou a recordar-me de um outro camarada que, ao fim de ter escalado uma das serras, parece-me que a Cananga, ao fim do segundo dia e depois de ter escalado uma série sucessiva de duas ou três ravinas, devido a não ter conseguido reter alimentos no estômago pois todos, mal lá caíam, saltavam para o exterior, mantinha-se apenas a beber água, ficando num tal estado de fraqueza e  prostração, que lhe impossibilitava o deslocar-se. O oficial comandante do AGR/C, vendo o estado em que se encontrava, através da rádio, pediu um meio de evacuação para o doente, tendo recebido como resposta que o Heli estava para Luanda aonde tinha ido transportar o Cmdt do Sector, para uma reunião de comandos, propondo que procedessem à evacuação com uma patrulha de escolta, saída do próprio AGR/C. O oficial conferenciou com o doente e este disse que, para trás, não ia com uma patrulha, de modo algum, tanto mais que, nesse dia e logo de manhã, tivéramos uma emboscada valente, com o In armado de canhangulos, Mauser’s e Pist-Metr PPSH.e fizeram-nos um arraial de fogachada, tendo sido obrigado a bater em retirada com uma “bazoocada” e umas “Energas” à  mistura. Não houveram quaisquer consequências  para nós, mas o bom senso nos aconselhava a não voltar pelo mesmo percurso, nem para evacuar um doente, pois que tal representava um risco enorme para quem se metesse em tal aventura. E assim, o doente, conforme pode, mas “à rasca”, percorreu o resto do trajecto da missão, durante mais três dias de insuportável agonia e“calvário”. Nesta operação ocorreu um facto inédito: O In seguiu-nos à vista, até termos saído da mata!..E, por hoje, acho que já foi suficiente e espero não ter desiludido ninguém e, se assim foi, espero fazer melhor na próxima semana. Apresento cordiais saudações a quem se tiver dado ao trabalho de me ler e despeço-me até ao próximo Capítulo. Até lá!...
Octávio Botelho

sexta-feira, 30 de setembro de 2011

CAPº.- XIV - Continuação em Santa Isabel

Como já disse anteriormente, a ida para Santa Isabel da CArt. 785, foi o melhor que nos poderia ter acontecido. Como também já disse, melhorámos enormemente no aspecto de alojamento e, como não poderíamos ter tudo bom, sucedia que no aspecto estratégico e táctico, Santa Isabel deixava muito a desejar. A área sede da Fazenda estava situada numa ligeira depressão, com as plantações de cafeeiros cercando tudo em volta, praticamente em cima das instalações fabris e de moradia e, portanto com uma visibilidade muito reduzida para o caso de haver um ataque às citadas instalações, só se dando fé de tal invasão, se  acontecesse,  mesmo em cima do acontecimento. Estava, assim, completamente afastada a hipótese de qualquer detecção prévia que permitisse organizar a auto-defesa. Felizmente que nunca aconteceu, pelo menos enquanto lá estiveram as duas CArts, a 784, em primeiro lugar e depois a nossa CArt 785”Os Cágados”, nenhuma visita  do então chamado IN. A verdade era a que diz  um ditado muito antigo e, como sempre, muito sábio: “O medo vigia a vinha e não o vinhateiro”!...O que quero dizer com isto é que, só pelo simples facto de existirem tropas aquarteladas numa Fazenda, era um forte óbice a que se aventurassem a, com intenções malévolas, caírem em tal aventura em que lhes sairia o “tiro  pela culatra” e levariam para contar!...
                               Vista geral da Fazenda Santa Isabel
Estávamos, assim um tanto ou quanto descontraídos, mas não ao ponto de nos relaxarmos na necessária segurança nocturna que  era  rigorosamente mantida, como era do Regulamento e da praxe. O clima, nada diferia do de Liberato, uma vez que Santa Isabel ficava a Leste daquele, a uma distância em linha recta de cerca de catorze quilómetros e, visto isto, é perfeitamente comprovada a afirmação que faço. A vida operacional mantinha-se sempre em força e actividade e sobre isto pouco mais há a dizer, que seja diferente da habitual rotina. Agora deu-me  para recordar uma altura em que estávamos muito próximo da época natalícia, que como qualquer outra tradicional festividade nos deixava com grandes saudades dos familiares e do ambiente familiar, mas a verdade é que nesta eram mais acentuadas e sentidas. Tínhamos recebido do MNF as tradicionais lembranças de Natal e que constavam essencialmente de cigarros, isqueiros, e pacotes de livros(nunca me esquecem os “Livros RTP) editados nos anos 60, de que recebemos embalagens de doze livros cartonados, com títulos de autores portugueses, tais como Júlio Dinis, A.Herculano, A.Garrett, e outros. Na véspera de Natal, a CCS, que tinha preparado um Auto de Natal, muito simples, sob a direcção do capelão, Pe. Victor Filipe, enviou um grupo que veio presentear-nos com uma exibição do seu trabalho, baseado na narração evangélica do nascimento de Jesus que, pela sua simplicidade, veio amenizar  e dar mais um pouco de calor à vivência das Festas Natalícias e, sob a direcção de um dos nossos alferes, foi improvisado o canto de algumas canções natalícias tradicionais.
Por-do-Sol em África
Foi bom, pois conseguiu-se, pelo ,menos  naquela noite, afastar um pouco o ambiente guerreiro, transformando-se aqueles momentos em oásis de paz e harmonia fraterna, que deveriam ser o quotidiano e não a excepção de uma noite ou de um dia, como era no caso presente. Infelizmente a paz e amor foram naqueles tempos uma flor com uma vida muito efémera, pois que durava apenas uma noite ou um dia e, no dia seguinte, já estava morta e enterrada,  como se nunca tivesse existido. Mas, que se poderia fazer?!...Eram as circunstâncias que assim o determinavam e nada havia a fazer. Estou a achar que já me excedi um pouco no meu “post” e acho melhor, por agora, terminá-lo.  Tentei fugir um pouco à rotina da matéria e espero que não tenha feito pior que nos anteriores trabalhos. Se, por acaso vos decepcionei, peço-lhes que me desculpem e no próximo tentarei fazer melhor. Cordiais saudações a quem se der à paciência de me aturar e cá estarei em breve, com o próximo “post”, para continuar. Até lá!...
Octávio Botelho

