Síntese biográfica do meu percurso em África durante a Guerra Colonial o0o Mobilizado como Furriel do QP, de 1965 a 1967 integrado na CArt 785/BArt786 formado no RAP-2, para prestar serviço na RMA – Angola, no Sub-Sector do Quitexe , Sector de Carmona, destacado na Fazenda Liberato, Fazenda S. Isabel e novamente Fazenda Liberato de onde regressei á Metrópole o0o Mobilizado como 2º Sarg. de 1968 a 1970, em rendição individual para RMA- Angola e colocado no GAC/NL em Nova Lisboa , Huambo, mais tarde transferido por troca, para Dinge em Cabinda integrado na CArt 2396/BArt 2849, formado no RAL.5, regressei no final da comissão a Nova Lisboa de onde parti para Lisboa, a bordo do paquete Vera Cruz onde viajei também na primeira comissão o0o Mobilizado como 1º Sarg. de 1972 a 1974 integrado na Cart3514, formada no RAL.3, para prestar serviço na RMA- Angola , no Sub-Sector de Gago Coutinho (Lumbala Nguimbo) província do Moxico, onde cumprimos 28 meses, em missão de protecção aos trabalhos de construção da “Grande Via do Leste” num troço da estrada Luso – Gago Coutinho – Neriquinha – Luiana. Regressei em 1974, alguns meses depois de Abril 1974, tal como na viagem de ida, a bordo dum Boeing 707 dos TAM,.

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

CAPº. - IX - "Enxurrada" de Operações

Poder-se-á, com propriedade e sem exageros aplicar o termo “enxurrada”, ao dilúvio de operações que nos caíram em cima. E quando digo “nos” quero dizer que não me refiro apenas  à CArt 785, mas também às outras duas CArts do Batalhão, e até também à CCS que também tinha o seu quinhão, assim como os Pel.Mort, que eram adidos à CCS e faziam parte  seu QO que, na sua maior parte eram administrativos não operacionais e, por essa mesma razão, nunca saíam das instalações do quartel em missão de combate. Para dar uma ideia do movimento operacional, poderei dizer que no período de 1 a 29 de Julho de 1965, foram iniciadas 9 Operações, sendo a primeira delas baptizada com o sugestivo nome de “Começa a Dança”, feita a nível do Sector. A Operação envolvia 8 AGR/C, todos eles, com excepção de um que era de comando de Alf.Milº., comandados por um capitão,envolvendo 21 GC . O AGR/C de comando de Alferes tinha 4 GC, sendo um Pel Mort, um de At.de Infantaria, outro de Sap. e um Pel.Rec.*
Esta intervenção teve a duração de 5 dias (l/7 a 6/7/65) e teve algumas peripécias e recontros de curta duração, pois o IN sabendo da quantidade de efectivos envolvidos não esteve pelo ajustes e manteve-se na “retranca”, dando apenas sinal da sua presença, mas não dando muita luta e fugindo ao contacto directo. Durante esta operação em que tomei parte, sucedeu um episódio de me ficou profundamente gravado na memória e que ainda hoje não esqueci e que foi relacionado com a falta de água. A zona que nos coube percorrer era pobre em cursos de água, facto que desconhecíamos e de que não fomos avisados, pela simples razão de que ninguém conhecia tal pormenor. Sucedeu que a maioria do pessoal, devido ao calor que se fazia sentir, esgotou nos primeiros dois dias as suas reservas de água, que não era muita na realidade, pois não passava de pouco mais de um litro de água transportada nos cantis e ao atravessarem uma ampla área de capim à torreira do sol,  alguns começaram  sentir-se mal por falta de água e sofreram durante um dia os tormentos dessa privação. Felizmente que, ao meio do quarto dia, fomos dar de caras com um rio e não fazem ideia do espectáculo de se nos deparou: Os homens, à semelhança de um rebanho de animais em “estouro” ao pressentirem a presença da água, lançaram-se em corrida desenfreada, atirando-se para o meio da torrente que, felizmente, não era muito forte, pois se tratava de um rio de planície, e de águas muito calmas e, que, por sinal, não eram lá muito cristalinas, pois tinham um colorido amarelado e foi esta a primeira vez em que se bebeu água sem haver o cuidado de lhe por o Halazone para a necessária desinfecção.
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Vista geral do aquartelamento do Liberato

Prosseguindo, de 8 a 15/7/65, iniciam-se duas operações: A “Ala Arriba” e a “Rio Lima”, com duração de 3 e 4 dias respectivamente, envolvendo 3 GC cada uma delas.
De 15 a 22/7/65, iniciaram-se as operações “Eco”, com 1 dia de duração, envolvendo 2AGR/C, com 2 GC cada um; A”Lobo do Mar", com 1 dia de duração, envolvendo 3 GC e a “Nova Vaga”, com 4 AGR/C, envolvendo 13 GC, com a duração de 2 dias.
De 22 a 29/7/65, foi iniciada a operação “Chegaremos”, com duração de um dia, envolvendo 2 GC. Foram continuadas as operações do período anterior, “Eco” e “Lobo do Mar,  com  outros efectivos.  E prossegue no período de 29/7 a 5/8/65, com as operações “Cachimbada”, envolvendo 7 GC, durante 6 dias e ainda a operação “Ultimo Tiro”, envolvendo 2 AGR/C, com um efectivo de 4 GC, durante 4 dias. De 5 a 12/8/65, realizaram-se as operações “Eco II”, envolvendo 4 AGR/C, com o efectivo de 8 GC; Operação “Bota Abaixo”, envolvendo 1 GC/dia ;Operação “Abre-se Sésamo”, envolvendo 2 GC/dia e Operação “Aranha Negra”, com duração de 4 dias, envolvendo 3 GC. Ainda durante este período, 1 GC continuou a Operação “Determinação Permanente I”, levada a efeito na serra do Uíge, sendo esta operação a nível Sector I. Este “post”, dada a sua especificidade, não deve ser muito interessante e sou de opinião que, por hoje, chega de monotonia, e por isso peço aos eventuais leitores que me  desculpem pela “estopada” com que os brindei. No próximo Capítulo, tentarei amenizar mais o texto que lhes apresentar. Até lá.
Octávio Botelho

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

CAPº. - VIII - "Determinação Permanente"(*)

No capítulo anterior descrevi, sumariamente, uma saída operacional numa época de cacimbo. Desta vez, irei fazer o mesmo, mas numa estação diferente, a das chuvas. Era a pior estação para os deslocamentos em viaturas auto, pois as picadas ficavam em péssimo estado e praticamente intransitáveis e fazê-lo nessas condições era uma aventura em que, não raro, as viaturas se atolavam em lamaçais de onde só saíam por meio de “guinchos” próprios, se os tinham, ou de outras viaturas que as socorriam, perdendo-se muito tempo com essas manobras, dando origem a que, um percurso que em tempo seco levaria uma hora a fazer, poderia prolongar-se por três a quatro horas, sem exageros!...
Tiveram então os comandos a ideia de criar um novo estilo de guerra em que se permaneceria mais tempo em “bases tácticas”, que não passavam de destacamentos improvisados e fixos durante bastante tempo, cujas guarnições eram renovadas periodicamente. Tinham cozinhas que preparavam refeições quentes, tendas de campanha montadas sobre abrigos, à prova de armas de tiro tenso e que, por isso, em caso de ataque, o que, pelo menos, com a nossa Companhia nunca aconteceu, serviam eficazmente de excelentes abrigos para fazê-los desistir ou sequer tentar a aproximação. Haviam alguns destacamentos  daquele tipo que eram completamente inexpugnáveis, pois possuíam um único caminho de acesso tão apertado que bastava um único homem para fazer a sua protecção e segurança. Dessas “bases” haviam lançamentos de patrulhas que percorriam um dia até ao anoitecer, pernoitando nesse lugar e regressando de volta, vindo dormir ao acampamento. Cada homem levava R/C para usar enquanto em patrulha. Neste sistema de “bases” a permanência poderia prolongar-se por mais de oito dias. Quanto a reabastecimentos, quando havia rendição de guarnição, a que chegava trazia consigo o essencial para o primeiro dia. Para os restantes dias haviam reabastecimentos por via aérea (avião ou helicóptero), pois havia sido aberta na mata uma clareira suficientemente ampla para isso.
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Trovoada nos trópicos
Na maior parte das vezes era o avião “Dornier” que, a baixa altitude e reduzindo a velocidade,  fazia o lançamento de sacos com géneros para a clareira. Este estilo de “operação”, era como já disse, executado na época das chuvas e quantas e quantas vezes não fomos, eu e todos os outros meus camaradas, aquando da rendição, apanhados no meio de matas cerradas, que mesmo em pleno dia era quase como se fora noite, debaixo de grossas bátegas de chuva que nos deixavam instantaneamente encharcados, com a água a espirrar para fora das botas e, como se não bastasse tudo isto, fosse ainda todo este espectáculo sonorizado pela mais retumbante trovoada, cujos raios atingiam árvores a pouco mais de cem metros, ou menos, afastadas de nós e que ficavam derrubadas e chamuscadas!... O que valia, era que não eram espécies resinosas tipo pinheiro, e por essa mesma razão, não se incendiavam nem ateavam o fogo às outras árvores pois que, se assim não fora, talvez ainda sobrasse para alguns de nós. Acrescia a toda essa ambiência de água, luz e som, a sensação terrível para todos nós de estarmos  ensopados em água gelada e sentir-se, durante uma hora e meia a duas horas a reacção de calor dos nossos corpos por debaixo das roupas molhadas!...Digo-vos era o mesmo que estarmos a ser cozinhados a vapor e à pressão!... Só quando chegávamos à “base” é que nos podíamos aliviar das roupas encharcadas, pô-las a secar junto ao fogo, o que ainda demorava umas boas horas a suceder. Depois de secas as roupas, comer alguma coisa que houvesse preparada,  iniciava-se uma patrulha de curta duração, de forma a vir pernoitar na “base".

PCA (Avioneta Dornier)
 No percurso, poder-se-ia enfrentar uma emboscada relâmpago, tipo bate e foge,  como sempre seguida de “flagelação”, tudo a contribuir  para a acumulação de “neura”, outra patologia corrente , a juntar ao “cacimbo” e a muitas “ites”, como por exemplo “pinganite”(pânico de fazer operações na serra Pingano), “vambite”(pavor de ir actuar  na serra Vamba) e ainda “quitoquite”, sim, é isso mesmo, medo de actuar na serra do Quitoque!...(Serra bem conhecida de quantos estiveram no sub-sector do Quitexe). Mas falando agora de outros assuntos, devo dizer que usávamos alguns indígenas contratados para servirem de carregadores  nessas  deslocações  em que era necessário transportar materiais  extra e aproveito para recordar um episódio interessante, ocorrido com um desses carregadores.  Numa dessas operações tínhamos carregadores e quando se estava a instalar o acampamento um dos nossos graduados pediu a um deles que fosse abrir uma vala com 2,5m de comprimento, 60 cm de largo e 80 cm de fundo, para servir de sentina. O carregador olha-o espantado e diz –lhe que uma vala com aquelas medidas não é “quadrada”, mas “rectangular”.Por sua vez, o graduado respondeu-lhe que ele tinha razão e perguntou-lhe se ele tinha andado na escola. Ele responde-lhe que sim e que tinha estudado Geometria!... O graduado deu meia volta e desapareceu do local, com cara de quem tinha dado um passo em falso. Por hoje vou acabar e, no próximo Capítulo, continuarei. Até lá!...
Octávio Botelho
(*)Nota do Redactor – Designação de uma mega-operação levada a cabo durante a nossa comissão, que foi realizada em diversas localizações, que se distinguiam uma das outras pela adição da inicial do seu nome próprio.