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

CAPº. - XIII - Transferência para Stª.Isabel

Perto do fim do ano de 1965, ocorreu um facto transcendente na vida da CArt 785 e que consistiu na sua transferência da Fazenda Liberato para a Fazenda Santa Isabel. Este acontecimento teve efeitos muito benéficos para o nosso  pessoal ( que fora inicialmente colocado no “pior” de todos os aquartelamentos que foram postos à disposição dos efectivos do BArt 786), pois constava ,muito simplesmente, numa melhoria radical nos percursos de acesso mais curto e com melhores condições de trânsito em qualquer época do ano, assim como nas acomodações para todo o pessoal, sem distinção(Oficiais, sargentos e Praças) e melhor e mais rápido acesso quer à sede do Batalhão, do Sector e até ainda a Luanda. Para o nosso “paraíso” abandonado, vieram fixar-se os efectivos da CArt 784, até  ali aquartelados na que era, desde então, a nossa residência no sub-sector do Quitexe. Para fazermos uma melhor ideia das excelentes condições de acesso ao exterior, enquanto a picada Aldeia Viçosa- Liberato, tinha uma distância muito próxima dos cinquenta quilómetros, num percurso que, na época chuvosa, demorava a fazer umas quase 5 horas, pois era um percurso com fraca drenagem das águas, o que provocava a formação de enormes  lamaçais em diversas baixas em que se enterravam as viaturas, tendo-se que recorrer aos guinchos que algumas possuíam para as desatascar e, se não possuíssem tal meio, teriam que ser socorridas por outras que os possuíam.
Em todas estas manobras se perdiam horas sem fim. Era este o maior inconveniente do acesso ao   Liberato, acrescido pelo facto de termos de atravessar dois maciços de mata cuja ramagem descaía sobre as laterais da estrada e a que o pessoal tranportado tinha que dar muita atenção, sob pena de ser derrubado e ficar debaixo de algum rodado. Na nova colocação, a picada que ia desta à estrada para o Quitexe- Luanda, tinha uns meros 20 quilómetros de uma picada que raramente apresentava um pouco de lama, o que se resolvia com o engate das “redutoras” e da “tracção às 4 rodas” e sem surgirem problemas de maior. Tinha ainda a vantagem de ter bastante perto uma outra fazenda que se chamava Fazenda Vamba, que ficava mais internada no vale do rio com o mesmo nome e que tinha um destacamento a nível de Secção, pertencente à CArt 785.  Escusado será dizer que, nos aspectos de alojamento, a ida para Stª.Isabel representou uma mudança semelhante à que se experimenta quando nos mudamos de uma pensão para um hotel de 4 estrelas. É evidente que esta melhoria se verificou apenas nas acomodações do pessoal, porquanto a actividade operacional se mantinha com a mesma exuberância de sempre.
Fazenda Stª.Isabel (à esqª.a Secretaria e à dtª., o Fortim, residência do Gerente, Oficiais, alguns Sar-
gentos e as Messes.
Tínhamos  até  a impressão de  que os nossos superiores estavam ansiosos por enterrar definitivamente a guerra Colonial, pois a actividade operacional, tanto do Sector, como do subsector e das Companhias continuavam a rodar em pleno e sem descanso ou quase. Quanto aos efectivos da CArt 784 que nos rendeu no Liberato, esses devem ter levado um choque, ao terem sido afastados das suas comodidades e das atenções do Gerente da Fazenda que olhava e considerava muito os Oficiais, Sargentos e até as Praças, a quem distinguia com  muitas atenções, de um modo geral e não apenas ao pessoal maior. Ainda me lembro das visitas do proprietário que vinha de Luanda vistoriar o andamento dos trabalhos na Fazenda , transportado no seu avião “Cessna”, trazendo consigo umas caixas isotérmicas carregadas de boas gambas e lagostas, para, no terraço do Fortim, se fazer uma valente petiscada, com muitas “Nocal” e “Cucas” fresquinhas. Sei que as praças também tinham a sua parte na petiscada, mas à parte, para estarem mais à vontade. Foi ainda durante o período de permanência nesta fazenda que a CArt 785 teve o primeiro golpe de azar, após a Páscoa de 1966, precisamente a 24ABR66, data em que faleceram por acidente de viação, o Fur. Milº.Pereira Pinto e o Sold.CAR Malheiro. Este episódio já aqui foi referido e, por isso, não vou prolongar-me sobre ele.  Este “post” já está a fugir aos cânones estabelecidos em extensão e vou ter de encerrá-lo. Aproveito a oportunidade para apresentar cordiais saudações a todos os eventuais leitores, onde quer que se encontrem, esperando não ter sido demasiado exaustivo  mas, se assim fui, peço-lhes que me desculpem por isso. No próximo Capítulo tentarei ser menos fastidioso!... Até lá!...
Octávio Botelho

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

CAPº. - XII - Outra operação

Continuando na senda que me propus seguir, avanço com a narração de outra operação levada a efeito nos já longínquos e afastados anos 60 do século passado. E de que outro assunto deveria falar, se outro assunto não há para tratar na realidade? Essas acções eram realizadas em função de  informações com diversas origens e que aos Comandos chegavam com bastante frequência, quer como resultado de observações directas feitas pela FAP e por informações dadas por elementos apresentados vindos da mata, onde faziam trabalho agrícola forçado nas lavras, dando apoio logístico ao IN. Assim, sabia-se existirem inúmeros refúgios que tinham anexadas lavras que proporcionavam meios de subsistência que lhes eram indispensáveis para a sua manutenção. A área em questão era localizada no vale do Rio Vamba e, em actuações nossas, feitas anteriormente naquela zona, tinham ocorrido reacções com fogos de “flagelação” e emboscadas, à nossa entrada. A missão e finalidade da operação era capturar elementos e no mínimo, destruir-lhes os locais de refúgio e os meios de subsistência. Compunham os efectivos desta operação oito AGR/C, que integravam um total de 27 GC. Um destes AGR/C pertencia à CArt 785 e tinha um efectivo de 3 GC, o que significava uma saída máxima de pessoal operacional de uma Unidade do tipo Companhia.
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                                   Por-do-sol, sobre a floresta
A acção iniciou-se a 2SET, tendo o AGR saído do Liberato a meio da tarde, indo pernoitar na Fazenda Poço. No dia imediato, ao iniciar-se a progressão, foi ouvido um estardalhaço, como de ramagens a serem partidas, dando a impressão de alguém a fugir precipitadamente. O atirador da “Madsen” reagiu abrindo fogo, dando cobertura para a entrada do primeiro GC no objectivo. Não houve qualquer reacção por parte dos fugitivos, tendo sido encontrados diversos utensílios domésticos e mobílias destruídas, dispersos pelo chão. Como a missão estivesse já concluída, o AGR prosseguiu, subindo a serra Ambuíla onde pernoitou. No dia seguinte procedeu a “batidas” ao longo do Rio Vamba, sem que tivesse tido qualquer contacto com o IN. Ao iniciar o novo dia, foi encontrada uma lavra abandonada, com umas cubatas antigas, mas com vestígios de terem sido recentemente utilizadas. Ao fim da tarde e depois de ter atravessado um rio, o AGR subiu a um morro, onde montou acampamento para pernoitar. Na manhã do dia seguinte, pouco depois de iniciar a progressão, foi encontrada uma lavra trabalhada, com um conjunto de cubatas, tendo tudo sido destruído. Perto do fim do dia foi encontrado um outro grupo de cubatas que tiveram o mesmo fim.
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Batuque na sanzala, em Angola
No dia subsequente, foi o AGR forçado a acampar, por motivo da ocorrência de uma forte trovoada, que impediu as comunicações via rádio. No dia imediato, o AGR subiu à serra Ambuíla onde encontrou uma cubata nova que destruiu e cerca do meio-dia foi sobrevoado pelo PCA, que lhe indicou o rumo para a Fazenda Poço, não tendo conseguido atingi-la, o que só sucedeu no dia seguinte, sendo dali auto-transportado para o Liberato, no dia 9SET.  Todo este percurso foi executado em sete dias, num trajecto, no geral, bastante montanhoso e de difícil acesso. Por hoje vou terminar, esperando que o tema não tenha sido demasiado maçador e ao mesmo tempo enviando cordiais saudações a todos quantos  tenham lido este “post”, despedindo-me até ao próximo capítulo. Até lá!...
Octávio Botelho