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

CAPº. - VII - "Fantasmas" na madrugada

Espero que o título deste capítulo vos não faça crer que acredito em “Fantasmas”. Este vocábulo é utilizado apenas para ilustrar literariamente o episódio que me proponho narrar-vos hoje e, após este breve e fantasmagórico preâmbulo vou prosseguir: Como já referi anteriormente, tínhamos nesta época uma grande actividade operacional, cuja preparação deveria ser feita na tarde da véspera e, no dia seguinte, de manhã, muito cedo completavam-se os últimos preparativos para que nada faltasse. Ora no dia em que iniciaríamos o deslocamento para o local em que se iniciaria a “operação”, a mesma ia desenrolar-se numa estação chamada do “cacimbo” ou “seca”(*), que se caracteriza por escassez de pluviosidade, mas, em compensação, durante a noite e madrugada, levantam-se enormes bancos de um nevoeiro saturado de humidade(o cacimbo) e que perdura até às 9 a 10 horas da manhã, só desaparecendo quando o sol já vai alto. A propósito, recorda-se  que era recomendado que, em viagens nocturnas e em dormidas ao ar livre, houvesse cuidado de nos resguardarmos do cacimbo, por ser possível apanhar algumas doenças do foro respiratório e outras não menos graves. Até diziam que podia ser atingida a área psiquiátrica, pois era vulgaríssimo tratar-se os doentes dessa área por “cacimbados”.
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Cerração de "cacimbo" em Angola
E os fantasmas” onde estão?!...Até agora não apareceram!... Esperem só mais um pouquinho e já os verão!...Ei-los: É madrugada!...Aí pelas quatro a cinco da manhã!...No exterior das casernas, está frio, um frio intenso e húmido e há um nevoeiro cerrado envolvendo o ambiente!...Primeiro, aparece um vulto indefinido, depois outro e mais outro. Não se consegue distinguir quem é quem, pois as palavras proferidas são poucas e mal articuladas!..Parecem na verdade “fantasmas” saídos de um sonho de pesadelo .Há pouco, estava tudo em silêncio e, de repente, ouve-se um rumor surdo e vago dos militares em movimento. Tem que se fazer o mínimo de barulho, pois há muitos outros camaradas que estão a descansar e não devem ser acordados!... Ouve-se em simultâneo o movimentar das “Mercedes”, dos “Unimogs 411 e 404” e dos Jeeps. Os vultos encaminham-se para o telheiro da padaria, onde, ao longo da noite, esteve o nosso “boulanger” com os seus ajudantes a cozerem o pão para o dia da Companhia e para os GC levarem para a mata, guardados em sacos de plástico para durarem frescos mais tempo e terão que durar para cinco ou seis dias. As R/C já tinham sido fornecidas na véspera à tarde, assim como o reforço de municiamento e a distribuição do armamento pesado. Quanto à  dotação individual de munições, essa estava continuamente actualizada e pronta a ser utilizada em qualquer emergência.
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Ração de Combate, tipo E
De seguida, começa o pessoal a trepar as “Mercedes”(neste tempo ainda não haviam as “Berliets” que, só depois dos anos 68 começaram a surgir em Angola) e os Unimogs. Depois de todos montados, iniciava-se um viagem de uma ou duas horas para o local destinado,  pelo Plano para ser batido e patrulhado, durante cinco ou seis dias. Teríamos de percorrer um  itinerário que era, diariamente confirmado pelo PCA(avioneta Dornier) e, percorrido que fosse na totalidade, iríamos sair a um local diametralmente oposto àquele da entrada, onde já estariam à nossa espera as viaturas da nossa Companhia para nos reconduzirem ao nosso aquartelamento. Embora não tenha relatado qualquer contacto com o IN, não quer isso dizer que passámos aqueles dias sem que o mesmo tenho manifestado a sua presença e actividade! Não o fiz, por julgar supérfluo relatar tais ocorrências. Mas mesmo assim, posso referir que quando contactávamos eles se fartavam de injuriar, as nossas mulheres, as nossas mães até os nossos familiares não escapavam ao vendaval das suas invectivas. Quanto ao início de hostilidades, ele sempre partia da parte deles. Nós raramente os víamos e quando isso acontecia, era de longa distância. Mas nas emboscadas, a iniciativa era exclusivamente deles, mas sem manterem as suas posições! Fugiam, mas ao fazerem-no disparavam, ineficazmente, pois não tinham possibilidades reais de acertarem um único tiro!..E nós só tarde demos conta de tal procedimento, que tinha efeitos negativos sobre o ânimo dos nossos militares, mas apenas por efeitos psicológicos e de incerteza daquilo que na realidade, ocorria. E, por hoje, acho que já chega de evocação de factos tão antigos, mas que, na nossa memória, continuam indeléveis. No próximo capítulo, prosseguirei. Até lá!..
Octávio Botelho
(*)-Nota do  Redactor – Em Angola, a  estação do “cacimbo” ou “seca”, decorre de Maio a Setembro; a das “chuvas”, de Outubro a Abril.

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

CAPº. - VI - Começo da "Odisseia"

Com o relato que me propus iniciar não tenho a pretensão de alcançar qualquer protagonismo para mim próprio, nem para qualquer outra pessoa.
Limitar-me-ei a ser um narrador linear, conciso e preciso de alguns factos ocorridos, sem destacar nenhum em especial. Após este esclarecimento, que julguei necessário, poderei iniciar a narração da minha “odisseia” em Angola.
A nossa partida de Lisboa a bordo do “Vera Cruz”, como já referi, ocorreu no dia 28MAI65 e desembarcámos em Luanda, nove dias depois, ou seja, no dia 06JUN66, entrando no mesmo dia para o Campo Militar do Grafanil, onde estivemos abivacados até ao dia 11 do mesmo mês, dia em que, já noite avançada, chegámos à Fazenda Liberato,  nosso quartel durante alguns meses, que foram de intensa  actividade operacional, em que trepámos serras abruptas, tais como as serras de Quitoque, Cananga, Uíge, Quivinda, Pingano e tantas outras que, para lhes chegarmos ao cimo, se levavam umas boas 6 horas. Chegávamos ao alto e ficávamos com um amplo panorama em que se viam, de longe em longe, algumas localidades e Fazendas. Eram um regalo para a vista e para descansar, pois que, à hora a que chegávamos lá ao alto, só dava para comer algo, preparar o local para se passar a noite e repousar para, no dia seguinte, ao romper do dia, e às vezes, ao toque de “Alvorada”, pelo clarim,  iniciar a operação, que consistia em atingir determinados objectivos que já estavam cartograficamente assinalados e referenciados por reconhecimento aéreo.
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Fazenda Stª.Isabel. À direita, a "sanzala" dos Bailundos. No centro, o "Fortim" casa do Gerente e Quartos dos Oficiais, alguns sargentos e Messes. O Terreiro central está com café em secagem.
Muitas vezes, haviam recontros com o IN que, quase sempre ou sempre, era quem iniciava as ofensivas, lançando emboscadas , que algumas vezes tinham êxito, mas nem sempre. O pior era que, após o lançamento da emboscada, eles  “davam  à  sola”, pois conheciam a mata como os dedos das mãos, atirando por cima dos ombros e para as nuvens, tiros que eram, na realidade, ineficazes e até inofensivos, mas que tinham um negativo  efeito psicológico  sobre os militares que, assim, sofriam os efeitos dos chamados “fogos de flagelação”, que apenas tinham efeitos  arrasantes, embora carentes de real eficácia.
Nessas deslocações na mata e em combate, a única forma de avançar em frente e com maior rapidez, em matas completamente cerradas, era a “fila indiana”. A táctica de reacção a qualquer emboscada, era desencadeada  apenas pelos  primeiros três ou quatro elementos da fila, sendo que o primeiro da frente era, normalmente, um “Guia”, conhecedor da zona em causa e que abria o trilho à catanada e  se atirava ao chão imediatamente, quando haviam ataques. Logo a seguir, ia um apontador armado de metralhadora “MADSEN” ou “DREYSE”, com um  municiador, armado com G-3 e um guarda-costas, armado de Esp.Mauser, FN, ou G-3. Muitas vezes levávamos também um morteirete de 60mm  e uma Bazooka. E eram estes e só estes que atiravam em resposta ao ataque, pois a restante coluna amochava até tudo acalmar.
Estas operações duravam 4 a 6 dias, findos os quais éramos recolhidos por viaturas para o nosso Aquartelamento, onde tomávamos banho, comíamos uma refeição quente, pois tínhamos estado a R/C e depois, descansávamos com uns bons sonos de que bem precisávamos.
Esta dura rotina manteve-se até cerca do fim de 65, data em que fomos transferidos, por troca com a CArt 784, do Liberato para a Fazenda Stª.Isabel que, em comparação com a que tínhamos deixado, tinha uma instalações excepcionais. O CMDT ficava na casa do Gerente, uma espécie de Fortim com muros à prova de “bazooka”, num quarto individual. Os Oficiais, também em casa do Gerente, ficavam em quartos, dois a dois.  Os Sargentos estavam também em quartos, dois a dois e alguns a três, em residências de antigos funcionários da Fazenda. As Praças estavam em dois ou três armazéns das instalações, em bastante melhores condições que no Liberato.
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Funeral do Fur.Pereira Pinto e do Sold.Malheiro, no Quitexe, em l966
Corria tudo às “mil maravilhas”, não falando na actividade operacional que continuava intensa, quando num Domingo, 24ABR66, sai da Fazenda Stª.Isabel uma coluna auto, composta por um Jeep Willys e dois Unimogs 411, com destino a Carmona, comandada pelo Fur, Milº. Luís Joaquim Pereira Pinto. No percurso para aquela cidade e por alturas da serra da Quivinda, a viatura militar em que seguia, teve  um choque com uma viatura civil, tendo resultado do mesmo a morte instantânea do Furriel Pinto e do respectivo condutor, Sold.Malheiro e mais dois  feridos com certa gravidade, que seguiam na mesma viatura, (O Fur. Vagomestre e o  Fur. das TRMS) que foram evacuados para o HM/Luanda. Foi este o primeiro “golpe” do azar que teve a CArt 785 e que deixou toda a Companhia desmoralizada e de “rastos”. Ainda hoje, ao relatar esta fatal ocorrência, presto sentida homenagem aos camaradas “Trasmontano” e “Minhoto”que, naquele infausto dia nos deixaram tão de improviso e que hoje estão, como se diz, “esperando por nós”!...
Por hoje fico por aqui. Espero que não tenham ficado desiludidos. No próximo Capítulo continuarei a minha narração.
Até lá!...
Octávio Botelho