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

CAPº. - XI - Regresso ao tema principal


Depois de ter fugido ao tema principal no Capítulo anterior, hoje vou regressar à temática  com que iniciei este Blogue e, assim, em termos muito sintéticos, vou tentar descrever uma operação, sem no entanto citar, individualmente,  quaisquer nomes de pessoas que nela tenha participado. A operação foi baptizada com o nome “Nova Vaga” e foi realizada na região do Vale do Rio Vamba, adstrita à zona operacional do sub-Sector do BArt 786. Era integrada por quatro AGR/C, cada um deles com três GC. Um dos AGR pertencia à CArt 785 e um dos três GC era o meu e eu ia incluído nele. A missão da operação era fazer uma batida na zona do Vale do Vamba, pois havia informações que naquela área existiam vários refúgios do IN e de que existiam muitas lavras cultivadas com diversas espécies agrícolas que garantiam a logística desses mesmos refúgios e, em suma, deviam ser destruídos tanto os refúgios com  os meios de subsistência dos mesmos, os referidos campos cultivados.
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Carta da zona de acção do Sector I, sub-sector/BArt 786 e da CArt 785
Ao fim da tarde, o nosso AGRC foi auto-transportado do Liberato para a Fazenda Vamba e dali, internou-se na mata, onde pernoitou, em acampamento expedito, sem montagem de barracas, protegendo-se cada um da humidade da noite com o poncho impermeável. Eu acomodei-me o melhor que pude, usando como almofada para descansar a cabeça, a minha mochila, ficando localizado no limite da mata, com uma enorme mancha de capim. Como estava cansado adormeci rapidamente e , de manhã, ao acordar e mexer-me para me levantar, sinto uma grande restolhada por entre o capim e vi, distintamente, uma enorme cobra, com cerca de um metro e meio a dois metros a serpentear pelo meio do capim, fugindo em grande velocidade. Perto de mim seguia um carregador nativo que me disse que a cobra tinha passado a noite aquecendo-se ao meu calor e que fugiu quando me mexi ao acordar. Considerei-me com bastante sorte em o animal me não ter pago a pernoita com uma boa ferrada!.. Iniciámos a progressão durante todo o dia e, pela tarde,ouviu-se uma  rajada de metralhadora sem que  tivesse havido contacto directo com o atirador.
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Mamba verde(Dendroaspis viridis) -(Venenosa)

Passou-se a segunda noite e pela manhã, ouviram-se novamente  tiros de metralhadora, à distância. Após algumas horas de progressão, houve um encontro com um dos outros AGRC. Constava no transparente(*) da operação a existência de um objectivo, que foi encontrado e destruído, tendo em seguida sido montadas emboscadas nas proximidades do objectivo destruído. Ouviram-se novas rajadas de metralhadora, sem que tivesse  havido qualquer contacto com o IN. No dia seguinte, o AGR foi   recolhido, regressando ao seu aquartelamento no Liberato. Eis aqui descrita de forma simples e sintética uma operação realizada nas espessuras florestais do Uíge, nas proximidades do Quitexe e na área precisa do rio Vamba que, se consultardes um bom mapa de Angola, podereis verificar que se trata de um dos afluentes do Rio Loge, que tem mais um afluente chamado rio Lué. Há dois sub-afluentes, sendo um chamado rio Calambinga, de cuja água bebemos durante o tempo de permanência no Liberato e cuja nascente é muito próxima de Santa Isabel e o outro chamado rio Luége, que nasce perto do Quitexe. O rio Loge desagua no Oceano Atlântico, nas proximidades da vila de Ambriz. Por hoje, acho que consegui dar um rumo diferente ao meu “post”. As mais cordiais saudações a quem visitar o Blogue e o ler. No próximo Capítulo tentarei manter esta nova linha e rumo. Até lá!...
Octávio Botelho
Nota do Editor:(*) Transparente, é um "croquis" feito por decalque de uma carta topográfica.

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

CAPº. - X - Variação de Tema

Hoje, para descontrair um pouco, deixarei de parte o tema “Guerra” e entrarei por outros caminhos. Pretendo assinalar a drástica mudança que é, na realidade, o facto de uma pessoa se mudar de um ambiente europeu para um ambiente tropical o que é, de facto, uma alteração profunda, em todos os aspectos possíveis e imaginários. Até o ritmo temporal parece que é alterado e os meses, dias, horas e minutos parecem muito mais dilatados, escoando-se, por isso mesmo, mais lentamente. Poderá também comparar-se à mudança de uma planta do lugar em que foi criada e habituada a permanecer, para uma outra localização completamente diferente. Necessitará de uma aclimatação e readaptação ao seu novo “habitat”, para poder prosseguir a sua rota vital.
É evidente que não éramos plantas mas seres humanos e com mais possibilidades de adaptação que um vulgar vegetal e, assim, dentro de pouco tempo íamo-nos, lentamente, habituando a todo o exótico que se nos deparava. Recordo agora a ocorrência do primeiro encontro com um animal estranho para nós que se nos deparou durante a permanência na espessura florestal. Tinha uma voz que parecia mais um grito do que o canto canoro de um vulgar pássaro. Ao ouvirmos aquela voz dissonante, desagradável até, perguntámos às pessoas habituadas a ouvirem-na, qual o nome do animal que tão mal “cantava”, tendo-nos sito dito que se chamava “águia gritadeira” o que, de facto fazia justiça ao nome que lhe davam.
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Águia gritadeira (Haliaeetus vocifer)
Por outro lado, tínhamos encontros mais encantadores, como por exemplo com um pássaro muito semelhante aos que estávamos habituados, só que este tinha a particularidade invulgar de construir os seus ninhos com tal arte que lhes valeu ter-lhe sido atribuído o nome de “pássaro tecelão”, por sinal  bem merecido, se olharmos com atenção para o artístico trabalho que é o seu ninho que, poderá dizer-se, é uma obra de avançada “engenharia”, uma vez que, embora seja construído nas hastes flexíveis da gramínea “capim”, resistem muito bem aos ventos fortes que se sentem, principalmente na “época das chuvas”, antes das torrenciais precipitações pluviais. Parece que hoje em dia este pássaro é criado em cativeiro no nosso País, para ser usado como animal exótico de estimação.
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Pássaro tecelão
Saltando para outra área, deparávamos com o feérico espectáculo nocturno dos pirilampos que, para mim, eram completamente desconhecidos, não se podendo dizer o mesmo quanto a muitos outros elementos da CArt., que já os conheciam, pois sei que eles existem em muitos lugares de Portugal Continental. Era fantástico estar num local não iluminado, em noites sem luar, a apreciar a luminosidade de uns bichinhos tão frágeis e que se servem da luz que emitem para comunicarem entre si e poderem prepetuar a sua espécie.
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Pirilampo
Para coroar todos estes espectáculos, quero relembrar o espectáculo espantoso dos cafezais floridos que, durante o dia, fazem lembrar arbustos nevados, num clima tropical e durante as noites calmas embalsamam o ar com o seu suave perfume que apetecia respirar a longos e profundos haustos. Ainda me lembro de que tinha por hábito abrir as janelas, que eram protegidas por persianas com rede no interior que impediam a entrada de mosquitos, respirando assim, toda a noite o ar balsâmico e  puro dos cafeeiros floridos.
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Cafeeiros floridos
Como contraste para este espectáculo, tínhamos o soberbo cenário dos cafezais já maduros e prontos para a colheita e secagem nos terreiros de tijoleira, com a sua vibrante cor vermelha escarlate em cachos acumulados ao longo dos compridos caules, semelhantes a varas. Haviam outras espécies de café, cujos frutos tinham cores completamente diferentes, por, na realidade, serem de espécies diversas. Lembro-me que eram designados com os nomes de “Caturra”, “Robusta”, “Arábica”  e ainda outros de que me não recordo agora.
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Café maduro(cereja), pronto para colheita
Por hoje, parece que consegui o meu intento de variar o tema deste Blogue, fugindo, mas não muito ao esquema geral, pois que, se não tivesse sido à Guerra Colonial eu não poderia nem saberia escrever este “post” e, se o fizesse, sem lá ter ido, arriscaria a não poder escrevê-lo ou então usar da “fantasia” e inventar, que é aquilo que não estou a fazer neste momento.
Espero ter cumprido o que prometi no Capítulo anterior e só me resta despedir-me até ao próximo “post”. Muito cordiais saudações aos eventuais leitores e até lá.
Octávio Botelho