sexta-feira, 29 de julho de 2011

CAPº. - V - Comando e Estado-Maior

Monumento aos mortos no Liberato
A CArt 785, foi uma Companhia que teve uma grande quantidade e variedade de Comandantes, como a seguir se descrimina:
Desde o início da Formação da Companhia (fins de 1964) até 21/07/65:
- Cap. de Artª. -José Manuel de Almeida Costa;
Desde 22/07/65 até 22/10/65, interinamente:
- Alf. Milº. -Henrique Pereira da Costa Tavares;
Desde 23/10/65, até 12/01/66:
- Cap. de Infª.- Alberto do Rosário Félix;
Desde 13/01/66 até 05/05/66
- Cap. de Infª. – José Maria Teixeira de Gouveia;
Desde O6/05/66 até 02/10/66:
- Cap.Milº.Infª.Gradº.- José Manuel de Macedo Velez Caroço;
Desde 03/10/66 até 02/11/66, interinamente:
- Alf.Milº. – Henrique Pereira da Costa Tavares;
Desde 03/11/66 até 23/06/67:
- Cap. Milº.Infª. Gradº.-José Manuel de Macedo Velez Caroço;
Desde 24/06/67, até à entrega da CArt 785, no RAP-2, em fim de comissão, interinamente:
- Alf .Milº. Henrique Pereira da Costa Tavares.
Como se vê, uma grande variedade de pessoas, cada uma com seu carácter próprio mas que, no geral, se revelaram como excelentes chefes, preocupados sempre com o pessoal sob o seu Comando e responsabilidade.
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Falta agora mencionar o restante Estado-Maior da CArt, cuja discriminação é a que segue:
1º.Sargento  -  1º.Sarg.Artª. – Francisco José da Silva
Sarg.TRMS -   Fur.Milº.     -  António Lemos Rodrigues de Carvalho
    “    ALIM.-                       - Manuel dos Santos Silva
    “    MEC.           “             - Leonel Fernando Marques Ferreira
    “    SAUDE       “              -Carlos Casimiro de Almeida
1º. GC  . CMDT Alf.Mil     -Henrique Pereira da Costa Tavares
     “         1ª.SEC Fur.Artª.  - José Ângelo
     “         2ª.   “    Fur.Milº  .-Manuel Artur dos Santos Nogueira de Sousa
     “         3ª    “         “        -Fernando Martins Cardoso
2º. GC . CMDT Alf.Milº.  –Miguel Lopes de Almeida
      “        1ª.SEC  Fur,        - Valentino Manuel Francisco Xavier Viegas
      “        2ª.  “           “      - Luís Carmona de Jesus
      “        3ª.  “           “      - António João Croca
3º. GC . CMDT Alf.Milº – António Cândido da Silva Tinoca
        “      1ª. SEC. Fur.Artª – Octávio Barbosa Botelho
        “      2ª.   “      Fur.Milº-  Luís Joaquim Pereira Pinto (a)
        “      3ª.   “           “       - Claudino Ferreira Santos Almeida Henriques
4ª. GC . CMDT Alf.Milº – António Júlio Marques Dinis
        “      1ª.SEC. 2ºSg.Artª – Manuel Simões Roque
        “      2ª.   “      Fur.Milº – João Carlos Pinto Lourenço
        “      3ª.   “           “        - Manuel da Conceição Santos
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(a) Faleceu, por acidente de viação, em serviço, em 24 de Abril de 1966, tendo sido substituído por um outro Fur, Milº., António Carrilho Costa.   Enquanto  prestou serviço  foi o Pereira Pinto um excelente camarada, pelo que me curvo perante a sua memória.
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Era esta a composição e elenco do Comando e Estado-Maior (staff) da CArt 785, uma colecção de 22 pessoas, cada uma com as suas  maneiras de olhar o mundo e todas as pessoas que o ocupam, mas que, de um modo geral eram, todas elas , interessadas em assistir ao pessoal sob o seu Comando que, evidentemente, tinham as suas maneiras próprias de encarar a vida e a situação anormal em que se encontravam.
Este “post” já está um pouco longo e, por hoje acho que já chega e vou terminar até que chegue o novo Capítulo que espero, tenha uma outra componente mais agradável para os leitores.
Até lá!...
Octávio Botelho

sexta-feira, 22 de julho de 2011

CAPº. - IV - A "Estância" do Liberato

A Fazenda Liberato era, com referi no capítulo anterior, uma fazenda com plantações de café, com uma dependência não habitada em permanência, situada a uns quinze quilómetros da sede, que em 1961, com a eclosão das acções terroristas dos Movimentos de Libertação MPLA  e UPA, foi completamente destruída,  nas suas instalações e, com a chegada dos primeiros contingentes do Exército, os proprietários, tendo recuperado um tanto sumariamente as suas instalações (Casa do Gerente, moradias para o pessoal europeu, os armazéns, a sanzala e posto de socorros dos contratados bailundos), colocou à frente dos trabalhos agrícolas dois funcionários europeus, um deles Gerente ou Caseiro do Patrão e o outro para controlador dos trabalhadores africanos, devem ter sido solicitados para facultarem aquartelamento para as suas Companhias, pois ficariam com a propriedade protegida de futuras incursões dos guerrilheiros dos ML. Não  tínhamos  sido os primeiros a beneficiar do abrigo das instalações cafeeiras, mas talvez os terceiros a beneficiarem delas.
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Fazenda Liberato -  Esplanada dos Sargentos, ( Atrás: Fur. Croca, Alf. Tinoca e Furriéis Conceição Santos e Claudino. Na frente: Fur.Carmona. Os três restantes, são desconhecidos.
As instalações da Fazenda ficavam numa Colina sobranceira a um vale, com  uma  boa disposição defensiva, com vigilância contínua às possíveis vias de infiltração do IN, com postos de sentinela , tipo abrigo, semi-enterrados no solo e protegidos do sol e da chuva por um telhado de cerâmica e voltados para o exterior, que se encontrava capinado e desprovido de vegetação que pudesse acobertar quaisquer movimentos, numa distância de 200 metros em toda a volta, com  uma cerca defensiva de arame farpado e projectores apontados ao exterior, alimentados por um gerador que só trabalhava durante a noite.
Relativamente a alojamento para as praças, estas tinham quatro edifícios, antigos armazéns , um para cada GC. Os sargentos, estavam alojados em camaratas com quatro a seis camas no máximo. Os Oficiais em quartos com duas camas. O Comandante, tinha um  quarto  individual, com uma saleta anexa, servindo de Gabinete. A secretaria tinha duas dependências: Uma servia de secretaria e a outra de quarto para o 1º.Sargento. Havia uma dependência para o Posto de Socorros militar e gabinete médico. As TRMS tinham uma sala para o Posto Rádio e Alojamento para os Operadores, assim como um alojamento privativo para o Posto Cripto  e respectivos operadores.
Como disse, as instalações tinham sido reconstruídas, pois os eventos de 196l, deixaram tudo em ruínas e, apesar das reconstruções e reparações  efectuadas , notavam-se ainda alguns vestígios daquela destruição.
O principal, estava garantido: tínhamos casa, alimentação, um relativo conforto, mas o mal maior era o isolamento em que nos encontrávamos. A quarenta quilómetros da mais próxima povoação, que apenas possuía um Bar, onde se serviam umas refeições mais ou menos aceitáveis e que se chamava “ Ali Bar”. Tinha uma CCaç. aquartelada em permanência, com uma dúzia e meia de casas, e com várias sanzalas em volta um   bocado afastadas do centro da povoação que se chamava Aldeia Viçosa, por onde passava a estrada Carmona-Luanda. Podíamos dizer que estávamos ali, no meio do nada.
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Mapa da zona de intervenção da nossa companhia em Angola
Chegados ao nosso aquartelamento, tínhamos à nossa espera uma recepção: Os elementos da  CCaç. que íamos render e de que já não me recordo a designação, davam “vivas” aos “maçaricos”, que mais pareciam bonecos de terra vermelha que com o suor se tornara castanha e parecíamos mais africanos do que “maçaricos”. Chegamos já noite escura ao nosso destino e pouco mais podíamos fazer do que procurar lugar para nos acomodarmos para descansar!...Banhos, só no dia seguinte, pois não tínhamos água corrente. Os chuveiros eram de  bidões , colocados no telhado duma cabina, , com um crivo com torneira roscado a um cano que ligava os bidões pelo fundo para saída da água, que era aquecida pelo sol, quando havia sol. A água era acarretada do rio, que ficava a uns 500 metros de distância, nos atrelados de água e posta nos bidões com baldes.
Após a instalação, ficámos em sobreposição, por uma semana, durante a qual fizemos com os “velhos” uma operação, com um efectivo de 2 CG, numa área afastada da Sede uns 10 Km., sendo um dos GC da nossa Companhia e outro, dos “veteranos”. Fomos avisados de só ali íamos para vermos como funcionavam as coisas na guerra “a sério” e que, só por ataque directo ao nosso GC, poderíamos reagir com os meios defensivos que tínhamos à disposição para o efeito, pois, de contrário, a nossa reacção seria deitar ao chão e aguardar calmamente que as coisas se resolvessem apenas com eles. Mas os malandros escolheram um lugar que sabiam ser relativamente seguro para o aspecto de surpresas militares, mas inseguro noutro aspecto, pois esse lugar estava infestado por uma planta urticante, conhecida pelo nome de “feijão maluco” e manobraram com tal conhecimento táctico que fizeram com que a maior parte do nosso GC ficasse parado num local fartamente infestado pela tal planta, de que não conheciam os efeitos e, por pirraça e brincadeira, lá à frente da fila alguém disparou um inofensivo tiro que obrigou a que os “maçaricos”, se atirassem ao chão, mesmo em cheio, para cima do “feijão maluco” e imaginem, a  cena que se desenrolou em seguida: Toda a gente que tinha caído sobre as plantas, começou a coçar-se e de que maneira!...E eles, lá à frente, a rirem-se da cena!...
Neste período houve ainda mais uma operação conjunta, esta já para um lugar mais arriscado (Alto Dange), ali perto de Aldeia Viçosa. Esta já foi a nível de Batalhão e com dois AGR/C (2 Companhias, sendo uma de “maçaricos” e outra “veterana”, sendo que esta seria a líder e outra seria a “estagiária”. Desta vez, houve mesmo recontros a sério e não houveram partidas malandras da parte dos “velhos”. E os “maçaricos” portaram-se bem,  de um modo geral!...
Por agora, vou ficar por aqui, para ter alguma coisa que contar no próximo Capítulo.
Até lá!...
Octávio Botelho