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

CAPº. - IX - "Enxurrada" de Operações

Poder-se-á, com propriedade e sem exageros aplicar o termo “enxurrada”, ao dilúvio de operações que nos caíram em cima. E quando digo “nos” quero dizer que não me refiro apenas  à CArt 785, mas também às outras duas CArts do Batalhão, e até também à CCS que também tinha o seu quinhão, assim como os Pel.Mort, que eram adidos à CCS e faziam parte  seu QO que, na sua maior parte eram administrativos não operacionais e, por essa mesma razão, nunca saíam das instalações do quartel em missão de combate. Para dar uma ideia do movimento operacional, poderei dizer que no período de 1 a 29 de Julho de 1965, foram iniciadas 9 Operações, sendo a primeira delas baptizada com o sugestivo nome de “Começa a Dança”, feita a nível do Sector. A Operação envolvia 8 AGR/C, todos eles, com excepção de um que era de comando de Alf.Milº., comandados por um capitão,envolvendo 21 GC . O AGR/C de comando de Alferes tinha 4 GC, sendo um Pel Mort, um de At.de Infantaria, outro de Sap. e um Pel.Rec.*
Esta intervenção teve a duração de 5 dias (l/7 a 6/7/65) e teve algumas peripécias e recontros de curta duração, pois o IN sabendo da quantidade de efectivos envolvidos não esteve pelo ajustes e manteve-se na “retranca”, dando apenas sinal da sua presença, mas não dando muita luta e fugindo ao contacto directo. Durante esta operação em que tomei parte, sucedeu um episódio de me ficou profundamente gravado na memória e que ainda hoje não esqueci e que foi relacionado com a falta de água. A zona que nos coube percorrer era pobre em cursos de água, facto que desconhecíamos e de que não fomos avisados, pela simples razão de que ninguém conhecia tal pormenor. Sucedeu que a maioria do pessoal, devido ao calor que se fazia sentir, esgotou nos primeiros dois dias as suas reservas de água, que não era muita na realidade, pois não passava de pouco mais de um litro de água transportada nos cantis e ao atravessarem uma ampla área de capim à torreira do sol,  alguns começaram  sentir-se mal por falta de água e sofreram durante um dia os tormentos dessa privação. Felizmente que, ao meio do quarto dia, fomos dar de caras com um rio e não fazem ideia do espectáculo de se nos deparou: Os homens, à semelhança de um rebanho de animais em “estouro” ao pressentirem a presença da água, lançaram-se em corrida desenfreada, atirando-se para o meio da torrente que, felizmente, não era muito forte, pois se tratava de um rio de planície, e de águas muito calmas e, que, por sinal, não eram lá muito cristalinas, pois tinham um colorido amarelado e foi esta a primeira vez em que se bebeu água sem haver o cuidado de lhe por o Halazone para a necessária desinfecção.
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Vista geral do aquartelamento do Liberato

Prosseguindo, de 8 a 15/7/65, iniciam-se duas operações: A “Ala Arriba” e a “Rio Lima”, com duração de 3 e 4 dias respectivamente, envolvendo 3 GC cada uma delas.
De 15 a 22/7/65, iniciaram-se as operações “Eco”, com 1 dia de duração, envolvendo 2AGR/C, com 2 GC cada um; A”Lobo do Mar", com 1 dia de duração, envolvendo 3 GC e a “Nova Vaga”, com 4 AGR/C, envolvendo 13 GC, com a duração de 2 dias.
De 22 a 29/7/65, foi iniciada a operação “Chegaremos”, com duração de um dia, envolvendo 2 GC. Foram continuadas as operações do período anterior, “Eco” e “Lobo do Mar,  com  outros efectivos.  E prossegue no período de 29/7 a 5/8/65, com as operações “Cachimbada”, envolvendo 7 GC, durante 6 dias e ainda a operação “Ultimo Tiro”, envolvendo 2 AGR/C, com um efectivo de 4 GC, durante 4 dias. De 5 a 12/8/65, realizaram-se as operações “Eco II”, envolvendo 4 AGR/C, com o efectivo de 8 GC; Operação “Bota Abaixo”, envolvendo 1 GC/dia ;Operação “Abre-se Sésamo”, envolvendo 2 GC/dia e Operação “Aranha Negra”, com duração de 4 dias, envolvendo 3 GC. Ainda durante este período, 1 GC continuou a Operação “Determinação Permanente I”, levada a efeito na serra do Uíge, sendo esta operação a nível Sector I. Este “post”, dada a sua especificidade, não deve ser muito interessante e sou de opinião que, por hoje, chega de monotonia, e por isso peço aos eventuais leitores que me  desculpem pela “estopada” com que os brindei. No próximo Capítulo, tentarei amenizar mais o texto que lhes apresentar. Até lá.
Octávio Botelho

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

CAPº. - VIII - "Determinação Permanente"(*)

No capítulo anterior descrevi, sumariamente, uma saída operacional numa época de cacimbo. Desta vez, irei fazer o mesmo, mas numa estação diferente, a das chuvas. Era a pior estação para os deslocamentos em viaturas auto, pois as picadas ficavam em péssimo estado e praticamente intransitáveis e fazê-lo nessas condições era uma aventura em que, não raro, as viaturas se atolavam em lamaçais de onde só saíam por meio de “guinchos” próprios, se os tinham, ou de outras viaturas que as socorriam, perdendo-se muito tempo com essas manobras, dando origem a que, um percurso que em tempo seco levaria uma hora a fazer, poderia prolongar-se por três a quatro horas, sem exageros!...
Tiveram então os comandos a ideia de criar um novo estilo de guerra em que se permaneceria mais tempo em “bases tácticas”, que não passavam de destacamentos improvisados e fixos durante bastante tempo, cujas guarnições eram renovadas periodicamente. Tinham cozinhas que preparavam refeições quentes, tendas de campanha montadas sobre abrigos, à prova de armas de tiro tenso e que, por isso, em caso de ataque, o que, pelo menos, com a nossa Companhia nunca aconteceu, serviam eficazmente de excelentes abrigos para fazê-los desistir ou sequer tentar a aproximação. Haviam alguns destacamentos  daquele tipo que eram completamente inexpugnáveis, pois possuíam um único caminho de acesso tão apertado que bastava um único homem para fazer a sua protecção e segurança. Dessas “bases” haviam lançamentos de patrulhas que percorriam um dia até ao anoitecer, pernoitando nesse lugar e regressando de volta, vindo dormir ao acampamento. Cada homem levava R/C para usar enquanto em patrulha. Neste sistema de “bases” a permanência poderia prolongar-se por mais de oito dias. Quanto a reabastecimentos, quando havia rendição de guarnição, a que chegava trazia consigo o essencial para o primeiro dia. Para os restantes dias haviam reabastecimentos por via aérea (avião ou helicóptero), pois havia sido aberta na mata uma clareira suficientemente ampla para isso.
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Trovoada nos trópicos
Na maior parte das vezes era o avião “Dornier” que, a baixa altitude e reduzindo a velocidade,  fazia o lançamento de sacos com géneros para a clareira. Este estilo de “operação”, era como já disse, executado na época das chuvas e quantas e quantas vezes não fomos, eu e todos os outros meus camaradas, aquando da rendição, apanhados no meio de matas cerradas, que mesmo em pleno dia era quase como se fora noite, debaixo de grossas bátegas de chuva que nos deixavam instantaneamente encharcados, com a água a espirrar para fora das botas e, como se não bastasse tudo isto, fosse ainda todo este espectáculo sonorizado pela mais retumbante trovoada, cujos raios atingiam árvores a pouco mais de cem metros, ou menos, afastadas de nós e que ficavam derrubadas e chamuscadas!... O que valia, era que não eram espécies resinosas tipo pinheiro, e por essa mesma razão, não se incendiavam nem ateavam o fogo às outras árvores pois que, se assim não fora, talvez ainda sobrasse para alguns de nós. Acrescia a toda essa ambiência de água, luz e som, a sensação terrível para todos nós de estarmos  ensopados em água gelada e sentir-se, durante uma hora e meia a duas horas a reacção de calor dos nossos corpos por debaixo das roupas molhadas!...Digo-vos era o mesmo que estarmos a ser cozinhados a vapor e à pressão!... Só quando chegávamos à “base” é que nos podíamos aliviar das roupas encharcadas, pô-las a secar junto ao fogo, o que ainda demorava umas boas horas a suceder. Depois de secas as roupas, comer alguma coisa que houvesse preparada,  iniciava-se uma patrulha de curta duração, de forma a vir pernoitar na “base".