sexta-feira, 15 de julho de 2011

CAPº. III - Chegada a Luanda - Início da Guerra

Atracado ao porto de Luanda o paquete “Vera Cruz”, iniciou-se imediatamente o desembarque. Fomos encaminhados para uma composição estacionada numa gare junto ao porto que, após cerca de vinte minutos de marcha, nos deixou num apeadeiro situado próximo da entrada do Campo Militar do Grafanil . A entrada era impressionante, tinha um controlo de entrada de viaturas e pessoal, com um balancé accionado por um vigilante numa casa situada a um dos lados da entrada. Tinha-se acesso a uma larga avenida, com diversos edifícios tipo armazém, dos dois lados. Eram na realidade, armazéns de diversos materiais necessários á logística própria de uma guerra: Depósitos de Material de Guerra, de diversos tipos, como armamentos, equipamentos, material Auto, de Intendência , etc…!
Subia-se a avenida de entrada e, ao fim de uns cem a duzentos metros, voltava-se à direita e, do lado esquerdo, estava situada a célebre “Capela do Imbondeiro”, dedicada a Nª.Srª. de Fátima e do lado direito, ficava o cinema do CM do Grafanil, que tinha um “écran” para Cinemascope, um palco, para espectáculos de “variedades” e uma cabina de projecção equipada com os mais modernos projectores de cinema. Só tinha 1ª. e 2ª. Plateias, não possuindo Geral nem Balcões e se chovesse não havia sessão, pois a esplanada não tinha coberta. Tinha, no entanto, um Bar bastante bem equipado e fornecido de cervejas , refrigerantes e outras bebidas mais selectas.
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Grafanil - Capela no Imbondeiro

Voltava-se novamente para a esquerda e, ao fim de cerca de duzentos metros, entrava-se numa área com edifícios compridos e baixos com um corredor ao meio e dois tabuleiros feitos de cimento ao logo das paredes laterais e que serviam de camas para as praças, que ali dormiam sobre colchões de espuma. As paredes laterais não encostavam ao coberto dos edifícios, deixando um abertura de cerca de um metro de altura entre o telhado e o cimo da parede lateral para circulação de ar e arrefecimento do ambiente, num perfeito arremedo de ar condicionado.
Os sargentos ficavam alojados num barraca tipo JC servindo de camarata. Numa outra barraca idêntica à dos Sargentos, mas de tamanho menor, ficava a Secretaria da Companhia e o alojamento para o 1º.Sargento.
Durante o dia, o local não era muito quente e suportavam-se muito bem as temperaturas!...Mas à noite?!?... Então é que era o bom e o bonito!...Só se ouviam dar palmadas na cara, nas mãos e por toda a parte descoberta do corpo, pois havia uma invasão de mosquitos que pareciam esfomeados e no dia seguinte, estávamos todos pintalgados das ferroadas que nos davam!...
Um dia ou dois depois de chegarmos ao Grafanil, foi-nos entregue o armamento, equipamento e todo o material necessário para poder-mos deslocar-nos para a nossa zona de actuação.
Uma vez completa a operação anterior, chegou o dia de se iniciar o movimento de deslocação, em coluna auto, composta por camiões de carga, de caixa aberta, para a nossa zona de actuação, que era o sub-Sector do Quitexe, Sector de Carmona, onde ficaria a séde do BArt 786 e a respectiva CCS. A nossa CArt 785, ficaria aquartelada nas recém-recuperadas instalações de uma plantação de café, designada por Fazenda Liberato. Para chegarmos ao nosso destino, tivemos que percorrer: 10 Km, do Grafanil a Luanda, 180 Km, de Luanda a Aldeia Viçosa e 39 Km, de Aldeia Viçosa à Fazenda Liberato, perfazendo um total de 229 Km, a maioria dos quais, em boa estrada asfaltada . O percurso Aldeia Viçosa Liberato é que era o pior: Picada, com piso de macadame (laterite), sofrível em tempo seco, embora com muita poeira, mas terrivelmente má no tempo das chuvas.
Foram-nos dadas rigorosas instruções para que, no caso de haver alguma emboscada. , não se disparasse um único tiro sem razão justificativa, isto é, sem que se visse alguém a atacar-nos directamente. A reacção contra essa acção estaria unicamente a cargo da parte directamente atacada. Todos os restantes apenas se abrigariam o melhor possível e ficariam “sossegados” e “calados”. Fomos informados de que essa atitude era a mais sensata e revelaria que éramos ponderados na utilização dos nossos meios de defesa e que o In ficaria avisado de que não éramos para “brincadeiras” e nos deixaria em paz, vendo a nossa táctica como muito perigosa para ele.
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Aerodromo da Fazenda Liberato - Alf. Dinis, Furriéis Croca, Claudino, S. Silva, 2º Sarg. Botelho e Alf. Tinoca
De facto, não houve qualquer “emboscada”, no percurso Luanda – Quitexe. Apenas um dos pneus de uma das viaturas teve a infeliz “ideia” de rebentar e, nem queiram saber!...Pensavam que tinha sido uma mina A/C, e saltaram todos para o chão, à espera da sequência lógica de tal facto: uma “saraivada” de tiros que, felizmente, não aconteceu.
Ao chegarmos a Aldeia Viçosa, chegávamos ao início do caminho de acesso ao aquartelamento da nossa Companhia, que era a já referida Fazenda Liberato, que ficava a uma distância de cerca de 39-40 quilómetros de Aldeia Viçosa, cuja picada se encontrava em péssimo estado de conservação e levávamos duas a três horas e, às vezes mais, dependendo da época em que estivéssemos [cacimbo (seca) ou chuvas) para fazermos tal percurso. Acrescia o facto de, ao longo dessa picada, existirem restos de sanzalas (Cólua e outras), em que houvera , há cerca de um ano, um massacre de uma coluna militar, da Fazenda Liberato, que regressava ou voltava para o seu Quartel. Em revanche, caíram em cima dessas sanzalas algumas grandes operações que levaram a ferro e fogo tudo quanto lhes apareceu pela frente. A partir daí, passou a haver tranquilidade relativa em tal percurso.
Mas, acho que esta narrativa já vai um pouco avançada e vou terminar por hoje, para continuar no próximo capítulo.
Até breve.
Octávio Botelho