PCA (Avioneta Dornier)
 No percurso, poder-se-ia enfrentar uma emboscada relâmpago, tipo bate e foge,  como sempre seguida de “flagelação”, tudo a contribuir  para a acumulação de “neura”, outra patologia corrente , a juntar ao “cacimbo” e a muitas “ites”, como por exemplo “pinganite”(pânico de fazer operações na serra Pingano), “vambite”(pavor de ir actuar  na serra Vamba) e ainda “quitoquite”, sim, é isso mesmo, medo de actuar na serra do Quitoque!...(Serra bem conhecida de quantos estiveram no sub-sector do Quitexe). Mas falando agora de outros assuntos, devo dizer que usávamos alguns indígenas contratados para servirem de carregadores  nessas  deslocações  em que era necessário transportar materiais  extra e aproveito para recordar um episódio interessante, ocorrido com um desses carregadores.  Numa dessas operações tínhamos carregadores e quando se estava a instalar o acampamento um dos nossos graduados pediu a um deles que fosse abrir uma vala com 2,5m de comprimento, 60 cm de largo e 80 cm de fundo, para servir de sentina. O carregador olha-o espantado e diz –lhe que uma vala com aquelas medidas não é “quadrada”, mas “rectangular”.Por sua vez, o graduado respondeu-lhe que ele tinha razão e perguntou-lhe se ele tinha andado na escola. Ele responde-lhe que sim e que tinha estudado Geometria!... O graduado deu meia volta e desapareceu do local, com cara de quem tinha dado um passo em falso. Por hoje vou acabar e, no próximo Capítulo, continuarei. Até lá!...
Octávio Botelho
(*)Nota do Redactor – Designação de uma mega-operação levada a cabo durante a nossa comissão, que foi realizada em diversas localizações, que se distinguiam uma das outras pela adição da inicial do seu nome próprio.

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

CAPº. - VII - "Fantasmas" na madrugada

Espero que o título deste capítulo vos não faça crer que acredito em “Fantasmas”. Este vocábulo é utilizado apenas para ilustrar literariamente o episódio que me proponho narrar-vos hoje e, após este breve e fantasmagórico preâmbulo vou prosseguir: Como já referi anteriormente, tínhamos nesta época uma grande actividade operacional, cuja preparação deveria ser feita na tarde da véspera e, no dia seguinte, de manhã, muito cedo completavam-se os últimos preparativos para que nada faltasse. Ora no dia em que iniciaríamos o deslocamento para o local em que se iniciaria a “operação”, a mesma ia desenrolar-se numa estação chamada do “cacimbo” ou “seca”(*), que se caracteriza por escassez de pluviosidade, mas, em compensação, durante a noite e madrugada, levantam-se enormes bancos de um nevoeiro saturado de humidade(o cacimbo) e que perdura até às 9 a 10 horas da manhã, só desaparecendo quando o sol já vai alto. A propósito, recorda-se  que era recomendado que, em viagens nocturnas e em dormidas ao ar livre, houvesse cuidado de nos resguardarmos do cacimbo, por ser possível apanhar algumas doenças do foro respiratório e outras não menos graves. Até diziam que podia ser atingida a área psiquiátrica, pois era vulgaríssimo tratar-se os doentes dessa área por “cacimbados”.
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Cerração de "cacimbo" em Angola
E os fantasmas” onde estão?!...Até agora não apareceram!... Esperem só mais um pouquinho e já os verão!...Ei-los: É madrugada!...Aí pelas quatro a cinco da manhã!...No exterior das casernas, está frio, um frio intenso e húmido e há um nevoeiro cerrado envolvendo o ambiente!...Primeiro, aparece um vulto indefinido, depois outro e mais outro. Não se consegue distinguir quem é quem, pois as palavras proferidas são poucas e mal articuladas!..Parecem na verdade “fantasmas” saídos de um sonho de pesadelo .Há pouco, estava tudo em silêncio e, de repente, ouve-se um rumor surdo e vago dos militares em movimento. Tem que se fazer o mínimo de barulho, pois há muitos outros camaradas que estão a descansar e não devem ser acordados!... Ouve-se em simultâneo o movimentar das “Mercedes”, dos “Unimogs 411 e 404” e dos Jeeps. Os vultos encaminham-se para o telheiro da padaria, onde, ao longo da noite, esteve o nosso “boulanger” com os seus ajudantes a cozerem o pão para o dia da Companhia e para os GC levarem para a mata, guardados em sacos de plástico para durarem frescos mais tempo e terão que durar para cinco ou seis dias. As R/C já tinham sido fornecidas na véspera à tarde, assim como o reforço de municiamento e a distribuição do armamento pesado. Quanto à  dotação individual de munições, essa estava continuamente actualizada e pronta a ser utilizada em qualquer emergência.
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Ração de Combate, tipo E
De seguida, começa o pessoal a trepar as “Mercedes”(neste tempo ainda não haviam as “Berliets” que, só depois dos anos 68 começaram a surgir em Angola) e os Unimogs. Depois de todos montados, iniciava-se um viagem de uma ou duas horas para o local destinado,  pelo Plano para ser batido e patrulhado, durante cinco ou seis dias. Teríamos de percorrer um  itinerário que era, diariamente confirmado pelo PCA(avioneta Dornier) e, percorrido que fosse na totalidade, iríamos sair a um local diametralmente oposto àquele da entrada, onde já estariam à nossa espera as viaturas da nossa Companhia para nos reconduzirem ao nosso aquartelamento. Embora não tenha relatado qualquer contacto com o IN, não quer isso dizer que passámos aqueles dias sem que o mesmo tenho manifestado a sua presença e actividade! Não o fiz, por julgar supérfluo relatar tais ocorrências. Mas mesmo assim, posso referir que quando contactávamos eles se fartavam de injuriar, as nossas mulheres, as nossas mães até os nossos familiares não escapavam ao vendaval das suas invectivas. Quanto ao início de hostilidades, ele sempre partia da parte deles. Nós raramente os víamos e quando isso acontecia, era de longa distância. Mas nas emboscadas, a iniciativa era exclusivamente deles, mas sem manterem as suas posições! Fugiam, mas ao fazerem-no disparavam, ineficazmente, pois não tinham possibilidades reais de acertarem um único tiro!..E nós só tarde demos conta de tal procedimento, que tinha efeitos negativos sobre o ânimo dos nossos militares, mas apenas por efeitos psicológicos e de incerteza daquilo que na realidade, ocorria. E, por hoje, acho que já chega de evocação de factos tão antigos, mas que, na nossa memória, continuam indeléveis. No próximo capítulo, prosseguirei. Até lá!..
Octávio Botelho
(*)-Nota do  Redactor – Em Angola, a  estação do “cacimbo” ou “seca”, decorre de Maio a Setembro; a das “chuvas”, de Outubro a Abril.

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

CAPº. - VI - Começo da "Odisseia"

Com o relato que me propus iniciar não tenho a pretensão de alcançar qualquer protagonismo para mim próprio, nem para qualquer outra pessoa.
Limitar-me-ei a ser um narrador linear, conciso e preciso de alguns factos ocorridos, sem destacar nenhum em especial. Após este esclarecimento, que julguei necessário, poderei iniciar a narração da minha “odisseia” em Angola.
A nossa partida de Lisboa a bordo do “Vera Cruz”, como já referi, ocorreu no dia 28MAI65 e desembarcámos em Luanda, nove dias depois, ou seja, no dia 06JUN66, entrando no mesmo dia para o Campo Militar do Grafanil, onde estivemos abivacados até ao dia 11 do mesmo mês, dia em que, já noite avançada, chegámos à Fazenda Liberato,  nosso quartel durante alguns meses, que foram de intensa  actividade operacional, em que trepámos serras abruptas, tais como as serras de Quitoque, Cananga, Uíge, Quivinda, Pingano e tantas outras que, para lhes chegarmos ao cimo, se levavam umas boas 6 horas. Chegávamos ao alto e ficávamos com um amplo panorama em que se viam, de longe em longe, algumas localidades e Fazendas. Eram um regalo para a vista e para descansar, pois que, à hora a que chegávamos lá ao alto, só dava para comer algo, preparar o local para se passar a noite e repousar para, no dia seguinte, ao romper do dia, e às vezes, ao toque de “Alvorada”, pelo clarim,  iniciar a operação, que consistia em atingir determinados objectivos que já estavam cartograficamente assinalados e referenciados por reconhecimento aéreo.
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Fazenda Stª.Isabel. À direita, a "sanzala" dos Bailundos. No centro, o "Fortim" casa do Gerente e Quartos dos Oficiais, alguns sargentos e Messes. O Terreiro central está com café em secagem.
Muitas vezes, haviam recontros com o IN que, quase sempre ou sempre, era quem iniciava as ofensivas, lançando emboscadas , que algumas vezes tinham êxito, mas nem sempre. O pior era que, após o lançamento da emboscada, eles  “davam  à  sola”, pois conheciam a mata como os dedos das mãos, atirando por cima dos ombros e para as nuvens, tiros que eram, na realidade, ineficazes e até inofensivos, mas que tinham um negativo  efeito psicológico  sobre os militares que, assim, sofriam os efeitos dos chamados “fogos de flagelação”, que apenas tinham efeitos  arrasantes, embora carentes de real eficácia.
Nessas deslocações na mata e em combate, a única forma de avançar em frente e com maior rapidez, em matas completamente cerradas, era a “fila indiana”. A táctica de reacção a qualquer emboscada, era desencadeada  apenas pelos  primeiros três ou quatro elementos da fila, sendo que o primeiro da frente era, normalmente, um “Guia”, conhecedor da zona em causa e que abria o trilho à catanada e  se atirava ao chão imediatamente, quando haviam ataques. Logo a seguir, ia um apontador armado de metralhadora “MADSEN” ou “DREYSE”, com um  municiador, armado com G-3 e um guarda-costas, armado de Esp.Mauser, FN, ou G-3. Muitas vezes levávamos também um morteirete de 60mm  e uma Bazooka. E eram estes e só estes que atiravam em resposta ao ataque, pois a restante coluna amochava até tudo acalmar.
Estas operações duravam 4 a 6 dias, findos os quais éramos recolhidos por viaturas para o nosso Aquartelamento, onde tomávamos banho, comíamos uma refeição quente, pois tínhamos estado a R/C e depois, descansávamos com uns bons sonos de que bem precisávamos.
Esta dura rotina manteve-se até cerca do fim de 65, data em que fomos transferidos, por troca com a CArt 784, do Liberato para a Fazenda Stª.Isabel que, em comparação com a que tínhamos deixado, tinha uma instalações excepcionais. O CMDT ficava na casa do Gerente, uma espécie de Fortim com muros à prova de “bazooka”, num quarto individual. Os Oficiais, também em casa do Gerente, ficavam em quartos, dois a dois.  Os Sargentos estavam também em quartos, dois a dois e alguns a três, em residências de antigos funcionários da Fazenda. As Praças estavam em dois ou três armazéns das instalações, em bastante melhores condições que no Liberato.
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Funeral do Fur.Pereira Pinto e do Sold.Malheiro, no Quitexe, em l966
Corria tudo às “mil maravilhas”, não falando na actividade operacional que continuava intensa, quando num Domingo, 24ABR66, sai da Fazenda Stª.Isabel uma coluna auto, composta por um Jeep Willys e dois Unimogs 411, com destino a Carmona, comandada pelo Fur, Milº. Luís Joaquim Pereira Pinto. No percurso para aquela cidade e por alturas da serra da Quivinda, a viatura militar em que seguia, teve  um choque com uma viatura civil, tendo resultado do mesmo a morte instantânea do Furriel Pinto e do respectivo condutor, Sold.Malheiro e mais dois  feridos com certa gravidade, que seguiam na mesma viatura, (O Fur. Vagomestre e o  Fur. das TRMS) que foram evacuados para o HM/Luanda. Foi este o primeiro “golpe” do azar que teve a CArt 785 e que deixou toda a Companhia desmoralizada e de “rastos”. Ainda hoje, ao relatar esta fatal ocorrência, presto sentida homenagem aos camaradas “Trasmontano” e “Minhoto”que, naquele infausto dia nos deixaram tão de improviso e que hoje estão, como se diz, “esperando por nós”!...
Por hoje fico por aqui. Espero que não tenham ficado desiludidos. No próximo Capítulo continuarei a minha narração.
Até lá!...
Octávio Botelho