sexta-feira, 8 de julho de 2011

CAPº. II - Os Antecedentes

Prosseguindo com a minha narração, cerca de uma semana  após me ter apresentado no RAP-2, chegaram do RI-10(Aveiro), os militares que iriam fazer parte dos efectivos da CArt 785, tendo-se iniciado a IE. Estes militares, na sua grande maioria, eram do Norte, Nordeste, Centro e Beiras. A minoria era composta por pessoal originário da área de Lisboa, Alentejo e Algarve. Foi uma instrução muito dura e intensiva, com a aprendizagem das tácticas de combate, muito interessantes e vistosas, quando presenciadas em campos de treino e instrução teórica mas que se revelariam, no futuro e na hora da verdade, completamente inúteis e desapropriadas, uma vez que as tácticas que se praticavam nessas instruções não se adaptavam em nada ao teatro da guerra que se nos deparava no ambiente africano.
Após completada a IE, iniciou-se a IAO, que constava de uma série de” nomadizações”, “golpes de mão” e “emboscadas”, que mais pareciam encenações teatrais do que outra coisa, mas que cumpriam bem a sua missão de nos deixar estafados. Este último exercício foi rematado por um  regresso à Unidade em marcha apeada e com o peso máximo do equipamento individual  em cima dos costados.
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Vila nova de Gaia - RAP-2
Uma vez que estava prestes a iniciar-se a formação de uma nova Unidade expedicionária, tivemos que ser enviados para Viana do Castelo, onde os militares ficaram aquartelados no Forte que deu o nome à cidade. Quanto aos oficiais e sargentos almoçavam no BCaç 9, jantavam, dormiam e tomavam o P.Almoço em Pensões. A minha nunca mais lhe esqueci o nome: “Pensão Gorro Branco”, na Rua de Manuel Espregueira!... Ali continuámos  os exercícios, com acampamentos em Vila Franca do Lima e Castelo do Neiva, sessões de tiro na CT do Monte de Stª.Luzia  e por fim mais uma marcha apeada com equipamento máximo.
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Navio Vera Cruz
Uns dias após as Festas da Senhora d’Agonia, logo de manhã cedo junto ao Castelo, na linha férrea que lá passava, estava estacionada uma composição que nos conduziria ao Cais de Alcântara, em Lisboa, onde se encontrava atracado o paquete “Vera Cruz” para nos transportar para Luanda. A viagem durou 9 dias em que, todos nós, de um modo geral tivemos um tratamento VIP em todos aos aspectos, que nos fez aumentar uns quilitos. Foram estes os melhores dias que tivemos, até ao dia em que pusemos o pé em África.
Mas,por hoje chega!...No próximo capítulo reiniciarei a narração que me
 propuz relatar.
Até lá!...
Octávio Botelho

quinta-feira, 23 de junho de 2011

1ª.PARTE- CAP.º I - A Minha Guerra em Angola

 A minha Guerra em Angola iniciou-se, efectivamente, a partir de meados de 1965. Mas já um pouco antes, no ano de 1964, começaram a sentir-se os seus efeitos psicológicos que se iniciavam com saber-se que estávamos nomeados e mobilizados para as ex-colónias. Assim, poderei dizer, sem faltar à verdade que, na realidade, os efeitos nefastos daquela guerra começaram antes de ter entrado nela de facto.
Companhia de Artilharia 785
Iniciando, então, com a narração da minha odisseia africana, situo o seu começo por alturas do último trimestre de 1964. Neste ano, fora promovido, vindo do SMO, ao posto de Furriel do QP de Artilharia, sendo colocado na minha Unidade de origem, a BAG nº.1, sedeada em Ponta Delgada, São Miguel, Açores. Estava já casado desde 1962(casei-me com 25 anos, pois as Leis Militares da época, não permitiam o casamento antes daquela idade) e quando ocorreu a minha mobilização para Angola já tinha uma filhota, que se tornou única e que tinha um pouco mais de um ano de vida. Prosseguindo a narração, como disse acima, pelos fins de 1964 e como directa consequência da minha promoção a Furriel e acesso ao QP, fui mobilizado para Angola, por imposição, integrado numa Unidade de reforço à guarnição normal da RMA, sob a designação de CArt 785/BArt 786-RAP-2, actualmente designado por RASP, com sede em Vila Nova de Gaia. Em consequência de tudo isto, é-me conferida, por alturas de Novembro/64, Guia de Marcha para o RAP-2, utilizando como transporte de Ponta Delgada para Lisboa, o decrépito N/M”Carvalho Araújo”, da Empresa Insulana de Navegação, que fora capturado aos alemães na II Guerra Mundial e que era um autêntico museu de antiguidades e rangia por todas as juntas à mais pequena ondulação. Depois de 4 dias de viagem, com uma breve paragem no Funchal, cheguei a Lisboa, desembarcando no Cais da Rocha, partindo dali para o DGA, na Ajuda. Ali é-me fornecida RT para a via férrea, no comboio para o Norte, das 23H55. Para uma viagem inaugural neste meio de transporte, devo dizer que foi uma autêntica desilusão!...: Composição puxada por locomotiva a vapor, estofos dos assentos em “sumapau”, sem aquecimento e uma carruagem atafulhada de gente, sobrepostos quase como sardinha salgada. Iniciada a marcha, parecia que tinham posto na carruagem rodas oitavadas e, dada a curteza dos carris, parecia estarmos no meio de uma cavalgada, pois só se ouvia e sentia um contínuo “catrapuz!...catrapuz!...catrapuz!”…Dormir?! Nem pensar!..., pelo menos eu, pois que os meus companheiros, apesar de tudo, dormiam como anjos em cama de nuvens!...
Continuarei a descrever a minha saga em próximo Capítulo!...
Saudações para todos aqueles que me lerem e até breve!...
Octávio Botelho