sexta-feira, 29 de julho de 2011

CAPº. - V - Comando e Estado-Maior

Monumento aos mortos no Liberato
A CArt 785, foi uma Companhia que teve uma grande quantidade e variedade de Comandantes, como a seguir se descrimina:
Desde o início da Formação da Companhia (fins de 1964) até 21/07/65:
- Cap. de Artª. -José Manuel de Almeida Costa;
Desde 22/07/65 até 22/10/65, interinamente:
- Alf. Milº. -Henrique Pereira da Costa Tavares;
Desde 23/10/65, até 12/01/66:
- Cap. de Infª.- Alberto do Rosário Félix;
Desde 13/01/66 até 05/05/66
- Cap. de Infª. – José Maria Teixeira de Gouveia;
Desde O6/05/66 até 02/10/66:
- Cap.Milº.Infª.Gradº.- José Manuel de Macedo Velez Caroço;
Desde 03/10/66 até 02/11/66, interinamente:
- Alf.Milº. – Henrique Pereira da Costa Tavares;
Desde 03/11/66 até 23/06/67:
- Cap. Milº.Infª. Gradº.-José Manuel de Macedo Velez Caroço;
Desde 24/06/67, até à entrega da CArt 785, no RAP-2, em fim de comissão, interinamente:
- Alf .Milº. Henrique Pereira da Costa Tavares.
Como se vê, uma grande variedade de pessoas, cada uma com seu carácter próprio mas que, no geral, se revelaram como excelentes chefes, preocupados sempre com o pessoal sob o seu Comando e responsabilidade.
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Falta agora mencionar o restante Estado-Maior da CArt, cuja discriminação é a que segue:
1º.Sargento  -  1º.Sarg.Artª. – Francisco José da Silva
Sarg.TRMS -   Fur.Milº.     -  António Lemos Rodrigues de Carvalho
    “    ALIM.-                       - Manuel dos Santos Silva
    “    MEC.           “             - Leonel Fernando Marques Ferreira
    “    SAUDE       “              -Carlos Casimiro de Almeida
1º. GC  . CMDT Alf.Mil     -Henrique Pereira da Costa Tavares
     “         1ª.SEC Fur.Artª.  - José Ângelo
     “         2ª.   “    Fur.Milº  .-Manuel Artur dos Santos Nogueira de Sousa
     “         3ª    “         “        -Fernando Martins Cardoso
2º. GC . CMDT Alf.Milº.  –Miguel Lopes de Almeida
      “        1ª.SEC  Fur,        - Valentino Manuel Francisco Xavier Viegas
      “        2ª.  “           “      - Luís Carmona de Jesus
      “        3ª.  “           “      - António João Croca
3º. GC . CMDT Alf.Milº – António Cândido da Silva Tinoca
        “      1ª. SEC. Fur.Artª – Octávio Barbosa Botelho
        “      2ª.   “      Fur.Milº-  Luís Joaquim Pereira Pinto (a)
        “      3ª.   “           “       - Claudino Ferreira Santos Almeida Henriques
4ª. GC . CMDT Alf.Milº – António Júlio Marques Dinis
        “      1ª.SEC. 2ºSg.Artª – Manuel Simões Roque
        “      2ª.   “      Fur.Milº – João Carlos Pinto Lourenço
        “      3ª.   “           “        - Manuel da Conceição Santos
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(a) Faleceu, por acidente de viação, em serviço, em 24 de Abril de 1966, tendo sido substituído por um outro Fur, Milº., António Carrilho Costa.   Enquanto  prestou serviço  foi o Pereira Pinto um excelente camarada, pelo que me curvo perante a sua memória.
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Era esta a composição e elenco do Comando e Estado-Maior (staff) da CArt 785, uma colecção de 22 pessoas, cada uma com as suas  maneiras de olhar o mundo e todas as pessoas que o ocupam, mas que, de um modo geral eram, todas elas , interessadas em assistir ao pessoal sob o seu Comando que, evidentemente, tinham as suas maneiras próprias de encarar a vida e a situação anormal em que se encontravam.
Este “post” já está um pouco longo e, por hoje acho que já chega e vou terminar até que chegue o novo Capítulo que espero, tenha uma outra componente mais agradável para os leitores.
Até lá!...
Octávio Botelho

sexta-feira, 22 de julho de 2011

CAPº. - IV - A "Estância" do Liberato

A Fazenda Liberato era, com referi no capítulo anterior, uma fazenda com plantações de café, com uma dependência não habitada em permanência, situada a uns quinze quilómetros da sede, que em 1961, com a eclosão das acções terroristas dos Movimentos de Libertação MPLA  e UPA, foi completamente destruída,  nas suas instalações e, com a chegada dos primeiros contingentes do Exército, os proprietários, tendo recuperado um tanto sumariamente as suas instalações (Casa do Gerente, moradias para o pessoal europeu, os armazéns, a sanzala e posto de socorros dos contratados bailundos), colocou à frente dos trabalhos agrícolas dois funcionários europeus, um deles Gerente ou Caseiro do Patrão e o outro para controlador dos trabalhadores africanos, devem ter sido solicitados para facultarem aquartelamento para as suas Companhias, pois ficariam com a propriedade protegida de futuras incursões dos guerrilheiros dos ML. Não  tínhamos  sido os primeiros a beneficiar do abrigo das instalações cafeeiras, mas talvez os terceiros a beneficiarem delas.
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Fazenda Liberato -  Esplanada dos Sargentos, ( Atrás: Fur. Croca, Alf. Tinoca e Furriéis Conceição Santos e Claudino. Na frente: Fur.Carmona. Os três restantes, são desconhecidos.
As instalações da Fazenda ficavam numa Colina sobranceira a um vale, com  uma  boa disposição defensiva, com vigilância contínua às possíveis vias de infiltração do IN, com postos de sentinela , tipo abrigo, semi-enterrados no solo e protegidos do sol e da chuva por um telhado de cerâmica e voltados para o exterior, que se encontrava capinado e desprovido de vegetação que pudesse acobertar quaisquer movimentos, numa distância de 200 metros em toda a volta, com  uma cerca defensiva de arame farpado e projectores apontados ao exterior, alimentados por um gerador que só trabalhava durante a noite.
Relativamente a alojamento para as praças, estas tinham quatro edifícios, antigos armazéns , um para cada GC. Os sargentos, estavam alojados em camaratas com quatro a seis camas no máximo. Os Oficiais em quartos com duas camas. O Comandante, tinha um  quarto  individual, com uma saleta anexa, servindo de Gabinete. A secretaria tinha duas dependências: Uma servia de secretaria e a outra de quarto para o 1º.Sargento. Havia uma dependência para o Posto de Socorros militar e gabinete médico. As TRMS tinham uma sala para o Posto Rádio e Alojamento para os Operadores, assim como um alojamento privativo para o Posto Cripto  e respectivos operadores.
Como disse, as instalações tinham sido reconstruídas, pois os eventos de 196l, deixaram tudo em ruínas e, apesar das reconstruções e reparações  efectuadas , notavam-se ainda alguns vestígios daquela destruição.
O principal, estava garantido: tínhamos casa, alimentação, um relativo conforto, mas o mal maior era o isolamento em que nos encontrávamos. A quarenta quilómetros da mais próxima povoação, que apenas possuía um Bar, onde se serviam umas refeições mais ou menos aceitáveis e que se chamava “ Ali Bar”. Tinha uma CCaç. aquartelada em permanência, com uma dúzia e meia de casas, e com várias sanzalas em volta um   bocado afastadas do centro da povoação que se chamava Aldeia Viçosa, por onde passava a estrada Carmona-Luanda. Podíamos dizer que estávamos ali, no meio do nada.
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Mapa da zona de intervenção da nossa companhia em Angola
Chegados ao nosso aquartelamento, tínhamos à nossa espera uma recepção: Os elementos da  CCaç. que íamos render e de que já não me recordo a designação, davam “vivas” aos “maçaricos”, que mais pareciam bonecos de terra vermelha que com o suor se tornara castanha e parecíamos mais africanos do que “maçaricos”. Chegamos já noite escura ao nosso destino e pouco mais podíamos fazer do que procurar lugar para nos acomodarmos para descansar!...Banhos, só no dia seguinte, pois não tínhamos água corrente. Os chuveiros eram de  bidões , colocados no telhado duma cabina, , com um crivo com torneira roscado a um cano que ligava os bidões pelo fundo para saída da água, que era aquecida pelo sol, quando havia sol. A água era acarretada do rio, que ficava a uns 500 metros de distância, nos atrelados de água e posta nos bidões com baldes.
Após a instalação, ficámos em sobreposição, por uma semana, durante a qual fizemos com os “velhos” uma operação, com um efectivo de 2 CG, numa área afastada da Sede uns 10 Km., sendo um dos GC da nossa Companhia e outro, dos “veteranos”. Fomos avisados de só ali íamos para vermos como funcionavam as coisas na guerra “a sério” e que, só por ataque directo ao nosso GC, poderíamos reagir com os meios defensivos que tínhamos à disposição para o efeito, pois, de contrário, a nossa reacção seria deitar ao chão e aguardar calmamente que as coisas se resolvessem apenas com eles. Mas os malandros escolheram um lugar que sabiam ser relativamente seguro para o aspecto de surpresas militares, mas inseguro noutro aspecto, pois esse lugar estava infestado por uma planta urticante, conhecida pelo nome de “feijão maluco” e manobraram com tal conhecimento táctico que fizeram com que a maior parte do nosso GC ficasse parado num local fartamente infestado pela tal planta, de que não conheciam os efeitos e, por pirraça e brincadeira, lá à frente da fila alguém disparou um inofensivo tiro que obrigou a que os “maçaricos”, se atirassem ao chão, mesmo em cheio, para cima do “feijão maluco” e imaginem, a  cena que se desenrolou em seguida: Toda a gente que tinha caído sobre as plantas, começou a coçar-se e de que maneira!...E eles, lá à frente, a rirem-se da cena!...
Neste período houve ainda mais uma operação conjunta, esta já para um lugar mais arriscado (Alto Dange), ali perto de Aldeia Viçosa. Esta já foi a nível de Batalhão e com dois AGR/C (2 Companhias, sendo uma de “maçaricos” e outra “veterana”, sendo que esta seria a líder e outra seria a “estagiária”. Desta vez, houve mesmo recontros a sério e não houveram partidas malandras da parte dos “velhos”. E os “maçaricos” portaram-se bem,  de um modo geral!...
Por agora, vou ficar por aqui, para ter alguma coisa que contar no próximo Capítulo.
Até lá!...
Octávio Botelho

sexta-feira, 15 de julho de 2011

CAPº. III - Chegada a Luanda - Início da Guerra

Atracado ao porto de Luanda o paquete “Vera Cruz”, iniciou-se imediatamente o desembarque. Fomos encaminhados para uma composição estacionada numa gare junto ao porto que, após cerca de vinte minutos de marcha, nos deixou num apeadeiro situado próximo da entrada do Campo Militar do Grafanil . A entrada era impressionante, tinha um controlo de entrada de viaturas e pessoal, com um balancé accionado por um vigilante numa casa situada a um dos lados da entrada. Tinha-se acesso a uma larga avenida, com diversos edifícios tipo armazém, dos dois lados. Eram na realidade, armazéns de diversos materiais necessários á logística própria de uma guerra: Depósitos de Material de Guerra, de diversos tipos, como armamentos, equipamentos, material Auto, de Intendência , etc…!
Subia-se a avenida de entrada e, ao fim de uns cem a duzentos metros, voltava-se à direita e, do lado esquerdo, estava situada a célebre “Capela do Imbondeiro”, dedicada a Nª.Srª. de Fátima e do lado direito, ficava o cinema do CM do Grafanil, que tinha um “écran” para Cinemascope, um palco, para espectáculos de “variedades” e uma cabina de projecção equipada com os mais modernos projectores de cinema. Só tinha 1ª. e 2ª. Plateias, não possuindo Geral nem Balcões e se chovesse não havia sessão, pois a esplanada não tinha coberta. Tinha, no entanto, um Bar bastante bem equipado e fornecido de cervejas , refrigerantes e outras bebidas mais selectas.
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Grafanil - Capela no Imbondeiro

Voltava-se novamente para a esquerda e, ao fim de cerca de duzentos metros, entrava-se numa área com edifícios compridos e baixos com um corredor ao meio e dois tabuleiros feitos de cimento ao logo das paredes laterais e que serviam de camas para as praças, que ali dormiam sobre colchões de espuma. As paredes laterais não encostavam ao coberto dos edifícios, deixando um abertura de cerca de um metro de altura entre o telhado e o cimo da parede lateral para circulação de ar e arrefecimento do ambiente, num perfeito arremedo de ar condicionado.
Os sargentos ficavam alojados num barraca tipo JC servindo de camarata. Numa outra barraca idêntica à dos Sargentos, mas de tamanho menor, ficava a Secretaria da Companhia e o alojamento para o 1º.Sargento.
Durante o dia, o local não era muito quente e suportavam-se muito bem as temperaturas!...Mas à noite?!?... Então é que era o bom e o bonito!...Só se ouviam dar palmadas na cara, nas mãos e por toda a parte descoberta do corpo, pois havia uma invasão de mosquitos que pareciam esfomeados e no dia seguinte, estávamos todos pintalgados das ferroadas que nos davam!...
Um dia ou dois depois de chegarmos ao Grafanil, foi-nos entregue o armamento, equipamento e todo o material necessário para poder-mos deslocar-nos para a nossa zona de actuação.
Uma vez completa a operação anterior, chegou o dia de se iniciar o movimento de deslocação, em coluna auto, composta por camiões de carga, de caixa aberta, para a nossa zona de actuação, que era o sub-Sector do Quitexe, Sector de Carmona, onde ficaria a séde do BArt 786 e a respectiva CCS. A nossa CArt 785, ficaria aquartelada nas recém-recuperadas instalações de uma plantação de café, designada por Fazenda Liberato. Para chegarmos ao nosso destino, tivemos que percorrer: 10 Km, do Grafanil a Luanda, 180 Km, de Luanda a Aldeia Viçosa e 39 Km, de Aldeia Viçosa à Fazenda Liberato, perfazendo um total de 229 Km, a maioria dos quais, em boa estrada asfaltada . O percurso Aldeia Viçosa Liberato é que era o pior: Picada, com piso de macadame (laterite), sofrível em tempo seco, embora com muita poeira, mas terrivelmente má no tempo das chuvas.
Foram-nos dadas rigorosas instruções para que, no caso de haver alguma emboscada. , não se disparasse um único tiro sem razão justificativa, isto é, sem que se visse alguém a atacar-nos directamente. A reacção contra essa acção estaria unicamente a cargo da parte directamente atacada. Todos os restantes apenas se abrigariam o melhor possível e ficariam “sossegados” e “calados”. Fomos informados de que essa atitude era a mais sensata e revelaria que éramos ponderados na utilização dos nossos meios de defesa e que o In ficaria avisado de que não éramos para “brincadeiras” e nos deixaria em paz, vendo a nossa táctica como muito perigosa para ele.
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Aerodromo da Fazenda Liberato - Alf. Dinis, Furriéis Croca, Claudino, S. Silva, 2º Sarg. Botelho e Alf. Tinoca
De facto, não houve qualquer “emboscada”, no percurso Luanda – Quitexe. Apenas um dos pneus de uma das viaturas teve a infeliz “ideia” de rebentar e, nem queiram saber!...Pensavam que tinha sido uma mina A/C, e saltaram todos para o chão, à espera da sequência lógica de tal facto: uma “saraivada” de tiros que, felizmente, não aconteceu.
Ao chegarmos a Aldeia Viçosa, chegávamos ao início do caminho de acesso ao aquartelamento da nossa Companhia, que era a já referida Fazenda Liberato, que ficava a uma distância de cerca de 39-40 quilómetros de Aldeia Viçosa, cuja picada se encontrava em péssimo estado de conservação e levávamos duas a três horas e, às vezes mais, dependendo da época em que estivéssemos [cacimbo (seca) ou chuvas) para fazermos tal percurso. Acrescia o facto de, ao longo dessa picada, existirem restos de sanzalas (Cólua e outras), em que houvera , há cerca de um ano, um massacre de uma coluna militar, da Fazenda Liberato, que regressava ou voltava para o seu Quartel. Em revanche, caíram em cima dessas sanzalas algumas grandes operações que levaram a ferro e fogo tudo quanto lhes apareceu pela frente. A partir daí, passou a haver tranquilidade relativa em tal percurso.
Mas, acho que esta narrativa já vai um pouco avançada e vou terminar por hoje, para continuar no próximo capítulo.
Até breve.
Octávio Botelho